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O câncer de próstata é o segundo tipo de câncer mais comum entre homens brasileiros, atrás apenas do câncer de pele não-melanoma.¹ São cerca de 72 mil novos diagnósticos anuais, o que representa mais de 10% do total dos casos anuais de câncer no país, estimados em 704 mil segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA).2

O tema é grave, e motivou inclusive a criação de uma grande campanha de saúde pública, o “Novembro Azul”, com um mês inteiro dedicado à conscientização sobre saúde masculina e prevenção do câncer de próstata.2

Mesmo assim, ainda há muita desinformação e receio em torno dos exames para o diagnóstico do câncer de próstata. “Vergonha, medo e tabus históricos afastam os homens do consultório e atrasam diagnósticos que poderiam salvar vidas”, afirma o oncologista clínico especialista em tumores genitourinários, Dr. Rodrigo Coutinho (CRM: 148.246).

Quem tem mais risco de desenvolver câncer de próstata

A próstata é uma glândula exclusiva dos homens, localizada à frente do reto, logo abaixo da bexiga, envolvendo a parte inicial da uretra, o canal por onde a urina é eliminada. Apesar de ser comum associá-la à sexualidade, sua função principal é produzir um líquido que compõe parte do sêmen, responsável por nutrir e proteger os espermatozoides.3

Em homens jovens, a próstata tem o tamanho aproximado de uma ameixa. No câncer de próstata, o aumento da glândula é um dos principais indícios, mas esse crescimento também pode ser uma consequência comum do envelhecimento.3

No Brasil, a maioria dos pacientes diagnosticados com câncer de próstata tem mais de 50 anos, com maior incidência entre os 60 e 69 anos. Entre 2009 e 2018, observou-se aumento tanto no número de internações quanto na taxa de mortalidade relacionada à doença.4

“Os números mostram que o câncer de próstata é uma realidade significativa entre os homens maduros. Por isso, o acompanhamento médico de rotina é essencial, especialmente para quem tem histórico familiar da doença”, ressalta o Dr. Rodrigo.

Como identificar o câncer de próstata

Na fase inicial, o câncer de próstata pode não apresentar sintomas. Quando eles aparecem, podem ser confundidos com os de outras doenças benignas da próstata ou condições de saúde que afetam o sistema urinário, como infecções.3

Entre os sinais mais comuns estão:3

  • Aumento da próstata;
  • Dificuldade de urinar;
  • Jato urinário fraco ou interrompido;
  • Sangue na urina;
  • Demora para começar ou terminar de urinar;
  • Necessidade de urinar com frequência, inclusive à noite.

Esses sintomas também podem estar relacionados a condições como:3

  • Hiperplasia prostática benigna (HPB): aumento natural da próstata, que acomete mais da metade dos homens com mais de 50 anos;
  • Prostatite: inflamação na próstata, geralmente causada por infecção bacteriana.

Portanto, esses sinais não significam automaticamente um diagnóstico de câncer, mas a presença deles torna necessária uma avaliação médica.3

Exames para diagnóstico do câncer de próstata: PSA e toque retal

Quando há suspeita de câncer de próstata, seja por sintomas ou histórico familiar, os principais exames para o diagnóstico são o exame de toque retal e o de PSA.3

O exame de toque retal é o mais temido entre os homens, podendo afastar muitos do consultório. Mas o exame é simples, dura segundos e geralmente não causa qualquer dor.3

O procedimento consiste na introdução de um dedo protegido por luva e lubrificante no reto para avaliar tamanho, forma e textura da próstata. O exame permite detectar nódulos ou áreas endurecidas.3

Já o exame de Antígeno Prostático Específico, ou PSA, é um exame de sangue que mede uma proteína produzida pela próstata. Níveis elevados dessa proteína podem indicar câncer, mas também inflamação (prostatite) ou doenças benignas da próstata.3

Se houver alteração em um ou ambos os exames, o médico pode ainda solicitar uma biópsia prostática para confirmar o diagnóstico. Pequenos fragmentos da glândula são analisados em laboratório.3

O que esperar do exame de toque retal

O toque retal é rápido e, apesar do desconforto, geralmente não é doloroso. Durante o exame, o médico sente possíveis irregularidades na parte posterior da próstata, onde os tumores costumam surgir.5

Apesar de ser menos sensível que o PSA na detecção de câncer, o toque pode identificar alterações em pacientes com PSA normal, o que o torna um exame complementar valioso.5

“É importante desmistificar o toque retal. O exame leva poucos segundos e pode salvar vidas. O preconceito ainda é um obstáculo maior que o próprio exame”, ressalta o Dr. Rodrigo.

O que significam os resultados do PSA?

Como dito acima, o exame de PSA mede a concentração de uma proteína produzida pelas células prostáticas normais e cancerígenas. Embora esteja presente principalmente no sêmen, pequenas quantidades dessa proteína circulam no sangue.5

Os resultados do PSA são expressos em nanogramas por mililitro (ng/mL), e os valores devem ser interpretados considerando idade, histórico e outras condições clínicas:5

  • A maioria dos homens sem câncer tem PSA abaixo de 4 ng/mL;
  • Entre 4 e 10 ng/mL, o risco de câncer é de aproximadamente 25%;
  • Acima de 10 ng/mL, a chance ultrapassa 50%.

Esses números são apenas parâmetros de referência, pois não há valor exato que confirme ou descarte o câncer. Cerca de 15% dos homens com PSA abaixo de 4 ng/mL têm diagnóstico positivo para câncer ao realizar biópsia. Por isso, resultados alterados exigem análise cuidadosa e, muitas vezes, a repetição do exame.5

O que afeta os níveis de PSA

Diversos fatores podem alterar os níveis de PSA, mesmo na ausência de câncer.5

Podem elevar o PSA:5

  • Idade avançada;
  • Hiperplasia prostática benigna (HPB);
  • Prostatite (infecção ou inflamação da próstata);
  • Ejaculação recente;
  • Pedalar por longos períodos;
  • Procedimentos médicos que envolvem a próstata, como biópsias e cistoscopias;
  • Uso de testosterona e hormônios masculinos.

Podem reduzir o PSA:5

  • Medicamentos usados para tratar HPB;
  • Uso prolongado de aspirina, certos medicamentos para colesterol e alguns tipos de diuréticos;
  • Certos suplementos fitoterápicos e misturas herbais.

Por isso, antes de realizar o exame, é essencial informar ao médico sobre qualquer medicamento ou suplemento utilizado, assim como qualquer informação que possa interferir na avaliação do resultado do exame.5

PSA alterado: e agora?

Um resultado de PSA elevado não significa necessariamente câncer. Muitos homens com níveis altos não têm a doença. Nessas situações, o médico pode recomendar:5

  • Repetir o exame após algumas semanas;
  • Realizar testes complementares para avaliar melhor o risco;
  • Encaminhar o paciente ao urologista para considerar uma biópsia.

A decisão depende de fatores como idade, histórico familiar, sintomas e conforto do paciente diante das opções.⁶ “O mais importante é entender que o PSA é um marcador de alerta, não um diagnóstico definitivo”, esclarece o Dr. Rodrigo.

É possível ter câncer de próstata sem sintomas?

Sim – daí a importância de uma avaliação caso a caso. A princípio, os exames de rastreamento não são indicados para pessoas assintomáticas. Porém, se o paciente tem um histórico de câncer na família e/ou fatores de risco, o rastreamento de rotina pode ser indicado pelo médico, mesmo que não existam sintomas.2

Afinal, o diagnóstico precoce é um dos fatores mais decisivos para que o paciente tenha melhores resultados no tratamento.2

Pesquisas internacionais mostram que cerca de 19% dos pacientes com câncer de próstata foram diagnosticados após a realização do exame de PSA mesmo não havendo sintomas prévios. A detecção ocorre com maior frequência entre homens de 50 a 69 anos, de etnias não-brancas e com menos comorbidades.6

“Isso mostra que, embora o rastreamento sistemático não seja indicado para todos, a avaliação individualizada é fundamental. O diálogo entre paciente e médico é o caminho mais seguro”, afirma o Dr. Rodrigo.

Durante o check-up: o que perguntar ao médico

A decisão de realizar os exames de rastreamento deve ser individual e compartilhada com o médico. Para aproveitar melhor a consulta, vale preparar algumas perguntas:⁷

  • Tenho risco aumentado para câncer de próstata?
  • Quais são os riscos e benefícios dos exames de PSA e toque retal?
  • Há algo que posso fazer para reduzir meu risco?
  • Se o PSA vier alterado, quais são os próximos passos?

Cuidar da saúde também é coisa de homem

Mais do que uma campanha, o Novembro Azul é um convite ao autocuidado. O câncer de próstata é uma doença tratável, especialmente quando diagnosticado cedo.2

“Superar o tabu é o primeiro passo”, afirma o Dr. Rodrigo Coutinho. “O diálogo é essencial. Levar dúvidas anotadas e, se possível, um familiar para acompanhar a consulta ajuda a esclarecer pontos importantes e reduzir a ansiedade. A informação é a melhor aliada para vencer o medo.”

Conteúdo elaborado em Outubro/2025

Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor.

Referências

1. Brasil. Biblioteca Virtual em Saúde. Ministério da Saúde. INCA lança a Estimativa 2023 – Incidência de Câncer no Brasil [internet]. [Acesso em 12 out. 2025]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/inca-lanca-a-estimativa-2023-incidencia-de-cancer-no-brasil/

2. Brasil. Ministério da Saúde. Novembro Azul – Diagnóstico precoce do câncer de próstata possibilita melhores resultados no tratamento [internet]. 2023. [Acesso em 12 out. 2025]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2023/outubro/diagnostico-precoce-do-cancer-de-prostata-possibilita-melhores-resultados-no-tratamento

3. Brasil. Ministério da Saúde. Câncer de Próstata [internet]. [Acesso em 12 out. 2025]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/c/cancer-de-prostata

4. Faria LS de P, Pereira PC, Lustosa ALM, Aragão ICS, Aragão FMS, Cunha MG de S. Perfil epidemiológico do câncer de próstata no Brasil: Retrato de uma década. Rev. Uningá. 2020;57(4):76-84.

5. American Cancer Society. Screening Tests for Prostate Cancer [internet]. 2023. [Acesso em 12 out. 2025]. Disponível em: https://www.cancer.org/cancer/types/prostate-cancer/detection-diagnosis-staging/tests.html

6. Merriel SW, Akter N, Zakkak N, Swann R, McPhail S, Rubin G, et al. Factors affecting prostate cancer detection through asymptomatic prostate-specific antigen testing in primary care in England: evidence from the 2018 National Cancer Diagnosis Audit. Br J Gen Pract. 2025 May 2;75(754):e300-e305.

7. U.S. Department of Health and Human Services. Prostate Cancer Screening: Questions for the Doctor [internet]. 2025. [Acesso em 12 out. 2025]. Disponível em: https://odphp.health.gov/myhealthfinder/health-conditions/cancer/prostate-cancer-screening-questions-doctor