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Img Grécia antiga

Na cultura grega, a loucura era considerada um sinal de ligação direta entre os homens e os deuses. Os loucos eram capazes de profetizar o futuro e conheciam todos os mistérios da vida. Eram especiais e admirados. Até que Hipócrates, no século 4 a.C. propõe que os transtornos mentais seriam relacionados ao mau funcionamento do organismo: a bílis é que causaria a mania ou a melancolia.

Img idade média

Nessa época, a distinção entre o saudável e o patológico é dada pela Igreja. A Bíblia contém:

“O espírito do homem o sustenta na doença; mas, o espírito deprimido, quem o levantará?”

– Provérbios 18:14

“Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos.”

– Romanos 1:22

“Porque a ira destrói o louco; e o zelo mata o tolo.”

– Jó 5:2

“Os sábios herdarão honra, mas os loucos tomam sobre si vergonha.”

– Provérbios 3:35

“A mulher louca é alvoroçadora; é simples e nada sabe.”

– Provérbios 9:13

As pessoas com transtornos mentais eram exiladas, enviadas para outras cidades ou para a morte certa.

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O homem se torna o centro de tudo e desafia as doutrinas religiosas. O racionalismo inaugurado por Descartes (1596-1650), com o seu “penso, logo existo”, coloca o homem como ser racional em oposição ao doente mental, irracional. Os transtornos mentais passam a ser um problema da ciência e por ela incluídos e explicados. As pessoas, porém, ainda eram apartadas do convívio social, mas agora enviadas para os “hospitais gerais”, antigos leprosários, para onde também iam todos os indesejados e que não seguissem as normas da razão.

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FORA DA CURVA

– quando a exclusão ainda era a regra, um livreiro chamado João Cidade (que posteriormente, canonizado, se tornou João de Deus), na Portugal de 1500, tem um surto maníaco e é levado para o pátio de uma igreja onde ficavam os chamados alienados. Um dia, depois de um sonho, ele pede para que lhe tirem as correntes e passa a tratar dos doentes. Ele funda a ordem religiosa das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, É UMA ÉPOCA DE REFERÊNCIAS RELEVANTES NA LITERATURA:

William Shakespeare (1564-1616) escreve sobre três célebres “loucos”, que marcaram a sua obra e o imaginário humano: Hamlet, um obsessivo que flerta com a ideia do suicídio; Macbeth, que alucina tomado pela culpa; e Falstaff, o alcoólico intenso e descontrolado.

Miguel de Cervantes, com seu Dom Quixote (1600), propõe um brilhante diálogo entre a razão e a loucura.

As pessoas com transtornos mentais eram exiladas, enviadas para outras cidades ou para a morte certa.

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A vida nos grandes centros urbanos empurra os transtornos mentais para a exclusão e para a rejeição, nos manicômios. Mas é também nos séculos 19 e 20 que a psiquiatria se desenvolve. Com Philippe Pinel (1745-1826), nascem os fundamentos do que viria a ser a psiquiatria: os chamados alienados seriam doentes com distúrbios no sistema nervoso.

É no século 20 que a psiquiatria se estabelece como especialidade médica, propondo tratamento e cura para os transtornos mentais. Os primeiros tratamentos com fármacos passam a ser usados nos anos 1930, evoluindo nos anos 1950 com os antipsicóticos e antidepressivos.

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Nos anos 1960, a contracultura faz nascer a antipsiquiatria e a luta antimanicomial. Dois nomes foram importantes nesse momento: o médico italiano Franco Basaglia (1924-1980) e, no Brasil, a médica Nise da Silveira (1905-1999). Se, por um lado, esse movimento expôs os abusos dos manicômios e humanizou o tratamento, também fez alimentou a ideia de que o transtorno mental não deve ser tratado.

Assim, foi só nos anos 1990 que a especialidade se restabeleceu como capaz de tratar o sofrimento de quem tem transtornos mentais.

Seria a loucura um continente?

– No Brasil, Machado de Assis publica, em 1882, o conto O alienista. Nele, Simão Bacamarte, o alienista, fala de sua iniciativa: “Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”

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Hoje, os estudos em neurociência ganham campo e aumentam o conhecimento sobre os transtornos mentais e seus tratamentos. As pessoas que têm transtornos mentais podem contar com uma diversidade de cuidados e participam do convívio social, enfrentando resquícios de estigmas e preconceitos que carregamos dessa longa história.

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