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Publicado em: 28 de maio de 2026
Formigamento nas mãos e nos pés, dores, fadiga e tontura. É investigando a fundo queixas como essas que se pode chegar ao diagnóstico do mieloma múltiplo, uma doença que atinge, principalmente, as pessoas com mais de 65 anos.1
Mas, afinal, o que é mieloma múltiplo? Existe cura? Entenda mais abaixo:
Originado na medula óssea, o mieloma múltiplo é um tipo de câncer que ocorre devido a um defeito celular. Quando os linfócitos B (células que fazem parte do sistema imunológico) se transformam em plasmócitos, responsáveis pela produção de anticorpos, uma mutação ocorre e células anormais passam a ser produzidas.2
Os plasmócitos defeituosos se multiplicam na medula óssea e podem formam os plasmocitomas, tumores malignos que “roubam o espaço” das células saudáveis, atrapalhando o funcionamento delas.2
Os plasmocitomas podem se desenvolver tanto no interior do osso (forma intramedular) quanto fora dele (forma extramedular). Quando surgem dentro do osso, comprometem a produção normal das demais células sanguíneas e enfraquecem a estrutura óssea, à medida que se expandem pela porção sólida do tecido ósseo.2
“Os plasmóscitos defeituosos provocam a ação de células que agem como cupins dos ossos”, explica o médico hematologista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Dr. Rony Schaffel (CRM-RJ 583141; RQE 45232). “Nessa analogia, a medula óssea é um móvel de madeira inestimável, com cada entalhe, dobradiça e parafuso milimetricamente pensado. E os osteoclastos, as células que atuam destruindo tecido ósseo, os cupins, são estimulados por substâncias que conseguem passar pela barreira do verniz por um erro do fabricante (defeito de DNA), os plasmócitos, se reproduzindo e deteriorando toda a madeira.”
A sigla CRAB resume as principais manifestações clínicas do mieloma múltiplo. Ela vem do inglês e significa:3
O diagnóstico do mieloma pode impactar todas as áreas da vida da pessoa. Além dos desafios físicos e de mobilidade, que afetam o lazer e a intimidade, há um comprometimento dos aspectos emocionais, cognitivos e sociais, envolvendo desde a rede de apoio familiar até a segurança financeira..1
O perfil de risco para o mieloma múltiplo é influenciado por quatro pilares principais:1
O mieloma múltiplo é, na maioria dos casos, uma condição progressiva e sem cura. No entanto, os avanços da medicina aumentaram bastante a sobrevida (tempo médio de vida após o diagnóstico ou início do tratamento) dos pacientes, que pode ficar em torno de dez anos.4
O prognóstico é menos favorável em pacientes com mais de 70 anos, com comorbidades e baixo estado de saúde geral.4
1) Transplante de células-tronco
O transplante autólogo de células-tronco é considerado o “padrão ouro” no tratamento e a sua indicação tende a ser considerada pelo médico de forma precoce.
Para passar pelo procedimento, é necessário preencher alguns requisitos, como idade até 75 anos e certos níveis em exames de bilirrubinas (subproduto da quebra natural dos glóbulos vermelhos velhos excretado na bile) e creatinina (resíduo metabólico produzido pelos músculos), exceto se o paciente estiver em diálise. Também é fundamental não ter problema cardíaco descompensado.1
Nesse tipo de transplante, a medula óssea utilizada vem do próprio paciente, daí o nome “autólogo”. As células-tronco podem ser coletadas por meio da veia ou diretamente da medula óssea em ambiente cirúrgico, sendo depois congeladas e armazenadas por meio de criopreservação.5
As próximas fases são:
Condicionamento: após a coleta e a criopreservação, o paciente é submetido a um regime de quimioterapia em altas doses, denominado condicionamento, com o objetivo de eliminar as células doentes. Como consequência, esse tratamento também provoca a destruição da medula óssea.5
Transplante: as células-tronco coletadas são descongeladas e reinseridas no próprio paciente por um acesso direto à corrente sanguínea (via intravenosa).5Pós-transplante: nessa fase, ocorre a aplasia medular (ausência funcional da medula), caracterizada pela queda no número de todas as células do sangue. Nos primeiros 100 dias após o transplante de medula óssea, o paciente fica mais suscetível a infecções e pode necessitar do uso de antibióticos, além de medicamentos que estimulam a produção de glóbulos brancos.5
Pega da medula: geralmente entre duas e quatro semanas depois, quando a medula óssea retoma seu funcionamento, considera-se que houve a “pega da medula”. Isso indica que o transplante foi bem-sucedido e a produção das células sanguíneas foi restabelecida.5
2) Quimioterapia
Na quimioterapia, medicamentos potentes no combate ao câncer são utilizados para destruir, controlar ou inibir o crescimento das células doentes. A administração é feita em ciclos, com um período de tratamento seguido por um período de descanso. Com isso, o corpo consegue ter um momento de recuperação, já que, durante o tratamento, a pessoa pode sentir alguns efeitos colaterais. 5
Entre esses efeitos, estão náuseas, alterações intestinais (diarreia ou prisão de ventre), boca seca e feridas na boca conhecidas como mucosite. É importante saber que já existem medicamentos eficazes para amenizar a maioria desses desconfortos.5
A queda de cabelo também é comum, pois a quimioterapia atua sobre células de rápida multiplicação, o que inclui tanto as células malignas quanto as dos folículos pilosos, responsáveis pelo crescimento dos fios.5
3) Imunoterapia
Há ainda a imunoterapia, um tratamento moderno indicado tanto para quem vai fazer o transplante quanto para quem não tem essa recomendação. Ela também é usada quando a doença volta após um tratamento anterior, condição chamada de recidiva, ou quando é necessário repetir uma estratégia que já foi utilizada.5
A aplicação é feita por meio de uma injeção sob a pele. Durante o processo, podem surgir alguns efeitos colaterais como cansaço, enjoos, vômitos, alterações no funcionamento do intestino e redução nas taxas dos exames de sangue. Outro sintoma comum é a neuropatia periférica, que causa sensações de formigamento ou dor nas mãos e nos pés.5
4) Imunomoduladores e inibidores de proteossoma
A lista de tratamentos abrange ainda medicamentos que atuam no ajuste do sistema imune (imunomoduladores), inibidores do proteassoma, que bloqueiam a degradação de proteínas nas células, associados com inibidores de doença óssea, usados para combater a osteoporose e evitar a quebra do osso.5
Uma recomendação é conversar abertamente com o médico especialista sobre todas as opções, alinhando a disponibilidade, as expectativas e os possíveis efeitos colaterais. Caso o paciente deseje, pode buscar ainda uma segunda opinião para ter uma nova visão e avançar no tratamento com confiança.6
“Receber o diagnóstico de mieloma múltiplo não é fácil. É compreensível que o paciente se sinta confuso, indeciso, com medo do que pode acontecer. Mas a medicina avançou muito e a combinação dos tratamentos como quimioterapia, imunoterapia, imunomoduladores, inibidores de proteossomo e transplante de células-tronco são seguros e eficazes na sobrevida”, reforça o Dr. Rony.
Conteúdo produzido em março/2026.
Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.Médico consultor: Dr. Rony Schaffel (CRM-RJ: 5258314-1; RQE 45232). Médico hematologista e onco-hematologista, professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) há mais de 25 anos e chefe do Serviço de Hematologia do Hospital Universitário da UFRJ. É coordenador do núcleo de Transplante de Medula Óssea do HU-UFRJ, tendo realizado centenas de transplantes desde a década de 1990, e lidera o grupo brasileiro de estudos em linfoma do manto.
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