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Pessoas trans podem enfrentar diversas barreiras e preconceitos quando o assunto é cuidar da própria saúde.1,2 Um deles é a prevenção e o tratamento de dois dos tipos de câncer mais comuns na população, seja em pessoas trans, ou em cisgênero: o câncer de mama1 e o de próstata.2

Por exemplo, dados de um estudo publicado no British Medical Journal mostram que homens trans que mantêm tecido mamário devem seguir as mesmas orientações de rastreamento recomendadas para mulheres cisgênero. Isso inclui mamografia a cada dois anos a partir dos 50 anos¹.

Mas a população trans pode ter alguns fatores a mais para pensar. Procedimentos como hormonioterapia, retirada de tecidos mamários, cirurgias de afirmação de gênero e histórico familiar influenciam diretamente o acompanhamento médico necessário em cada caso. De qualquer forma, o rastreamento deve ser individualizado e baseado na anatomia e no histórico de saúde de cada pessoa.1 Segundo o oncologista Dr. Paulo Paes (CRM-SP 179.539 / RQE 78494), “o principal ponto é entender que órgãos e tecidos permanecem no corpo após a transição.”

jovem de blusa preta em um fundo branco exibindo um laço cor-de-rosa no peito em apoio ao Outubro Rosa e às pessoas que enfrentam o câncer de mama

Rastreamento de câncer em pessoas trans: o que ainda atrapalha?

Um artigo publicado na revista científica Clinical Breast Cancer reforça que pessoas trans encontram dificuldades de acesso aos serviços de saúde devido a preconceito, discriminação e exclusão.³

Além das barreiras sociais, muitos pacientes deixam de procurar atendimento por medo de constrangimento durante exames físicos ou pela falta de acolhimento adequado nos serviços de saúde.² “O ambiente médico precisa ser seguro e respeitoso para que o paciente consiga realizar exames preventivos regularmente”, afirma o médico.

Como o câncer de mama pode afetar pessoas trans

Como vimos, o câncer de mama não é uma preocupação exclusiva de mulheres cisgênero. Homens trans que mantêm tecido mamário também podem desenvolver a doença.¹

Mesmo após cirurgias de mastectomia, pequenas quantidades de tecido mamário podem permanecer no corpo. Isso significa que o risco não desaparece completamente, embora possa ser reduzido dependendo da técnica cirúrgica utilizada.³

Estudo publicado na Revista Uruguaya de Enfermería aponta que ainda existem lacunas importantes no rastreamento de câncer em pessoas trans, principalmente devido à escassez de protocolos específicos e à baixa inclusão dessa população em programas de detecção precoce.²

Com relação ao uso de testosterona em homens trans e a associação com o câncer, o tema ainda está sob investigação científica. Até o momento, os estudos indicam que o acompanhamento deve considerar fatores individuais como idade, presença de tecido mamário residual e histórico familiar de câncer.³

Mulheres trans também correm risco de câncer de mama

Mulheres trans que utilizam terapia hormonal com estrogênio podem apresentar desenvolvimento de tecido mamário ao longo do tempo. Isso levou pesquisadores a investigarem o impacto hormonal no risco de câncer de mama nessa população.¹

Um estudo publicado no British Medical Journal identificou que mulheres trans em uso de terapia hormonal apresentaram risco de câncer de mama maior do que o de homens cisgênero embora inferior ao observado em mulheres cisgênero.¹

Segundo o Dr. Paulo, “o uso prolongado de hormônios exige acompanhamento contínuo. Isso não significa que a terapia hormonal seja contraindicada, mas reforça a necessidade de seguimento médico regular.”

Homem de barba com a mão apoiada no pescoço exibindo um laço de fita azul em apoio ao Novembro Azul e às pessoas que enfrentam o câncer de próstata

Mulheres trans podem ter câncer de próstata?

Mesmo após a redesignação sexual, mulheres trans podem manter a próstata, já que o órgão normalmente não é retirado durante as cirurgias de afirmação de gênero. Isso significa que o risco de câncer de próstata continua existindo.⁴

O uso de estrogênio e bloqueadores hormonais pode alterar os níveis do antígeno prostático específico, o PSA, exame frequentemente utilizado no rastreamento do câncer de próstata. Isso pode dificultar a interpretação dos resultados laboratoriais e exigir avaliação individualizada.⁴

Além disso, alguns sintomas podem passar despercebidos ou ser confundidos com alterações urinárias comuns do envelhecimento.⁴ “O fato de a incidência ser menor não elimina a necessidade de acompanhamento. Mulheres trans que mantêm a próstata precisam conversar com seus médicos sobre rastreamento adequado”, explica o oncologista.

O papel da hormonioterapia no risco oncológico

A terapia hormonal é parte importante do processo de afirmação de gênero para muitas pessoas trans. No entanto, especialistas destacam que os hormônios podem influenciar tecidos sensíveis, como mama e próstata, tornando o acompanhamento preventivo ainda mais relevante.2,4

Estudos ressaltam também que ainda há necessidade de ampliar as pesquisas sobre saúde oncológica da população trans, especialmente em relação aos efeitos de longo prazo da hormonização. A ausência histórica dessa população em pesquisas médicas contribuiu para a escassez de diretrizes específicas.2,4

Rastreamento deve ser individualizado

Segundo o Dr. Paulo, “não existe um único protocolo que sirva para todas as pessoas trans. O acompanhamento precisa ser construído de forma personalizada e respeitosa.”

De todo modo, o rastreamento precisa considerar fatores como: ¹

  • Presença de tecido mamário
  • Existência da próstata
  • Tempo de uso de hormônios
  • Histórico familiar de câncer
  • Idade
  • Tipo de cirurgia realizada

Prevenção do câncer em pessoas trans: informação ainda é a melhor ferramenta

O aumento do acesso à informação sobre saúde oncológica de pessoas trans é considerado essencial para reduzir desigualdades no diagnóstico e ampliar o acesso à prevenção.1,2

“Embora ainda existam lacunas científicas importantes, o acompanhamento regular e individualizado pode ajudar na detecção precoce e melhorar os cuidados dessa população ao longo da vida”, complementa o Dr. Paulo.

Conteúdo elaborado em setembro/2026

Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.

Médico consultor: Dr. Paulo Roberto Paes e Silva Júnior (CRM-SP 179539; RQE 78495; RQE 78494), médico oncologista graduado pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), com Residência Médica em Clínica Médica pelo Hospital de Clínicas Gaspar Vianna e em Oncologia Clínica pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Mestre em Oncologia pelo A.C.Camargo Cancer Center e MBA em Gestão de Negócios pela USP/ESALQ

Informações não referenciadas correspondem à opinião ou prática clínica do profissional de saúde entrevistado

Referências

  1. Blok CJM, Wiepjes CM, Nota NM, van Engelen K, Adank MA, Dreijerink KMA, et al. Breast cancer risk in transgender people receiving hormone treatment: nationwide cohort study in the Netherlands. BMJ. 2019;365:l1652.
  2. Figueredo RC, Cruz LPR, Reis MA, Freitas NR, Matos MA. Debatendo o câncer de próstata no homem cisgênero e mulher transgênero. Rev Urug Enferm. 2023; 18(1):e2023v18n1a3
  3. Gilbert D, Thakur A, Tabernacki T, Loria M, Maravillas MA, Gupta S, et al. Breast Cancer in Transgender Patients Following Medical and Surgical Intervention. Clin Breast Cancer. 2026;26(5):100-11.
  4. Tanaka MB, Sahota K, Burn J, Falconer A, Winkler M, Ahmed HU, et al. Prostate cancer in transgender women: what does a urologist need to know?. BJU Int. 2022; 129:113-122