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Já te disseram que sua dor de barriga é por motivo emocional? Em certos casos, isso pode ser mais verdade do que você imagina.¹

O cérebro e o intestino estão diretamente conectados por um sistema de comunicação conhecido como eixo cérebro–intestino. Por meio dessa ligação, sinais enviados pelo sistema nervoso influenciam o funcionamento do aparelho digestivo, enquanto o intestino também envia informações ao cérebro, ajudando a regular processos importantes do organismo¹.

De acordo com o gastroenterologista Dr. Décio Chinzon (CRM 49552 SP | RQE 11890), essa conexão é grande parte do porquê o estresse psicológico pode trazer problemas gastrointestinais. “Estudos comprovam que a reação do corpo ao estresse e à ansiedade afeta mecanismos que participam do funcionamento regular do trato digestivo”, diz o médico, que reforça a relevância dessa ligação para um intestino saudável. “A atenção para a saúde mental pode ser essencial para o tratamento e prevenção de doenças gastrointestinais.”

O que é a relação intestino–cérebro?

A relação entre intestino e cérebro acontece por meio de uma rede de comunicação responsável por regular funções essenciais do organismo¹.

Essa comunicação envolve diferentes mensageiros químicos. Estudos indicam que substâncias derivadas da microbiota intestinal, como ácidos graxos de cadeia curta, vitaminas e hormônios intestinais atuam como intermediários nesse diálogo, levando informações do intestino ao cérebro e influenciando o funcionamento de ambos os sistemas¹.

Processos como apetite, movimento do intestino, emoções e liberação de hormônios digestivos são controlados por essa conexão constante entre o sistema nervoso central e o trato gastrointestinal¹.

Por isso, em situações de estresse ou ansiedade, o cérebro sinaliza a liberação de hormônios relacionados com a resposta de luta ou fuga do organismo, como serotonina². “Essa liberação provoca diversas alterações fisiológicas, inclusive no sistema digestivo”, afirma o Dr. Décio.

Intestino preso pode ser estresse?

Sim. “A mudança no trânsito intestinal, levando à constipação ou diarréia, é um dos principais desfechos do estresse e ansiedade no organismo”, confirma o médico.

Como ele explica, a resposta do organismo ao estresse afeta diretamente a comunicação entre cérebro e intestino, contribuindo tanto para distúrbios gastrointestinais funcionais quanto para doenças orgânicas do trato digestivo³. Nisso, podemos incluir o intestino preso (constipação), desarranjos (diarréia), dores abdominais e até a síndrome do intestino irritável, segundo o Dr. Décio. 

Um dos mecanismos envolvidos está no ambiente interno do intestino. O desequilíbrio da microbiota intestinal — comunidade de bactérias e outros microrganismos que vivem no intestino — conhecido como disbiose, tem papel relevante em distúrbios digestivos e pode ser influenciado por situações de estresse¹. Segundo o Dr., “uma microbiota equilibrada é essencial para as funções digestivas. Quando o emocional altera esse equilíbrio, essas funções ficam comprometidas e podem desregular o ritmo intestinal.”

O estresse crônico pode ainda reduzir o peristaltismo (isto é, os movimentos intestinais), a produção de ácidos graxos de cadeia curta, o que ocasiona fezes mais ressecadas, e a estimulação do trânsito intestinal.1,3

Sintomas intestinais que podem estar relacionados ao estresse e à ansiedade

“Nem todo sintoma digestivo tem origem emocional”, ressalta o médico. Mas alguns sinais podem indicar que a saúde mental tem algo a ver com o desequilíbrio intestinal.4,5

Em pessoas expostas a estresse ou ansiedade, essa relação pode se manifestar por meio de mudanças na sensibilidade intestinal, no ritmo do trânsito intestinal e no aparecimento de desconfortos recorrentes.⁴,

Entre os principais sinais que podem ter relação com o estresse estão⁴:

  • Aumento da sensibilidade à dor abdominal e ao desconforto, deixando o intestino mais reativo a estímulos comuns. O estresse pode alterar mecanismos de proteção do intestino e favorecer processos inflamatórios, levando à chamada hipersensibilidade visceral, quando a dor é percebida de forma exagerada.

  • Alterações no movimento intestinal, como diarréia ou urgência para evacuar. Situações de estresse podem estimular contrações excessivas no cólon, acelerando o trânsito intestinal e contribuindo para sintomas digestivos funcionais.

Além disso, estudos mostram que sintomas de ansiedade e depressão estão associados a manifestações digestivas como alterações na deglutição, gases, distensão abdominal, diarreia, refluxo e inchaço. A fadiga também apareceu associada a uma ampla variedade de sintomas, incluindo constipação, náuseas e vômitos.⁵

Alimentação e hábitos que ajudam a proteger o intestino do estresse

Segundo o Dr. Décio, alguns hábitos alimentares podem ajudar a proteger o intestino e a reduzir os impactos do estresse no organismo.

A alimentação é o primeiro ponto. Como a microbiota intestinal participa ativamente da modulação da resposta do corpo ao estresse, a dieta faz toda a diferença. Estudos indicam que alterações intestinais induzidas pelo estresse podem ser atenuadas com o consumo de probióticos e prebióticos, por exemplo⁴. “Incluir alimentos fermentados, que são ricos em probióticos, é um meio de proteger a saúde do intestino de distúrbios emocionais”, orienta o médico.

Isso promove o equilíbrio da flora intestinal, a preservação da barreira de proteção do intestino, a redução de processos inflamatórios, bem como a regulação de respostas exageradas ao estresse⁴.

Alguns padrões alimentares, como a dieta mediterrânea, também são relacionados à maior resistência aos efeitos emocionais em comparação à dieta ocidental por conta de uma menor liberação de hormônios relacionados ao estresse⁴.

Já dietas com baixo teor de FODMAPs — grupo de carboidratos de cadeia curta (ricos em açúcar) que são mal absorvidos pelo intestino e fermentados por bactérias — podem ter efeitos positivos na remissão de sintomas da síndrome do intestino irritável⁴.

Cuidar da saúde mental também ajuda a proteger o intestino

Sintomas de estresse e ansiedade fazem parte da vida, mas merecem atenção quando se tornam intensos, persistentes ou começam a impactar sintomas físicos, como no intestino. Nesses casos, adotar hábitos que favoreçam a saúde mental é uma estratégia importante para reduzir seus efeitos sobre o organismo6.

Alguns cuidados que ajudam nesse processo incluem6,7:

  • Manter atividade física regular, que contribui para reduzir estresse e ansiedade, melhorar o humor, o sono e a sensação de bem-estar.

  • Incluir atividades prazerosas na rotina, como lazer, hobbies ou esportes, que ajudam a lidar melhor com o estresse.

  • Adotar hábitos de higiene do sono, como horários regulares para dormir, evitar telas antes de deitar e manter um ambiente adequado para o descanso.

  • Focar no momento presente, evitando a preocupação constante com o passado ou com situações futuras.

Segundo o médico, a ajuda profissional também pode ser considerada, principalmente quando a pessoa enfrenta dificuldades emocionais que não consegue resolver sozinha ou com apoio próximo, levando à prejuízos no dia a dia. “Procurar ajuda especializada, como psicólogos e médicos psiquiatras, pode ser essencial para que a pessoa possa superar distúrbios emocionais e tratar condições físicas que possam estar relacionadas.”

Referências:

  1. Yagi S, Fukui H, Shiraishi T, Kaku K, Wakita M, Takagi Y, et al. Effect of chronic social defeat stress on the small-intestinal environment, including the gut flora, immune system, and mucosal barrier integrity. Int J Mol Sci. 2025;26:9359.
  2. Moloney RD, O’Mahony SM, Dinan TG, Cryan JF. Stress-induced visceral pain: toward animal models of irritable bowel syndrome and associated comorbidities. Front Psychiatry. 2015;6:15. Disponível em: https://europepmc.org/backend/ptpmcrender.fcgi?accid=PMC3039211&blobtype=pdf
  3. Mayer EA. The neurobiology of stress and gastrointestinal disease. Gut. 2000;47(6):861–869. Citado em: 9 jan 2026. Disponível em: https://gut.bmj.com/content/47/6/861
  4. Zhang H, Wang Z, Wang G, Song X, Qian Y, Liao Z, Sui L, Ai L, Xia Y. Understanding the Connection between Gut Homeostasis and Psychological Stress. J Nutr. 2023 Apr;153(4):924-939
  5. Iaquinta FS, Mauro D, Pantano I, Naty S, Iacono D, Gaggiano E, et al. Gastrointestinal symptoms impact psychosocial function and quality of life in patients with rheumatoid arthritis and spondyloarthritis: a cross-sectional study. J Clin Med. 2023;12:3248.
  6. Brasil. Ministério da Saúde. Hábitos que podem ajudar a sua saúde mental em tempos de coronavírus [internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2021. Citado em: 9 jan 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/eu-quero-me-exercitar/noticias/2021/habitos-que-podem-ajudar-a-sua-saude-mental-em-tempos-de-coronavirus
  7. Brasil. Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Janeiro Branco: mês de conscientização pela saúde mental e emocional [internet]. Brasília: INSS; 2021. Citado em: 9 jan 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inss/pt-br/noticias/janeiro-branco-mes-de-conscientizacao-pela-saude-mental-e-emocional