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Publicado em: 24 de agosto de 2023
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Estigma sobre a doença afasta parceiros e deve ser combatido tanto quanto o tumor .
Por Giuliana Cividanes*
A estimativa do Instituto Nacional de Câncer é de que o país fechará este ano com 66 mil novos casos de câncer de mama, o que representa uma taxa de incidência de 43,74 a cada 100 mil mulheres. Para além da potencial de letalidade da doença, e de um tratamento que exige acompanhamento e pode demandar a retirada dos seios, o diagnóstico vem acompanhado de outros fardos. A mulher, sua família e seu círculo mais próximo se veem diante de uma notícia que abala o dia a dia e questiona papéis ainda tratados como femininos em nossa sociedade. Um deles é o da cuidadora – o que acontece quando é ela quem precisa de cuidados?
Quando o paciente é um homem, uma mulher, em geral – a companheira, especialmente – assume a função de cuidadora, como constatado em estudos e na prática médica. A recíproca nem sempre é verdadeira. Segundo pesquisa realizada pelas universidades de Stanford e Utah, e pelo Centro de Pesquisa Seattle Cancer Care Alliance, a mulher tem seis vezes mais chances de ser abandonada pelo parceiro masculino após a descoberta de uma doença grave. Ao que parece, os homens não têm resiliência suficiente para lidar com a situação.
O abandono do parceiro tem nome científico: distress, termo usado para descrever essa síndrome existencial e social, quando a pessoa tem um câncer com consequências físicas, sociais e afetivas. A situação promove impacto psicológico na mulher, que, além de lidar com o tratamento, vivencia o abandono e, muitas vezes, a perda do emprego e o estigma da sociedade, principalmente se o câncer vem acompanhado da perda dos seios ou mesmo do cabelo.
Nesse cenário, estima-se que, entre todos os cânceres, de 30% a 35% dos pacientes diagnosticados vão desenvolver um transtorno psicológico e, entre os sobreviventes, de 15% a 30% manterão esse transtorno. Assim, uma grande parcela de pessoas com questões emocionais e comportamentais desenvolve síndromes psicossociais traumáticas que precisam ser tratadas – e o apoio de amigos, familiares e companheiros é essencial nessa jornada.
Mas não é bem isso que acontece. Além do Brasil, estudos feitos na Europa e nos Estados Unidos apontam que o paciente oncológico é estigmatizado, principalmente pelo pensamento de que a pessoa teve a doença porque mereceu, porque era infeliz, má ou porque fez algo errado na vida. Então, a mulher abandonada pelo companheiro, em vez de ser acolhida pela sociedade, é julgada, o que vai criando uma condição emocional que pode atrapalhar seu tratamento.
É preciso combater o estigma do câncer de mama tanto quanto a doença em si. Muitas vezes, a própria paciente tem receio de buscar o apoio terapêutico para ela e sua família, de reconhecer que precisa ser cuidada. Na conversa com o oncologista, a mulher deve ser incentivada a receber o encaminhamento para avaliação com psicólogo ou psiquiatra. O acompanhamento psicológico da paciente e de sua rede de apoio se torna necessário para um tratamento multidisciplinar. A participação em grupos de apoio com pessoas que vivem a mesma situação ajuda na troca de informações e no acolhimento para enfrentar o câncer de mama e suas consequências para a saúde mental da mulher.
*Giuliana Cividanes é psiquiatra pela Santa Casa de São Paulo e consultora médica da Libbs Farmacêutica.
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