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Publicado em: 17 de abril de 2026
Quando os dias ficam mais longos e o sol parece não querer se pôr, muita gente recebe o verão com entusiasmo. Ainda assim, “para muitos, a insônia é uma velha amiga de verão”, diz o neurologista Dr. Antonio Damin (CRM 104274).
Em noites muito quentes, é comum sentir dificuldade para adormecer ou manter o sono¹. Segundo o médico, esse desconforto tem uma explicação biológica.1
Pesquisas mostram que temperaturas externas ou internas mais elevadas podem estar associadas à piora na qualidade e na quantidade de sono em diferentes regiões do mundo. Esse impacto negativo se intensifica nos meses e dias mais quentes¹.
O motivo está no funcionamento do nosso próprio organismo: o calor interfere diretamente em mecanismos naturais que determinam quando sentimos sono e como o corpo mantém o estado de repouso. O principal efeito é na regulação circadiana, um ciclo de cerca de 24 horas do corpo que interfere em funções como sono-vigília, liberação de hormônios e temperatura corporal, que é fundamental para iniciar e sustentar o sono².
Para adormecer, o corpo precisa reduzir a temperatura central. Esse processo acontece quando ocorre a dilatação dos vasos sanguíneos em regiões distantes do tronco, como mãos e pés, promovendo perda de calor e ajudando o corpo a esfriar. Quando a temperatura ambiente está muito alta, esse resfriamento natural fica prejudicado. O resultado pode ser dificuldade para pegar no sono ou despertares frequentes durante a noite, especialmente quando há atraso nos ritmos de temperatura ou quando o corpo permanece mais aquecido do que deveria².
“Por isso, para algumas pessoas, o verão é uma época de virar na cama, acordar cedo demais ou simplesmente não sentir sono na hora certa”, afirma o médico. E esses incômodos não são inofensivos. A insônia sazonal pode comprometer o humor, a concentração e até aspectos do metabolismo, mostrando que dormir bem no calor é mais do que uma questão de conforto: é uma necessidade para manter o bem-estar.3-5
O corpo precisa reduzir a temperatura interna para entrar no estado de “pré-sono”. Esse resfriamento faz parte do ritmo circadiano e ajuda o cérebro a iniciar o processo de desligamento. Em condições ideais, essa queda acontece naturalmente ao anoitecer. Mas quando a noite está quente, o organismo pode enfrentar obstáculos para realizar essa tarefa.6
A perda de calor acontece principalmente pela pele das extremidades, como mãos e pés. Antes de dormir, essas regiões ficam mais quentes porque o corpo aumenta o fluxo sanguíneo nelas para liberar calor6.
Esse aquecimento da pele, embora pareça paradoxal, é justamente o que permite que a temperatura central do corpo diminua. Ao mesmo tempo, essa variação térmica ativa estruturas cerebrais envolvidas no início do sono, modulando o estado de vigília e criando as condições internas necessárias para adormecer6.
O problema é que, quando a temperatura ambiente está elevada, esse processo se torna menos eficiente. Tanto a pele quanto a temperatura central ficam mais sensíveis ao ambiente durante o sono, e períodos de vigília tendem a aumentar quando a temperatura se afasta da chamada zona termoneutra, que é o intervalo no qual o corpo mantém sua temperatura com mais facilidade7.
Por isso, noites muito quentes costumam causar maior perda de sono. Em outras palavras, o calor impede o corpo de resfriar-se no ritmo necessário para iniciar e manter o sono7.
Dormir mal repetidas noites por conta do calor traz consequências claras para o dia a dia, afirma o neurologista Dr. Antonio. Uma delas é no humor. Pessoas insones têm risco duas vezes maior de desenvolver depressão quando comparadas a quem dorme bem³.
Outro efeito da falta de sono é o prejuízo em funções de memória, como a memória de trabalho, essencial para o raciocínio e aprendizado, a memória episódica, que é a capacidade de codificar e recuperar experiências pessoais diárias4.
Além disso, pessoas com insônia apresentam maior probabilidade de desenvolver hipertensão, hiperglicemia, hiperlipidemia e obesidade em comparação a indivíduos sem dificuldades de sono5. “Essas consequências ajudam a explicar por que noites quentes, além de desconfortáveis, podem impactar o humor, aumentar a irritabilidade e diminuir a produtividade no dia seguinte”, reforça o médico.
Os tecidos usados no pijama e na roupa de cama fazem diferença na qualidade do sono no calor. Isso porque cada fibra tem propriedades térmicas próprias8.Fibras naturais, como algodão e linho, permitem melhor respiração da pele e podem ajudar a manter o conforto térmico durante a noite porque facilitam a troca de calor com o ambiente. Já fibras sintéticas, como o poliéster, tendem a reter mais calor e absorver menos umidade, aumentando a taxa de suor em ambientes muito quentes8.“Optar por materiais naturais na roupa de dormir e cama evita o acúmulo de calor e pode ajudar a adormecer mais rápido e permanecer confortável ao longo da noite”, orienta o neurologista.
Estudos indicam que a qualidade do sono é maior quando a temperatura média do quarto fica entre 23,4 °C e 26,9 °C9.
O uso de ventiladores ou ar-condicionado pode ajudar a alcançar essa faixa, desde que de forma moderada.9 “Para quem conta com um ar-condicionado no quarto, pode regular a temperatura ambiente, deixando na faixa ideal, momentos antes de ir dormir”, sugere o médico.
Ele alerta, no entanto, que o ar-condicionado pode ressecar as mucosas nasais, especialmente quando usado em temperaturas muito baixas. “O uso do ar deve ser moderado e evitar temperaturas muito frias. Se você não tem um aparelho que desliga sozinho, uma dica é isolar bem o quarto, fechando as janelas, para manter a temperatura desejada e desligar o aparelho antes de dormir”, complementa.
O exercício influencia a temperatura do corpo durante e após a atividade. Elevações na temperatura central do corpo, na pele e até no cérebro podem dificultar o início do sono10.
Por isso, exercícios intensos no fim do dia podem atrasar a liberação de melatonina e dificultar o resfriamento natural do corpo, mesmo que o impacto direto na qualidade do sono seja pequeno10.Por outro lado, a prática regular de atividade física, especialmente pela manhã, está associada a níveis mais baixos de cortisol e a um declínio mais estável da temperatura corporal ao longo do dia, o que favorece noites de sono melhores10.
A alimentação também interfere no conforto térmico e na qualidade do sono. Refeições pesadas e ricas em gordura exigem maior esforço digestivo, o que aumenta a produção de calor11. “A digestão de comidas com alto teor de gordura e ultraprocessados exige mais do sistema digestivo do que uma refeição rica em fibras. Quanto mais a digestão pede, mais o corpo usa energia, que gera calor”, explica o médico.
Além disso, dietas pobres em fibras e ricas em gorduras saturadas e açúcar estão associadas a um sono mais leve, menos restaurador e com mais despertares12.
Evitar álcool e estimulantes também é importante, já que essas substâncias fragmentam o sono e pioram sua qualidade11–13. “Por isso”, explica o Dr. Antonio, “próximo da hora de dormir, prefira refeições leves e evite cafeína. Isso quer dizer cafés, chás preto e verde, chocolate e refrigerantes à base de cola ou guaraná”.
Um banho morno pode ajudar o corpo a se preparar para o sono. Após a exposição inicial ao calor, o organismo ativa mecanismos de termorregulação, como a vasodilatação periférica, que facilita a liberação de calor.10
Esse processo cria uma diferença de temperatura entre o centro e a superfície do corpo, favorecendo uma queda mais rápida da temperatura interna. Essa redução é um dos fatores que facilitam o início do sono e contribuem para atingir o sono profundo.10
A luz é um dos principais sinais que regulam o ritmo circadiano. A exposição prolongada à luz azul emitida por telas, especialmente à noite, pode inibir o relógio biológico e dificultar o sono, mesmo quando há cansaço11.
Manter o ambiente escuro e reduzir o uso de telas no período noturno ajuda o cérebro a reconhecer que é hora de dormir, favorecendo um ciclo mais estável11.
Manter horários regulares para dormir e acordar é uma das recomendações mais eficazes para melhorar o sono13. “Ter um horário regular ajuda o cérebro a entender que é hora de dormir mesmo no calor”, ressalta o Dr. Antonio.Uma rotina consistente, de preferência com 7 a 9 horas de sono por noite, reforça o ritmo circadiano e facilita o adormecer, mesmo em noites quentes. Estabelecer um padrão diário, incluindo fins de semana, contribui para estabilizar o ritmo interno e melhorar a qualidade do descanso13.
Para o Dr. Antonio, investir em um ambiente térmico e sensorial favorável é parte fundamental da higiene do sono.11 “Criar condições para que o organismo consiga perder calor é, muitas vezes, o que diferencia uma noite mal dormida de um sono realmente reparador”, completa.
Ele alerta, no entanto, que se ainda houver dificuldades para dormir mesmo em um quarto fresco e com boas práticas de higiene do sono, “pode ser um sinal de que há algo mais acontecendo”.Entre os principais alertas estão a dificuldade persistente para pegar no sono ou permanecer dormindo, sentir sonolência excessiva durante o dia ou notar comportamentos anormais que atrapalham o descanso, como roncos intensos ou movimentos repetitivos nas pernas durante a noite¹¹.
Outro sinal importante é o “sono desregulado”: quando a pessoa sente sono nos horários em que deveria estar ativa e, ao chegar a hora de dormir, permanece desperta. Nesses casos, é fundamental buscar avaliação especializada¹¹. “Identificar a causa de alterações no sono precocemente ajuda a prevenir impactos na saúde física e mental, assim como protege contra doenças neurológicas, como o Alzheimer”, finaliza o especialista.
Informações não referenciadas correspondem à opinião e/ou prática clínica do profissional da saúde entrevistado.
Conteúdo produzido em março/2026
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