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A depressão é uma condição multifatorial e a resposta ao tratamento pode variar bastante de um paciente para outro. Os medicamentos antidepressivos são um aliado importante desse tratamento, mas nem sempre ele promove uma remissão completa dos sintomas, cenário conhecido clinicamente como resposta parcial ao tratamento.¹,²

Segundo o estudo Sequenced Treatment Alternatives to Relieve Depression (STAR*D), parte significativa dos pacientes não responde plenamente ao primeiro antidepressivo utilizado, mesmo seguindo corretamente a prescrição médica.3

“Existe uma expectativa muito comum de que o antidepressivo vá eliminar todos os sintomas rapidamente. Mas a resposta clínica costuma ser gradual e, em alguns casos, incompleta. Isso não significa necessariamente que o tratamento falhou, mas que ele pode precisar de ajustes individualizados”, explica o psiquiatra Dr. Rogério Onofre (CRM-SP: 192.427 – RQE: 109.401).

Quanto tempo um antidepressivo demora para fazer efeito?

Os antidepressivos geralmente não têm efeito imediato. A melhora pode começar nas primeiras semanas, mas o benefício terapêutico mais consistente costuma aparecer após 4 a 8 semanas de uso contínuo.¹,²

Isso acontece porque esses medicamentos atuam em neurotransmissores ligados à regulação do humor, como serotonina, noradrenalina e dopamina. O organismo precisa de tempo para se adaptar às mudanças neuroquímicas promovidas pelo tratamento.4

Pesquisas publicadas na revista Cadernos de Saúde Pública mostram que interromper o tratamento precocemente, seja por ansiedade em relação aos resultados ou pelos efeitos adversos iniciais, é uma das principais causas de piora clínica e recaídas.4

Entre os sinais que podem indicar que o tratamento ainda está incompleto estão:¹,²

  • Melhora parcial do humor, mas persistência da apatia;
  • Redução da ansiedade, mas manutenção da fadiga intensa;
  • Melhora do sono, mas permanência da falta de prazer;
  • Dificuldade de voltar às atividades sociais e profissionais;
  • Sintomas que melhoram e depois retornam com frequência.

“O paciente muitas vezes acredita que deve esperar indefinidamente pela melhora total. Mas sintomas persistentes merecem ser discutidos com o psiquiatra, porque podem indicar necessidade de reavaliação terapêutica”, afirma o Dr. Rogério.

Antidepressivo não funciona?

A ausência de resposta completa nem sempre significa que o antidepressivo “não funciona”. Existem vários fatores que podem influenciar a eficácia do tratamento.

Entre eles estão:1,2,5

  • Dose insuficiente;
  • Tempo inadequado de uso;
  • Interrupções frequentes do tratamento;
  • Presença de outras doenças psiquiátricas;
  • Uso de álcool e outras substâncias;
  • Estresse crônico;
  • Alterações metabólicas e individuais do organismo.

Uma revisão publicada na Revista de Psiquiatria Clínica destaca que depressões mais complexas podem envolver alterações biológicas, inflamatórias e metabólicas que dificultam uma resposta completa apenas com antidepressivos tradicionais.5

 

O que é a resposta parcial ao tratamento?

A chamada resposta parcial acontece quando há melhora, mas os sintomas continuam afetando a qualidade de vida. O paciente deixa de apresentar um quadro tão intenso quanto antes, porém ainda apresenta sofrimento importante no cotidiano.¹,

Estudos mostram que a remissão completa da depressão nem sempre ocorre com a primeira estratégia terapêutica utilizada.1 Em muitos casos, os médicos precisam ajustar doses, associar tratamentos ou acrescentar outras abordagens para potencializar o efeito antidepressivo.1,5,6

“Hoje sabemos que a persistência de sintomas residuais aumenta o risco de recaída. Por isso, a resposta parcial deve ser vista como um alerta clínico e não como um resultado satisfatório definitivo”, alerta o psiquiatra.

Segundo especialistas, alguns sintomas costumam persistir com mais frequência:¹,5

  • Cansaço excessivo
  • Dificuldade de concentração
  • Falta de motivação
  • Isolamento social
  • Alterações cognitivas
  • Sensação de vazio emocional

Trocar o antidepressivo não é a única solução

Uma dúvida comum entre pacientes é se a única saída seria trocar completamente o antidepressivo. Porém, há diferentes estratégias terapêuticas possíveis antes dessa decisão.¹,5

Entre elas está a terapia adjuvante, quando outro medicamento ou substância é associado ao antidepressivo principal para potencializar a resposta clínica. O objetivo não é substituir o tratamento inicial imediatamente, mas complementar sua ação.1,5,6

Quando a resposta ao antidepressivo é apenas parcial, nem sempre o problema está (apenas) na escolha do medicamento. Em alguns casos, fatores do próprio organismo, como alterações metabólicas, obesidade, inflamação e variações genéticas ligadas ao metabolismo do folato também podem influenciar a evolução do tratamento.7,8,9

Por isso, se a melhora não veio como esperado, vale conversar com o médico sobre o quadro de forma mais ampla. Essa avaliação pode ajudar a decidir se o melhor caminho é ajustar a dose, trocar a medicação ou complementar o tratamento com alguma estratégia adjuvante. 7,8,9

Acompanhamento psicológico também faz diferença

Outro ponto importante é que o tratamento da depressão não depende exclusivamente do medicamento. O Ministério da Saúde reforça que acompanhamento psicológico, hábitos saudáveis, suporte social e acompanhamento contínuo fazem parte do cuidado integral.²

A psicoterapia ajuda o paciente a identificar padrões emocionais, pensamentos automáticos negativos e situações que contribuem para a manutenção do sofrimento psíquico. 4

“Quando o paciente entende que a melhora pode acontecer em etapas, a frustração tende a diminuir, e ele participa de forma mais ativa do tratamento. Esse processo também pode favorecer a adesão medicamentosa”, afirma o Dr. Rogério.

Quando procurar uma reavaliação médica para a depressão?

Especialistas orientam que alguns sinais merecem nova avaliação médica, principalmente quando os sintomas persistem por longos períodos mesmo com tratamento.¹,²

Entre eles estão: ²,4

  • sensação de melhora muito pequena após semanas de tratamento;
  • piora emocional persistente;
  • retorno frequente dos sintomas;
  • dificuldade importante para trabalhar ou estudar;
  • pensamentos negativos recorrentes;
  • abandono de atividades diárias.

Mais do que buscar respostas rápidas na internet, é recomendado que pacientes conversem abertamente com psicólogos e psiquiatras sobre a percepção de melhora insuficiente.2,5

“A depressão é uma doença multifatorial. Quando a resposta não é total, isso não significa fraqueza ou falta de esforço do paciente. Quem tem depressão não precisa enfrentar esse processo sozinho. Levar dúvidas e percepções sobre a própria melhora para a consulta é uma parte importante do tratamento”, conclui o psiquiatra.

Conteúdo elaborado em junho/2026

Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.

Médico consultor: Dr. Rogério Onofre (CRM-SP 192.427; RQE 109.401), médico psiquiatra formado pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e pesquisador do Programa de Transtornos Afetivos (PRODAF), uma das frentes mais importantes do país em estudos sobre depressão resistente, bipolaridade e novas terapias como a cetamina. É também supervisor do ambulatório longitudinal da residência médica da EPM-Unifesp.

Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC). Medicamentos para o tratamento do transtorno depressivo maior: monitoramento do horizonte tecnológico [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2022 [Acesso em 16 jun 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/radar/2022/informemht_transtorno-depressivo-maior_publicado.pdf
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Depressão [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; [Acesso em 16 jun 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/depressao
  3. Pigott HE. The STAR*D Trial: It Is Time to Reexamine the Clinical Beliefs That Guide the Treatment of Major Depression. Can J Psychiatry. 2015;60(1):9-13.
  4. Fleck MP de A, Lafer B, Sougey EB, Del Porto JA, Brasil MA, Juruena MF. Diretrizes da Associação Médica Brasileira para o tratamento da depressão (versão integral). Braz J Psychiatry [Internet]. 2003 [Acesso em 22 mai 2026] (2):114–22. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1516-44462003000200013
  5. Fleck MPA, Lafer B, Sougey EB, Del Porto JA, Brasil MA, Juruena MF. Diretrizes da Associação Médica Brasileira para o tratamento da depressão. Rev Psiquiatr Clin 2003;25(2):114-22.
  6. Papakostas GI, Trivedi MH, Shelton RC, Iosifescu DV, Thase ME, Jha MK, Mathew SJ, DeBattista C, Dokucu ME, Brawman-Mintzer O, Currier GW, McCall WV, Modirrousta M, Macaluso M, Bystritsky A, Rodriguez FV, Nelson EB, Yeung AS, Feeney A, MacGregor LC, Carmody T, Fava M. Comparative effectiveness research trial for antidepressant incomplete and non-responders with treatment resistant depression (ASCERTAIN-TRD) a randomized clinical trial. Mol Psychiatry. 2024 Aug;29(8):2287-2295. doi: 10.1038/s41380-024-02468-x. Epub 2024 Mar 7. PMID: 38454079; PMCID: PMC11412904.
  7. Papakostas GI, Shelton RC, Zajecka JM, Etemad B, Rickels K, Clain A, et al. L-methylfolate as adjunctive therapy for SSRI-resistant major depression: results of two randomized, double-blind, parallel-sequential trials. Am J Psychiatry. 2012;169(12):1267-74. doi:10.1176/appi.ajp.2012.11071114.
  8. Papakostas GI, Shelton RC, Zajecka JM, Bottiglieri T, Roffman J, Cassiello C, et al. Effect of adjunctive L-methylfolate 15 mg among inadequate responders to SSRIs in depressed patients who were stratified by biomarker levels and genotype: results from a randomized clinical trial. J Clin Psychiatry. 2014;75(8):855-63. doi:10.4088/JCP.13m08947.
  9. Shelton RC, Pencina MJ, Barrentine LW, Ruiz JA, Fava M, Zajecka JM, et al. Association of obesity and inflammatory marker levels on treatment outcome: results from a double-blind, randomized study of adjunctive L-methylfolate calcium in patients with MDD who are inadequate responders to SSRIs. J Clin Psychiatry. 2015;76(12):1635-41. doi:10.4088/JCP.14m09587.