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Publicado em: 16 de setembro de 2026
A depressão é uma doença que afeta mais do que emoções e pensamentos.1,2 Embora seja considerada um transtorno mental, evidências científicas mostram que sua origem e evolução envolvem diferentes sistemas do organismo, incluindo o metabolismo, o sistema imunológico1 e mecanismos inflamatórios. Por isso, cada vez mais especialistas enxergam a depressão como condição multifatorial, influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais.1,2
Essa compreensão ampliou a forma de avaliar e tratar a doença. Hoje se sabe que a saúde mental e a saúde física estão conectadas. Alterações no peso corporal, na qualidade do sono, na alimentação, na atividade física e em doenças metabólicas podem influenciar tanto o surgimento dos sintomas quanto a resposta ao tratamento.¹˒²
“O cérebro não funciona isoladamente. Hormônios, metabolismo, sistema imunológico e hábitos de vida participam da regulação do humor. Quando um desses sistemas está desequilibrado, isso pode repercutir diretamente na saúde mental”, explica o psiquiatra Dr. Rogério Onofre (CRM-SP: 192.427 | RQE: 109.401).
A relação entre obesidade e depressão é considerada bidirecional. Isso significa que uma condição pode favorecer o desenvolvimento da outra.2,3
Para se ter uma ideia, uma metanálise de estudos longitudinais demonstrou que a obesidade aumenta em 55% o risco de depressão futura. Em sentido contrário, a depressão aumenta em 58% o risco de desenvolvimento de obesidade. Esses dados reforçam que não existe uma única direção nessa associação.2
Além dos aspectos emocionais e comportamentais, fatores biológicos ajudam a explicar essa ligação. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, o tecido adiposo não atua apenas como reserva de energia. Ele produz hormônios e substâncias inflamatórias capazes de influenciar o metabolismo e a comunicação com o cérebro.⁴ “Alterações na leptina, hormônio relacionado à saciedade, e o aumento da inflamação sistêmica podem contribuir para esse processo”, explica o Dr. Rogério.
Também existem fatores sociais importantes. O estigma relacionado ao excesso de peso, à discriminação, às limitações funcionais e ao impacto na autoestima pode comprometer a qualidade de vida e aumentar a vulnerabilidade ao sofrimento psíquico.²
Nos últimos anos, a ciência passou a investigar a chamada hipótese inflamatória da depressão. Segundo essa teoria, alguns pacientes apresentam um estado persistente de inflamação crônica pode afetar diretamente o funcionamento cerebral.⁵
Pessoas com depressão frequentemente apresentam aumento de marcadores inflamatórios, como citocinas pró-inflamatórias e substâncias relacionadas ao estresse oxidativo.5 Esses processos podem contribuir para alterações cognitivas, prejuízo das funções executivas e mudanças no funcionamento de circuitos cerebrais ligados ao humor.1
Estudos indicam que entre as principais substâncias envolvidas estão o fator de necrose tumoral alfa, conhecido como TNF-alfa, a interleucina-1, o interferon gama e a proteína C-reativa.5 Níveis elevados desses marcadores estão associados à maior atividade inflamatória e ao maior risco de sintomas depressivos.⁴˒⁵
Há evidências de sintomas semelhantes aos da depressão em situações associadas à intensa ativação do sistema imunológico.5 Além disso, biomarcadores inflamatórios vêm sendo estudados como ferramentas auxiliares para avaliação da gravidade da doença e personalização de tratamentos.1
A fadiga persistente é um dos sintomas mais comuns da depressão;1 é também uma das manifestações frequentemente associadas à inflamação.5 Quando o organismo combate uma infecção, é natural sentir cansaço, redução da energia e menor motivação.4 Algo semelhante pode ocorrer em estados inflamatórios crônicos.4,5
A inflamação afeta áreas cerebrais responsáveis pela regulação do sono, da atenção, da concentração e da disposição física. Como resultado, algumas pessoas passam a apresentar sensação constante de esgotamento mesmo após períodos adequados de descanso.⁵
Na obesidade, o sistema imunológico permanece continuamente estimulado pela produção de substâncias inflamatórias originadas no tecido adiposo. Isso pode contribuir para sintomas como letargia, falta de energia e desmotivação.⁴
Outra questão importante envolve as alterações do sono. A depressão frequentemente está associada à insônia e a mudanças hormonais que afetam a produção de leptina e grelina, hormônios relacionados à saciedade e à fome. Esse desequilíbrio pode favorecer tanto o ganho de peso quanto a piora dos sintomas emocionais.⁴
“Mas esses sintomas podem ocorrer tanto em quadros depressivos quanto em alterações metabólicas. Por isso, a avaliação médica é fundamental para identificar a participação de cada fator e direcionar o tratamento adequado”, reforça o Dr. Rogério.
Diversas doenças caracterizadas por inflamação crônica – obesidade, síndrome metabólica, doenças cardiovasculares – apresentam maior frequência de sintomas depressivos.³
A obesidade é considerada uma condição inflamatória porque o tecido adiposo produz citocinas e outros mediadores que mantêm o sistema imunológico continuamente ativado. Isso pode contribuir para o desenvolvimento de depressão e de outras doenças crônicas.3,4
No diabetes e na síndrome metabólica, a combinação entre alterações metabólicas e inflamação também parece desempenhar papel importante na saúde mental.³ Por conta disso, o tratamento da depressão não deve considerar apenas o cérebro, mas também fatores físicos que podem influenciar a evolução da doença.¹˒³
A escolha do tratamento antidepressivo leva em consideração diversos fatores. Segundo o Ministério da Saúde, além do subtipo de depressão e do histórico do paciente, o médico deve avaliar a presença de doenças clínicas associadas e as características específicas de cada medicamento.⁶
Isso significa que condições como obesidade, síndrome metabólica, diabetes e risco cardiovascular podem influenciar a decisão terapêutica.1 Em alguns casos, determinadas medicações podem ser menos adequadas devido ao potencial impacto sobre o peso corporal e o metabolismo.⁷
Além da medicação, o controle do peso corporal, a melhora da alimentação, a prática de atividade física e o tratamento de doenças metabólicas costumam fazer parte da estratégia terapêutica global.³˒⁶
Nem todos os antidepressivos apresentam os mesmos efeitos sobre o peso corporal. Um estudo conduzido por pesquisadores de Harvard observou diferenças relevantes entre medicamentos amplamente utilizados no tratamento da depressão – alguns medicamentos foram associados a maior ganho de peso, outros em menor ganho perda, e outros ainda em um resultado neutro, sem mudança no peso do paciente.⁷
A questão é relevante porque pode influenciar de maneira decisiva a adesão ao tratamento. O ganho de peso é uma das razões que levam alguns pacientes a interromper o uso da medicação ou a utilizá-la de forma inadequada.⁷
“Por isso, o acompanhamento do peso corporal deve fazer parte do tratamento. Avaliações periódicas permitem identificar alterações precocemente e discutir possíveis ajustes terapêuticos quando necessário”, explica o Dr. Rogério.
Apesar dessas diferenças, não existe um antidepressivo ideal para todos os pacientes. A escolha continua dependendo do quadro clínico, da presença de ansiedade, das doenças associadas e da avaliação médica individualizada.6,7
O estilo de vida exerce papel importante tanto na prevenção quanto no tratamento da depressão.3,6 O Ministério da Saúde recomenda a adoção desses hábitos saudáveis capazes de beneficiar simultaneamente a saúde física e mental: ⁶
A atividade física é uma das estratégias mais estudadas. Evidências científicas mostram que exercícios regulares ajudam a reduzir o risco de depressão e podem contribuir para a melhora dos sintomas em pessoas já diagnosticadas.³
Parte desse benefício parece estar relacionada à capacidade do exercício de reduzir a inflamação sistêmica, melhorar a resistência à insulina, diminuir os níveis de leptina e favorecer mecanismos anti-inflamatórios naturais do organismo.³
Por outro lado, o sedentarismo está associado ao aumento da gordura corporal, da inflamação e do risco de doenças metabólicas que podem impactar negativamente a saúde mental.³
Estudos demonstraram que dietas ricas em frutas, verduras, legumes, peixes, leguminosas e grãos integrais estão associadas a menores níveis de marcadores inflamatórios. Entre os padrões alimentares mais estudados está a dieta mediterrânea, frequentemente relacionada a melhores indicadores de saúde física e mental.³
Em contrapartida, dietas baseadas em alimentos ultraprocessados, carboidratos refinados, açúcares adicionados e gorduras saturadas tendem a estar associadas a níveis mais elevados de inflamação sistêmica.³
A microbiota intestinal também vem recebendo atenção crescente. As fibras presentes nos alimentos integrais ajudam a modular as bactérias intestinais, influenciando a resposta imunológica e processos inflamatórios que afetam o cérebro.³
Outro grupo de nutrientes frequentemente associado à saúde mental são os ácidos graxos ômega-3, encontrados em peixes, oleaginosas, leguminosas e vegetais folhosos. Estudos sugerem que essas substâncias possuem propriedades anti-inflamatórias potencialmente benéficas para o funcionamento cerebral.³
Como a depressão envolve fatores emocionais, metabólicos, inflamatórios e comportamentais, seu tratamento frequentemente exige a participação de diferentes profissionais. Psiquiatras, psicólogos, nutricionistas, endocrinologistas e clínicos podem atuar de forma complementar, abordando aspectos que vão desde os sintomas emocionais até o controle de doenças metabólicas e a adoção de hábitos saudáveis.1,3,6
Essa abordagem integrada também contribui para melhorar a adesão ao tratamento e identificar fatores que poderiam dificultar a recuperação. Muitos pacientes apresentam melhora significativa ou remissão com tratamento adequado, mas a resposta varia e pode ser necessário ajustar ou combinar estratégias ao longo do acompanhamento.⁶
Embora não seja possível eliminar completamente todos os fatores de risco para depressão, diversas medidas ajudam a reduzir a inflamação sistêmica e proteger a saúde mental.³˒⁶
Controlar o peso corporal, praticar atividade física regularmente, manter uma alimentação equilibrada, cuidar da qualidade do sono e tratar adequadamente doenças metabólicas estão entre as estratégias mais associadas à redução dos processos inflamatórios.³˒⁶
Mais do que prevenir doenças específicas, essas medidas contribuem para o funcionamento integrado do organismo¹. “A ciência mostra cada vez mais que cérebro, metabolismo e sistema imunológico trabalham de forma interligada. Cuidar da saúde física, portanto, também é uma forma importante de cuidar da saúde mental”, finaliza Dr. Rogério.
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Conteúdo elaborado em setembro/2026
Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.
Médico consultor: Dr. Rogério Onofre (CRM-SP 192.427; RQE 109.401), médico psiquiatra formado pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e pesquisador do Programa de Transtornos Afetivos (PRODAF), uma das frentes mais importantes do país em estudos sobre depressão resistente, bipolaridade e novas terapias como a cetamina. É também supervisor do ambulatório longitudinal da residência médica da EPM-Unifesp.
Informações não referenciadas correspondem à opinião ou prática clínica do profissional da saúde entrevistado.
1. Milaneschi Y, Simmons WK, van Rossum EFC, Penninx BW. Depression and obesity: evidence of shared biological mechanisms. Mol Psychiatry. 2019;24(1):18-33.
2. Luppino FS, de Wit LM, Bouvy PF, Stijnen T, Cuijpers P, Penninx BWJH, et al. Overweight, obesity, and depression. A systematic review and meta-analysis of longitudinal studies. Archives of General Psychiatry. 2010;67(3):220-229.
3. Berk M, Williams LJ, Jacka FN, O’Neil A, Pasco JA, Moylan S, Allen NB, et al. So depression is an inflammatory disease, but where does the inflammation come from? BMC Medicine. 2013;11:200.
4. Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. Depressão e obesidade: via de mão dupla que afeta milhões de brasileiros [Internet]. São Paulo: SBCBM; [Acesso em 11 ago 2026]. Disponível em: https://sbcbm.org.br/depressao-e-obesidade-via-de-mao-dupla-que-afeta-milhoes-de-brasileiros/
5. Maes M, Leonard B, Myint AM, Kubera M, Verkerk R. The new 5-HT hypothesis of depression. Cell-mediated immune activation induces indoleamine 2,3-dioxygenase, which leads to lower plasma tryptophan and an increased synthesis of detrimental tryptophan catabolites, both contributing to the onset of depression. Prog Neuropsychopharmacol Biol Psychiatry. 2011;35(3):702-21.
6. Brasil. Ministério da Saúde. Depressão [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; [Acesso em 11 ago 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/depressao.
7. Petimar J, Young JG, Yu H, et al. Medication-induced weight change across common antidepressant treatments: a target trial emulation study. Ann Intern Med. 2024;177:993-1003.
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