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Você sabia que amamentar por dois anos pode reduzir o risco de desenvolver câncer de mama em torno de 5% a cada 12 meses de amamentação? A constatação é de um levantamento feito pela World Cancer Research Fund e traduz uma mudança biológica que ocorre no processo de aleitamento: a redução das taxas de estrogênio e outros hormônios relacionados ao desenvolvimento da doença.¹

Além disso, a amamentação promove a renovação de células que poderiam ter lesões no material genético, o que também proporciona maior proteção contra a formação do tumor.¹

No entanto, embora seja incomum, o câncer de mama ainda pode se desenvolver no período pós-parto, e o quadro pode se agravar devido ao atraso ou à dificuldade do diagnóstico. Isso porque a mama lactante tende a dobrar de volume e produzir nódulos. Isso aumenta a densidade mamária, o que torna a interpretação de exames clínicos mais difícil.²

Ao descartar alguns fatores como somente mudanças naturais do corpo, tanto genitoras quanto profissionais da saúde, inadvertidamente, podem desconsiderar sinais e sintomas, atrasando o diagnóstico. Alterações persistentes devem ser consideradas um alerta para o encaminhamento da paciente a centros especializados para uma avaliação completa.³

Mulher usando uma faixa de cabelo estampada está sentada em uma cadeira de vime amamentando seu bebê

Quais são os sinais de alerta para o câncer de mama durante a amamentação?

Procedimentos de rastreamento e o diagnóstico precoce do câncer podem aumentar as chances de tratamento da doença³. De acordo com o oncologista Dr. Paulo Paes (CRM-SP 179539; RQE 78495; RQE 78494), quando o tumor é identificado em estágios iniciais, é possível oferecer terapias por menor tempo e com melhores resultados. “Por isso, o rastreamento regular e a atenção aos sinais do corpo são atitudes essenciais para reduzir a mortalidade e ampliar as possibilidades de cura.”

Os sinais e sintomas suspeitos de câncer de mama incluem⁴:

  • Nódulo de consistência endurecida e fixo, ou nódulo que vem aumentando de tamanho;
  • Sangue saindo pelo mamilo em um só seio;
  • Lesão ou ferida na pele da mama avermelhada e que não melhora com pomadas e cremes;
  • Pele da mama com aspecto de casca de laranja ou retraída;
  • Presença de caroço na axila, geralmente endurecido, que pode estar fixo ou móvel;
  • Aumento progressivo do tamanho da mama, com sinais de inchaço, vermelhidão ou pele áspera;
  • Mudança no formato do mamilo, como quando ele fica retraído para dentro (especialmente em apenas uma mama);
  • Inflamação da mama que não melhora mesmo após o tratamento adequado com antibiótico.

“O diagnóstico precoce é fundamental em qualquer fase da vida, mas exige atenção ainda maior em períodos específicos, como durante a gestação e a amamentação, pois as mudanças naturais da mama podem dificultar a identificação de sinais suspeitos”, explica o Dr. Paulo.

Posso examinar a mama na lactação?

Não só é possível examinar a mama para o câncer como os procedimentos podem ser recomendados a depender do histórico de saúde da mulher, diz o oncologista.

Exames de rastreamento como mamografia, ultrassom de mamas e ressonância magnética com contraste podem ser realizados por lactantes. Mas há a opção de adiar o rastreio caso esteja a poucos meses do desmame. De qualquer forma, todas as modalidades radiológicas utilizadas para rastrear a doença são seguras durante a lactação.⁵

Algumas alterações fisiológicas das mamas durante a lactação podem dificultar a interpretação dos exames de imagem e aumentar a ocorrência de achados falso-positivos. Por exemplo, ductos lactíferos dilatados e leite residual podem simular lesões mamárias. Por esse motivo, recomenda-se que a mulher amamente ou realize ordenha imediatamente antes do exame, reduzindo a densidade mamária e melhorando a sensibilidade do exame.⁵

Caso sejam identificados sinais de alerta e lesões suspeitas no exame de imagem, a mulher pode ser encaminhada para um centro especializado para uma biópsia, que consiste na retirada de uma pequena porção de tecido alterado para avaliação em laboratório.³

Segundo o Dr. Paulo, o cuidado com as mamas nunca deve ser deixado de lado, especialmente em um período tão delicado quanto a amamentação. “Com orientação médica adequada e o uso de técnicas de imagem corretas, é possível investigar alterações com segurança e garantir que qualquer suspeita seja avaliada da forma mais precisa possível”, ressalta.

Quem já teve câncer de mama consegue amamentar?

Mamas que passaram por mastectomia total, quimioterapia, tratamento conservador de mama e radioterapia tendem a ter uma produção reduzida de leite. Portanto, pessoas que já tiveram câncer de mama precisam de um acompanhamento mais próximo durante a amamentação⁵.

Mas o médico tranquiliza: mesmo com limitações decorrentes do tratamento de um câncer, a amamentação ainda é possível. “Com a orientação médica e acompanhamento especializado, é possível avaliar as alternativas e apoiar a mulher para que a experiência ocorra da forma mais segura e confortável possível, tanto para a mãe quanto para o bebê.”

Mulher de cabelos escuros, longos e trançados, vestindo blusa branca com decote em V, realiza um autoexame nas mamas posicionando as mãos sobre o peito enquanto está sentada.

Quais cuidados são necessários para enfrentar o câncer de mama no pós-parto?

No caso de diagnóstico de câncer de mama no pós-parto, o mais importante é seguir as recomendações médicas. Estudos sugerem que mulheres diagnosticadas nos primeiros anos após o parto podem apresentar pior prognóstico do que mulheres que nunca tiveram filhos, ou cujo último parto ocorreu há muitos anos. Portanto, cuidados especiais são necessários nesses casos, para garantir a segurança da mãe e a da criança.⁵

Caso queira continuar amamentando após o diagnóstico de câncer de mama, é importante saber que⁵:

  • A maior parte dos exames para determinar a extensão do câncer no corpo são compatíveis com a amamentação;
  • Exames de medicina nuclear podem exigir um curto período de contato limitado entre a mãe e o bebê. Mas é possível ordenhar o leite com antecedência;
  • Quimioterapia, terapia-alvo anti-HER2, e terapia hormonal geralmente exigem a interrupção da lactação;
  • Caso opte pelo desmame, o profissional de saúde deve apresentar opções para obter leite de doador.

Ao identificar a doença, a equipe médica irá traçar a rota de tratamento mais adequada, considerando o estágio do tumor. Os tratamentos possíveis incluem cirurgia, terapia sistêmica, radioterapia e serviços de apoio.6 “Em casos mais avançados, além de tratamentos direcionados ao controle da doença, a equipe médica pode recomendar tratamentos para controle de sintomas e melhora da qualidade de vida”, acrescenta o Dr. Paulo.

No Brasil, pacientes com câncer têm direito a receber o 1º tratamento no SUS, em até 60 dias do diagnóstico pelo laudo anátomo-patológico ou em prazo menor, conforme necessidade terapêutica individual⁶.

Conteúdo elaborado em abril/2026

Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.

Médico consultor: Dr. Paulo Roberto Paes e Silva Júnior (CRM-SP 179539; RQE 78495; RQE 78494), médico oncologista graduado pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), com Residência Médica em Clínica Médica pelo Hospital de Clínicas Gaspar Vianna e em Oncologia Clínica pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Mestre em Oncologia pelo A.C.Camargo Cancer Center e MBA em Gestão de Negócios pela USP/ESALQ.

Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Aleitamento materno como fator protetor contra o câncer de mama [Internet]. [Acesso em 12 mar. 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/prevencao-ao-cancer/aleitamento-materno-como-fator-protetor-contra-o-cancer-de-mama
  2. Vashi R, Hooley R, Butler R, Geisel J, Philpotts L. Breast imaging of the pregnant and lactating patient: physiologic changes and common benign entities. AJR Am J Roentgenol. 2013;200(2):329-336.
  3. Wijesinghe K, Jayarajah U, Gamage H, De Silva S, De Silva A. Breast cancer in lactating mothers: A case series of delayed diagnosis. Int J Surg Case Rep. 2023;102:107856.
  4. Brasil. Ministério da Saúde. Detecção precoce [Internet]. [Acesso em 12 mar. 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/gestor-e-profissional-de-saude/controle-do-cancer-de-mama/acoes/deteccao-precoce
  5. Academy of Breastfeeding Medicine. Protocolo Clínico nº 34 ABM: câncer de mama e amamentação[Internet]. Academy of Breastfeeding Medicine; [acesso em 03 Ago 2026]. Disponível em: https://abm.memberclicks.net/assets/DOCUMENTS/PROTOCOLS/34-cancer-mama-formatado-portuguese.pdf
  6. Brasil. Ministério da Saúde. Rastreamento / Diagnóstico [Internet]. [Acesso em 12 mar. 2026]. Disponível em: https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/cancer-de-mama/unidade-de-atencao-primaria/rastreamento-diagnostico/#pills-rastreamento-diagnostico