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Publicado em: 30 de junho de 2026
Assuntos abordados
A depressão é uma condição multifatorial e a resposta ao tratamento pode variar bastante de um paciente para outro. Em muitos casos, o medicamento até ajuda, mas não promove uma remissão completa dos sintomas, cenário conhecido clinicamente como resposta parcial ao tratamento.¹,²
Segundo documentos técnicos da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (SUS), parte significativa dos pacientes não responde plenamente ao primeiro antidepressivo utilizado, mesmo seguindo corretamente a prescrição médica.¹
“Existe uma expectativa muito comum de que o antidepressivo vá eliminar todos os sintomas rapidamente. Mas a resposta clínica costuma ser gradual e, em alguns casos, incompleta. Isso não significa necessariamente que o tratamento falhou, mas que ele pode precisar de ajustes individualizados”, explica o psiquiatra Dr. Rogério Onofre (CRM-SP: 192.427 – RQE: 109.401).
Os antidepressivos geralmente não têm efeito imediato. A melhora pode começar nas primeiras semanas, mas o benefício terapêutico mais consistente costuma aparecer após algumas semanas de uso contínuo.¹,²
Isso acontece porque esses medicamentos atuam em neurotransmissores ligados à regulação do humor, como serotonina, noradrenalina e dopamina. O organismo precisa de tempo para se adaptar às mudanças neuroquímicas promovidas pelo tratamento.³
Pesquisas publicadas na revista Cadernos de Saúde Pública mostram que interromper o tratamento precocemente, seja por ansiedade em relação aos resultados ou pelos efeitos adversos iniciais, é uma das principais causas de piora clínica e recaídas.³
Entre os sinais que podem indicar que o tratamento ainda está incompleto estão: ¹,²
“O paciente muitas vezes acredita que deve esperar indefinidamente pela melhora total. Mas sintomas persistentes merecem ser discutidos com o psiquiatra, porque podem indicar necessidade de reavaliação terapêutica”, afirma o Dr. Rogério.
A ausência de resposta completa nem sempre significa que o antidepressivo “não funciona”. Existem vários fatores que podem influenciar a eficácia do tratamento. Entre eles estão: ¹³⁴
Uma revisão publicada na Revista de Psiquiatria Clínica destaca que depressões mais complexas podem envolver alterações biológicas, inflamatórias e metabólicas que dificultam uma resposta completa apenas com antidepressivos tradicionais.⁴
Além disso, fatores psicossociais também interferem diretamente no prognóstico. Pessoas submetidas a situações prolongadas de estresse, violência, isolamento social ou sobrecarga emocional podem apresentar recuperação mais lenta, mesmo com acompanhamento médico.²,³
A chamada resposta parcial acontece quando há melhora, mas os sintomas continuam afetando a qualidade de vida. O paciente deixa de apresentar um quadro tão intenso quanto antes, porém ainda sente sofrimento importante no cotidiano.¹,⁴
Dados apresentados pela Conitec mostram que a remissão completa da depressão nem sempre ocorre com a primeira estratégia terapêutica utilizada. Em muitos casos, os médicos precisam ajustar doses, associar tratamentos ou acrescentar outras abordagens para potencializar o efeito antidepressivo.¹,⁴,⁵
“Hoje sabemos que a persistência de sintomas residuais aumenta o risco de recaída. Por isso, a resposta parcial deve ser vista como um alerta clínico e não como um resultado satisfatório definitivo”, alerta o psiquiatra.
Segundo especialistas, alguns sintomas costumam persistir com mais frequência:¹,⁴
Uma dúvida comum entre pacientes é se a única saída seria trocar completamente o antidepressivo. Porém, há diferentes estratégias terapêuticas possíveis antes dessa decisão.¹,⁴
Entre elas está a terapia adjuvante, quando outro medicamento ou substância é associado ao antidepressivo principal para potencializar a resposta clínica. O objetivo não é substituir o tratamento inicial imediatamente, mas complementar sua ação.¹,⁴,⁵
As diretrizes clínicas citam algumas possibilidades utilizadas em casos selecionados: ¹,⁴,⁵
O L-metilfolato, forma biologicamente ativa da vitamina B9, vem recebendo atenção em estudos recentes por participar da síntese de neurotransmissores relacionados ao humor. Revisões científicas indicam que ele pode ser utilizado como estratégia complementar em pacientes com resposta parcial, especialmente por apresentar baixa chance de efeitos adversos em comparação com outras opções adjuvantes.⁵
Pesquisas internacionais publicadas na The Journal of Clinical Psychiatry apontam que alterações metabólicas relacionadas à vitamina B9 podem interferir na produção de neurotransmissores importantes para o tratamento da depressão.⁵
Outro ponto importante é que o tratamento da depressão não depende exclusivamente do medicamento. O Ministério da Saúde reforça que acompanhamento psicológico, hábitos saudáveis, suporte social e acompanhamento contínuo fazem parte do cuidado integral.²
A psicoterapia ajuda o paciente a identificar padrões emocionais, pensamentos automáticos negativos e situações que contribuem para a manutenção do sofrimento psíquico.³
“Quando o paciente entende que a melhora pode acontecer em etapas, ele reduz a frustração e participa mais ativamente do tratamento. Isso melhora inclusive a adesão medicamentosa”, afirma o Dr. Rogério.
Especialistas orientam que alguns sinais merecem nova avaliação médica, principalmente quando os sintomas persistem por longos períodos mesmo com tratamento.¹,²
Entre eles estão: ²,³
Mais do que buscar respostas rápidas na internet, especialistas recomendam que pacientes conversem abertamente com psicólogos e psiquiatras sobre a percepção de melhora insuficiente ¹,⁴,⁵ .
“A depressão é uma doença multifatorial. Quando a resposta não é total, isso não significa fraqueza ou falta de esforço do paciente. A pessoa com depressão não precisa enfrentar esse processo sozinha. Levar dúvidas e percepções sobre a própria melhora para a consulta é uma parte importante do tratamento”, conclui o psiquiatra.
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Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.
Médico consultor: Dr. Rogério Onofre (CRM-SP 192.427; RQE 109.401), médico psiquiatra formado pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e pesquisador do Programa de Transtornos Afetivos (PRODAF), uma das frentes mais importantes do país em estudos sobre depressão resistente, bipolaridade e novas terapias como a cetamina. É também supervisor do ambulatório longitudinal da residência médica da EPM-Unifesp.
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