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Nos últimos anos, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) passou a ser um dos temas mais comentados quando se fala em saúde mental.

“O assunto em redes sociais disseminou o conhecimento sobre o transtorno, causando aumento na busca por entendimento do porquê algumas crianças, e até adultos, têm dificuldades em manter o foco, controlar impulsos ou lidar com a agitação”, comenta Dr. Rogério Onofre, médico psiquiatra (CRM-SP 192.427).

De acordo com a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), entre 5% e 8% da população mundial apresenta TDAH. Além disso, estima-se que 70% das crianças com o transtorno apresentam outra condição associada, como ansiedade ou dificuldades de aprendizagem, e pelo menos 10% convivem com três ou mais dessas comorbidades.¹

Mas, apesar da popularidade do tema, ainda há muitos aspectos pouco conhecidos sobre o transtorno. O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, o que significa que está ligado a alterações no funcionamento e na maturação do cérebro. Essas alterações interferem na capacidade de atenção, no controle dos impulsos e na regulação emocional, podendo impactar a vida escolar, social e familiar.¹

“Muitos pais chegam ao consultório atentos à ideia de que o TDAH é sinônimo de inquietação e impulsividade, mas o transtorno é muito mais complexo do que isso. Existem aspectos menos comentados, como fatores biológicos, genéticos e até ambientais que interferem na forma como ele se manifesta. Conhecer essas nuances ajuda a identificar o problema com mais precisão e evita rótulos equivocados”, afirma o especialista.

Abaixo, reunimos cinco informações importantes sobre o TDAH que podem auxiliar no diagnóstico e aumentar o entendimento do distúrbio.

1.  O TDAH é mais do que agitação

O tipo menos comum de TDAH, que tende a ser mais desatento do que agitado, pode ser mais frequente em meninas, mas não é exclusivo delas.² Independentemente do gênero, muitas crianças e adolescentes com o transtorno não são inquietos, mas sim distraídos, sonhadores, desorganizados e têm dificuldade em manter o foco em tarefas rotineiras³.

O TDAH se divide em três apresentações principais:²

  • TDAH de apresentação predominantemente desatenta (ADHD-I): a criança se distrai com facilidade, esquece tarefas, comete erros por descuido e tem dificuldade em se organizar;

  • TDAH de apresentação predominantemente hiperativa-impulsiva (ADHD-HI): a criança é inquieta, fala muito, interrompe os outros e tem dificuldade em esperar a vez;

  • TDAH de apresentação combinada (ADHD-C): reúne sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade.

“Reconhecer o TDAH ‘silencioso’, que não vem acompanhado da hiperatividade, é essencial para evitar que crianças distraídas sejam rotuladas apenas como ‘preguiçosas’, quando na verdade precisam de apoio especializado”, ressalta o Dr. Rogério Onofre.

É importante destacar que, conforme a criança cresce, os sintomas mudam. A agitação física tende a diminuir na adolescência, mas os sinais de desatenção e impulsividade permanecem, podendo afetar o desempenho escolar, o relacionamento com colegas e a autoestima. Essa mudança também explica o desafio no diagnóstico de adultos.4

2. O TDAH pode ser hereditário

Uma das descobertas mais recentes sobre o TDAH é o seu forte componente genético. Estudos genéticos identificaram 27 regiões do DNA associadas a um maior risco para o desenvolvimento do transtorno. Essas variantes estão ligadas a áreas do cérebro responsáveis por funções como atenção, motivação e planejamento, especialmente neurônios dopaminérgicos, que regulam a liberação de dopamina, substância essencial para o foco e a tomada de decisões.5

Estima-se que cerca de 30% das crianças com TDAH têm um ou ambos os pais também diagnosticados com o transtorno.¹

Saber se o TDAH na criança é acompanhado de casos na família pode fazer toda a diferença no ambiente familiar6. “Costumamos pensar em ambiente e genética como coisas separadas, mas no TDAH esses fatores se entrelaçam. Quando pais e filhos compartilham a predisposição, é mais comum haver mais ruído, menos rotina e maior desorganização — o chamado ‘caos doméstico’. Esse contexto pode tornar os sintomas mais visíveis e desafiadores no dia a dia”, explica o Dr. Rogério

3. O TDAH é diferente em meninos e meninas

Outro fator importante do TDAH é evidências sugerem que o transtorno se manifesta de forma diferente em meninos e meninas². “Por muito tempo, se acreditou que o transtorno afetasse mais os meninos do que as meninas. Hoje, sabemos que o TDAH tende a ser diagnosticado com mais frequência em meninos, mas ele afeta as meninas com quase a mesma frequência, só que com sintomas diferentes e mais difíceis de identificar.”

Estudos apontam para uma disparidade significativa de gênero: a prevalência da condição é duas vezes maior em meninos (10%) quando comparada a meninas (5%). Em ambos os sexos, o subtipo mais comum do transtorno é o TDAH do Tipo Desatento. Este subtipo foca principalmente em problemas de atenção e organização, ao invés da hiperatividade visível. Contudo, evidências indicam que, nas meninas, o TDAH é mais propenso a passar despercebido em comparação com os meninos, devido à natureza dos sintomas que apresentam².

Nos meninos, os sintomas costumam ser mais visíveis, com destaque para hiperatividade, impulsividade e dificuldade de controle². “É o que os mais antigos chamavam de uma criança ‘atentada’: fala muito, se mexe o tempo todo ou interrompe conversas e atividades”, brinca o Dr. Rogério. “Apesar do apelido, é importante entender que essa inquietação não é culpa da criança, e buscar avaliação médica”, completa.

Já nas meninas, a manifestação menos óbvia, dominada pela desatenção, significa que os sintomas em meninas podem ser menos disruptivos em ambientes sociais e escolares, levando a um subdiagnóstico².

“Os sintomas de TDAH em meninas são frequentemente internos, como desorganização, ansiedade e baixa autoestima. Muitas vezes, seguindo papéis de gênero, elas se esforçam em dobro para compensar as dificuldades, focando excessivamente em tarefas ou tentando se adaptar às expectativas, o que causa esgotamento emocional”, explica o especialista.

Estudos apontam duas possíveis razões para o subdiagnóstico em meninas2-7:

  1. Proteção biológica: há indícios de que as meninas tenham mecanismos cerebrais que as tornam um pouco menos vulneráveis ao TDAH;

  2. Diferenças comportamentais: Diferenças é descrito que meninas apresentam manifestação clínica mais sutil, o que dificulta a percepção do transtorno.

“O resultado é que muitas mulheres só recebem o diagnóstico na fase adulta, às vezes depois de perceberem semelhanças com os filhos diagnosticados”, afirma o Dr. Rogério.

4. O TDAH pode persistir na vida adulta

Muitas pessoas acreditam que o TDAH “passa” com o tempo, mas isso não é verdade. O transtorno pode persistir na vida adulta, embora com sintomas diferentes dos observados na infância4.

Enquanto as crianças demonstram agitação e impulsividade com mais frequência, os adultos costumam carregar os sintomas de desorganização, dificuldade de planejamento, procrastinação e esquecimento de tarefas simples4.

Essa ausência da característica mais emblemática do TDAH impacta no diagnóstico em adultos. Para que um adulto ou adolescente acima de 16 anos receba o diagnóstico, é preciso identificar cinco sintomas do transtorno, ao invés de seis como acontece com crianças. Além disso, é necessário comprovar que os sintomas começaram antes dos 12 anos de idade, mesmo que na época não tenham sido reconhecidos.4

Segundo o Dr. Rogério, muitas pessoas só descobrem o TDAH na vida adulta. “Isso pode acontecer porque, na infância, os pais e professores não reconheceram ou confundiram os sinais ou porque o ambiente era mais estruturado e ajudava a lidar melhor com as dificuldades.” Em alguns casos, o TDAH se manifesta de forma mais leve e só se torna evidente diante das exigências da vida adulta, especialmente no trabalho. “Entre as mulheres, isso é ainda mais comum, já que os sintomas costumam ser mais sutis e, por isso, passam despercebidos na infância.”

“O diagnóstico em adultos é possível e necessário. Procurar ajuda pode transformar o bem-estar, melhorar relações familiares e trazer mais qualidade de vida”, reforça o especialista.

5. Falta de sono pode imitar (ou piorar) sintomas do TDAH

O TDAH raramente aparece sozinho. Segundo as diretrizes da Academia Americana de Pediatria, distúrbios do sono podem ser comuns em crianças com TDAH, como dificuldade para adormecer, despertares noturnos e sonolência durante o dia.³

Essas alterações podem intensificar os sintomas de desatenção e irritabilidade, dificultando a concentração e o controle emocional. Em alguns casos, o problema do sono pode até ser confundido com o próprio TDAH. Uma anamnese detalhada,

como observar se a criança ronca, dorme mal ou acorda à noite com frequência ajuda o médico a entender melhor o quadro e evitar confusões diagnósticas.³

“Problemas de sono podem causar desatenção e irritabilidade em crianças, sintomas idênticos aos do TDAH. Por isso, investigar a qualidade do sono é parte essencial do processo diagnóstico, ajudando a diferenciar ou identificar condições coexistentes”, explica o Dr. Rogério.

“Em adolescentes e adultos, revisões clínicas indicam que insônia, sonolência diurna e distúrbios do ritmo sono-vigília no TDAH associam-se a pior atenção, humor e desempenho acadêmico/profissional, ou seja, sono insuficiente não só exacerba os sintomas nucleares, como também pode mascarar o diagnóstico quando não investigado”, completa.

Conhecimento é parte do tratamento

Entender o TDAH em suas diferentes dimensões é essencial para oferecer o suporte adequado a quem convive com o transtorno. “O cuidado com o TDAH não é sobre corrigir comportamentos, mas sobre criar um ambiente acolhedor e estruturado, que favoreça o desenvolvimento e o bem-estar da pessoa”, destaca o especialista.

Segundo ele, o diagnóstico correto e entendimento completo do transtorno permite um tratamento mais efetivo e maior qualidade de vida ao indivíduo. O tratamento, por sua vez, deve ser multifatorial, combinando psicoterapia, acompanhamento familiar, apoio pedagógico e, quando indicado, o uso de medicamentos, como os psicoestimulantes, sob supervisão médica.8

“Mais do que controlar sintomas, o objetivo é fortalecer o vínculo entre o paciente, seus familiares e os profissionais de saúde, promovendo compreensão e estratégias que facilitem o dia a dia de quem convive com o transtorno.”

Referências

1- Entre 5% e 8% da população mundial apresenta Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade [Internet]. Ministério da Saúde. Available from: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/setembro/entre-5-e-8-da-populacao-mundial-apresenta-transtorno-de-deficit-de-atencao-com-hiperatividade Acesso em 09 out. 25

2- Ayano G, Demelash S, Gizachew Y, Tsegay L, Alati R. The global prevalence of attention deficit hyperactivity disorder in children and adolescents: An umbrella review of meta-analyses. Journal of Affective Disorders [Internet]. 2023 Oct 15;339:860–6. Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37495084/#:~:text=A%20random%20effect%20meta%2Danalysis Acesso em 09 out. 25

3- Eom TH, Kim YH. Clinical Practice Guidelines for Attention-deficit/Hyperactivity Disorder: Recent Updates. Clinical and experimental pediatrics (Online). 2023 Jun 14;67(1). Acesso em 09 out. 25

4- National Institute of Mental Health. Attention-deficit/hyperactivity disorder in adults: What you need to know [Internet]. National Institute of Mental Health. 2021. Available from: https://www.nimh.nih.gov/health/publications/adhd-what-you-need-to-know Acesso em 09 out. 25

5- Demontis D, Walters GB, Athanasiadis G, Walters R, Therrien K, Nielsen TT, et al. Genome-wide analyses of ADHD identify 27 risk loci, refine the genetic architecture and implicate several cognitive domains. Nature Genetics [Internet]. 2023 Jan 26;55(2). Available from: https://www.nature.com/articles/s41588-022-01285-8 Acesso em 09 out. 25

6- Agnew‐Blais JC, Wertz J, Arseneault L, Belsky DW, Danese A, Pingault J, et al. Mother’s and children’s ADHD genetic risk, household chaos and children’s ADHD symptoms: A gene–environment correlation study. Journal of Child Psychology and Psychiatry. 2022 Jul 14;63(10):1153–63. Acesso em 09 out. 25

7- Mahone EM, Wodka EL. The neurobiological profile of girls with ADHD. Dev Disabil Res Rev. 2008;14(4):276- 84.  Acesso em: 7 out. 2025.

8- Nazarova VA, Sokolov AV, Chubarev VN, Tarasov VV, Schiöth HB. Treatment of ADHD: Drugs, psychological therapies, devices, complementary and alternative methods as well as the trends in clinical trials. Front Pharmacol. 2022;13:1066988.