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Diretrizes internacionais de referência para o tratamento da depressão1 recomendam manter um tratamento com antidepressivo por no mínimo 6 a 12 meses após a remissão dos sintomas, podendo ser necessário estender esse prazo por 2 anos ou mais em pacientes com maior risco de recorrência. Na prática, porém, muitos pacientes interrompem a medicação de forma precoce, geralmente dentro dos primeiros três meses.2

Essa decisão, segundo o psiquiatra Dr. Rogério Onofre (CRM-SP: 192.427 / RQE: 109.401), quando tomada sem orientação profissional, pode trazer riscos importantes à saúde.

“A descontinuação ou troca do medicamento sem indicação médica é perigosa. Esse tipo de medicação pode causar efeitos de abstinência pela interrupção abrupta ”, alerta o médico. Ainda assim, os efeitos adversos relacionados ao uso do antidepressivo são uma das principais razões que levam pacientes a abandonar o tratamento.2

Segundo o especialista, alguns efeitos colaterais esperados podem, de fato, levar o paciente a considerar a interrupção do antidepressivo. O problema é que, muitas vezes, essa decisão ocorre sem uma conversa com o médico responsável. “Ele é quem pode avaliar se os sintomas justificam a interrupção ou a troca do medicamento ou se fazem parte do período de adaptação do organismo ao remédio e podem ser controlados”, explica.

O que fazer quando o antidepressivo para de funcionar

A troca de antidepressivo diante de uma resposta inadequada do medicamento, como a falta de melhora dos sintomas de depressão, é amplamente recomendada. Mas, na prática clínica, nem sempre é claro o que define essa falta de resposta e em que momento a mudança deve ser considerada.3

“Avaliar se o antidepressivo está funcionando exige, antes de tudo, uma escuta cuidadosa da equipe médica e do próprio paciente”, diz o Dr. Rogério.

Uma forma simples e eficaz de avaliar a resposta ao tratamento é perguntar diretamente o quanto a pessoa acredita ter melhorado desde o início do uso do antidepressivo. Essa percepção deve ser acompanhada de uma revisão das mudanças nos sintomas desde o início do tratamento e, sempre que possível, confirmada por um parceiro ou familiar.3

Quando a melhora percebida é inferior a 50% e há pouca mudança nos sintomas centrais da depressão, considera-se que o resultado ainda não foi alcançado e a troca pode ser considerada.3

Essa avaliação, no entanto, nem sempre é simples. Os sintomas podem variar ao longo do tempo, e os antidepressivos costumam levar um período até que seus efeitos terapêuticos se tornem evidentes. A experiência clínica indica que esses medicamentos precisam de pelo menos duas semanas, em dose adequada, para começar a agir.3

Ainda assim, muitas pessoas que vão responder ao tratamento já apresentam alguma redução dos sintomas antes desse período, desde que não surjam efeitos colaterais importantes logo no início.3

Por isso, a orientação é manter o tratamento do episódio depressivo por pelo menos quatro semanas antes de pensar em qualquer mudança no uso do antidepressivo. Se, após esse período, não houver melhora, o médico deve avaliar se a dose do medicamento está correta e se o paciente está tomando o remédio conforme prescrito.4

Também é importante revisar o diagnóstico, considerando a presença de outros transtornos psiquiátricos ou doenças físicas, além de analisar fatores sociais que possam estar influenciando o quadro e que precisam ser tratados em conjunto.4

Efeitos colaterais graves podem justificar a troca do antidepressivo

Segundo o psiquiatra, os antidepressivos atuam no sistema nervoso central e podem funcionar por diferentes mecanismos. Essa variedade de ação, ele diz, ajuda a explicar por que os efeitos colaterais também podem variar bastante de uma pessoa para outra.

Um estudo indicou que, entre os possíveis efeitos adversos associados ao uso de medicamentos psicotrópicos, incluindo antidepressivos, estão alterações que afetam diferentes sistemas do organismo, como por exemplo:5

  • Sistema nervoso central: agitação, ansiedade, irritabilidade, cansaço intenso, dificuldade de concentração, piora do humor, tontura, dor de cabeça, sedação excessiva, insônia, convulsões, pensamentos ou comportamentos suicidas, mania e psicose.

  • Aspectos nutricionais e metabólicos: perda ou aumento do apetite, ganho ou perda de peso, aumento do colesterol e dos triglicerídeos, alterações no controle da glicose, resistência à insulina e aumento da circunferência abdominal.

  • Sistema cardiovascular: arritmias, taquicardia, pressão alta ou baixa, inflamação do músculo do coração, alterações no ritmo cardíaco e eventos cardiovasculares.

  • Sistema gastrointestinal: dor abdominal, constipação, diarreia, náuseas, vômitos e alterações no fígado.

  • Sistema geniturinário e reprodutivo: alterações no ciclo menstrual, disfunção sexual, alterações urinárias e problemas renais.

  • Movimentos e controle motor: tremores, rigidez muscular, inquietação intensa e outros distúrbios do movimento.

  • Comportamento e impulsividade: dificuldade no controle de impulsos, comportamentos de risco, abuso de substâncias e automutilação sem intenção suicida.

  • Sistema endócrino e hematológico: alterações hormonais, anemia e redução de células do sangue.

  • Outros efeitos possíveis: boca seca ou salivação excessiva, problemas respiratórios, trombose, perda de massa óssea, fraturas e aumento do risco de quedas e acidentes.

De acordo com o Dr. Rogério, ter algum dos efeitos adversos não é, sozinho, motivo para interromper ou mudar o tratamento. Ele explica que é recomendado que o paciente e, em alguns casos, seus familiares e pessoas próximas, observem se esses efeitos estão impactando de forma negativa a qualidade de vida do paciente. “Nesses casos, junto com o médico responsável, será avaliado se o paciente tem intolerância ao medicamento e se o indicado é trocar a dose, o medicamento ou interromper o tratamento”, explica o psiquiatra.

É importante destacar que a intolerância a um antidepressivo não significa, necessariamente, intolerância a todos os antidepressivos. Por isso, pacientes que não respondem bem ou apresentam efeitos adversos importantes podem se beneficiar da troca do medicamento. Mas, esse processo exige diálogo constante entre paciente e médico, com troca clara de informações sobre a experiência com o tratamento.2

Quais os riscos de parar de tomar o antidepressivo sem orientação médica

A interrupção do antidepressivo, mesmo quando feita de forma gradual, pode provocar sintomas de descontinuação e efeito rebote.4,6 Isso significa que o organismo “pode reagir à retirada do medicamento com uma série de sinais físicos e emocionais, que nem sempre são leves ou fáceis de identificar”, alerta o Dr. Rogério.

Entre os riscos de parar o antidepressivo por conta própria estão os chamados sintomas de abstinência, que podem incluir alterações sensoriais, insônia, ansiedade, piora do humor, retorno dos sintomas depressivos e até ideias suicidas.6

Além disso, estudos mostram que a taxa de recaída é maior entre pessoas que interrompem o uso do antidepressivo de forma inadequada do que entre aquelas que passam por um processo de retirada gradual e supervisionada.7

A orientação é que a suspensão do antidepressivo seja feita com redução progressiva da dose por, no mínimo, quatro semanas.4 Em pacientes em tratamento de manutenção por longos períodos, essa redução deve ocorrer de forma ainda mais lenta, ao longo de até seis meses.4

Nesse processo, caso surjam sintomas de abstinência, é fundamental contar com a equipe médica para entender o que está acontecendo. Em situações mais intensas, pode ser que o medicamento precise ser reintroduzido e retirado de maneira ainda mais gradual.4

Quero trocar ou parar o antidepressivo. O que fazer?

“O primeiro passo é conversar com o seu médico”, orienta o Dr. Rogério. Qualquer decisão sobre trocar ou interromper o antidepressivo deve ser tomada com acompanhamento profissional, levando em conta a resposta ao tratamento, os sintomas atuais e os possíveis riscos envolvidos, orienta o psiquiatra.

O sucesso do tratamento com antidepressivos depende do uso da medicação por tempo suficiente para gerar benefício e reduzir o risco de recaída. E uma comunicação clara e direta entre paciente e médico aumenta significativamente essa chance.2,4

Desde o início do uso do antidepressivo, é fundamental que o paciente saiba por quanto tempo a medicação deverá ser utilizada, quais efeitos colaterais podem surgir e o que é considerado esperado ao longo do processo. Muitos pacientes não recebem essas informações ou não se lembram delas, o que pode gerar insegurança e favorecer a interrupção precoce do tratamento.2

Falar abertamente sobre efeitos colaterais também faz diferença. Pacientes que recebem informações claras e apoio quando surgem reações adversas tendem a manter o tratamento por mais tempo.2

“Não tenha receio de fazer perguntas para o seu médico durante as consultas. Se algo não ficou claro, pergunte novamente. A consulta é o momento para tirar todas as dúvidas, o que ajuda a ter mais tranquilidade sobre o tratamento”, diz o Dr. Rogério. Saber desde o início quais sintomas podem aparecer e em que situações é necessário procurar ajuda profissional reduz o medo, aumenta a tolerância ao antidepressivo e fortalece a parceria entre paciente e profissional de saúde.2

*Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor.

*As opiniões emitidas pelo(a) especialista são independentes e, necessariamente, não refletem a opinião da Libbs

Conteúdo elaborado em fevereiro de 2026

 

Referências

  1. Lam RW, Kennedy SH, Adams C, Bahji A, Beaulieu S, Bhat V, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults: Réseau canadien pour les traitements de l’humeur et de l’anxiété (CANMAT) 2023 : Mise à jour des lignes directrices cliniques pour la prise en charge du trouble dépressif majeur chez les adultes. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641-687. doi:10.1177/07067437241245384. Epub 2024 May 6.
  2. Bull SA, Hu XH, Hunkeler EM, Lee JY, Ming EE, Markson LE, et al. Discontinuation of use and switching of antidepressants: influence of patient-physician communication. JAMA. 2002;288(11):1403-9.
  3. Boyce P, Hopwood M, Morris G, Hamilton A, Bassett D, Baune BT, et al. Switching antidepressants in the treatment of major depression: When, how and what to switch to? Journal of Affective Disorders. 2020 Jan;261:160–3.
  4. Fleck MP de A, Lafer B, Sougey EB, Del Porto JA, Brasil MA, Juruena MF. Diretrizes da Associação Médica Brasileira para o tratamento da depressão (versão integral). Revista Brasileira de Psiquiatria. 2003 Jun;25(2):114–22.
  5. Solmi M, Fornaro M, Ostinelli EG, Zangani C, Croatto G, Monaco F, et al. Safety of 80 antidepressants, antipsychotics, anti‐attention‐deficit/hyperactivity medications and mood stabilizers in children and adolescents with psychiatric disorders: a large scale systematic meta‐review of 78 adverse effects. World Psychiatry. 2020 May 11;19(2):214–32.
  6. Kendrick T. Strategies to reduce use of antidepressants. Br J Clin Pharmacol. 2021 Jan;87(1):23-33.
  7. Lewis G, Marston L, Duffy L, Freemantle N, Gilbody S, Hunter R, et al. Maintenance or Discontinuation of Antidepressants in Primary Care. New England Journal of Medicine. 2021 Sep 30;385(14):1257–67.