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Publicado em: 7 de outubro de 2022
A cura – Heloisa orsolini Albertotti
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Se a ansiedade incomoda normalmente, imagine acrescentá-la ao pacotão que eu vivi nesses meses de tratamento. Ela se aproximava com mais força sempre perto de uma quimioterapia ou porque estava chegando a hora de fazer um novo exame. E esperar pelos resultados sempre gerava bastante expectativa.
Era justamente nesses dias que as estratégias de cuidar de mim precisavam ser usadas com mais intensidade. Não podemos negar um sentimento ou um momento de mais sensibilidade ou até negatividade. O que não devemos fazer é deixar que eles dominem e sejam mais frequentes no nosso dia a dia do que os momentos de bem-estar e pensamento positivo. Sempre que algo me preocupa, busco focar os meus pensamentos nas coisas que me fazem feliz. Certa vez, durante o tratamento, fiz uma lista dessas coisas:
Listas nos ajudam a enxergar as pequenas coisas e a agradecer por elas. Eu sempre dei valor a agradecer, não apenas depois do diagnóstico. Mas lembrar delas agora me faz ser ainda mais grata.
Claro que depois que me tornei mãe acabei me esquecendo da sensação de um sono mais profundo, ou de um domingo à tarde sem nada para fazer. Bom, e as crianças fofas e sorridentes agora posso chamar de minhas também!
Depois de algum tempo o tratamento começou a apresentar resultados mais animadores. A massa de 10 cm que eu tinha no pulmão e no mediastino agora é só um pontinho. O tratamento estava sendo efetivo, um sucesso, na verdade. Agradeci, chorei, comemorei! Me senti grata pelo exame do dia anterior, aquele que foi muito desconfortável, mas que permitiu que eu soubesse dessa notícia maravilhosa.
Dias depois, o laboratório enviou para casa o laudo dos exames, que indicavam a redução do linfoma. Mesmo já sabendo pelo meu médico do resultado, resolvi abrir. Nele havia um comparativo com o primeiro PET Scan que eu tinha feito, e o resultado deste primeiro exame era muito pior do que eu imaginava. Além do mediastino, eu tinha outros 15 focos do linfoma.
Quando o dr. Jairo deu o diagnóstico, ele me tranquilizou dizendo que, como o linfoma se trata de um câncer no sistema circulatório, é comum ele estar em mais lugares, e que é diferente de ter metástase. Mas a verdade é que ele quis me poupar. Meu marido e minha mãe souberam desde o início que era um linfoma avançado, mas também optaram por não me contar. Ao lado, segue o tamanho do “estrago”:
Presença de áreas hipermetabólicas sugestivas de processo neoplásico ativo no (1) lobo superior do pulmão esquerdo, (2) lobo pulmonar médio, (3) linfonodos das cadeias mediastinal, (4) submandibular, (5) cervical posterior, (6) jugulo-carotídeo, (7) supraclavicular e axilar, (8) inguinal, (9) ilíaca, (10) obturatória bilateralmente, (11) adrenal esquerda, (12) baço e possivelmente na (13) adrenal direita. Áreas captantes no (14) mesogástrio, (15) flanco esquerdo e (16) pelve, podendo representar linfonodomegalias mesenteriais ou mais provavelmente lesões neoplásicas na parede de alças delgadas.
De fato, saber só me deixaria mais preocupada e ansiosa, e não havia nada que eu pudesse fazer de diferente do que eu já estava fazendo. Agora, o comparativo do exame que fiz no dia 2 de março de 2012: dos 16 lugares em que eu tinha foco, agora restava um. E ele já tinha diminuído bastante.
Continuava carequinha, mas com a certeza de que tudo aquilo estava valendo a pena. Pensei em cada restrição que eu tinha naquele momento por causa do isolamento do tratamento, mas as aceitei e concluí que seguiria fazendo tudo aquilo com ainda mais alegria. Ter aquele resultado era um alívio maravilhoso, me faltavam palavras para descrever. Os próximos meses seguiram, e no dia 17 de maio de 2012, finalmente, fiz a minha última quimioterapia.
Claro que os dias de tratamento não foram apenas de tédio e calmaria. Muitas vezes, me dava faniquito. Certas vezes ela vinha em forma de medo, outras de vontade de fazer algo que você não sabe bem o quê, uma pressa para resolver coisas que não estão ao seu alcance e a sensação de impotência e insegurança. Eu passei por isso algumas vezes durante esses meses. O meu truque era ficar sozinha e desligar todos os “barulhos”.
Então, aproveite para falar com Deus ou trazer energias positivas para perto de você, imaginando que está cercado por um círculo de luz branca ou dourada e que dentro dele só entram coisas boas, sejam sentimentos, pensamentos, vibrações, acontecimentos. Tudo o que não for bom fica para fora desse círculo. Junto com a respiração, sinta os músculos do seu corpo relaxando, solte as tensões, alinhe o que está desalinhado e permita-se sentir… É simples, é de graça, e funciona, eu garanto. A mudança na energia é imediata.
Durante o tratamento, recebi surpresas que acredito ser sinais de que Deus estava sempre ao meu lado. Dias depois de eu fazer o meu último exame, chegou um envelope pelo Correio. Enquanto eu o abria, o telefone tocou. No envelope, enviado por um amigo do meu marido, tinha uma foto de Jesus sorrindo. E, ao telefone, era o dr. Jairo me dando a boa notícia de que o tratamento havia terminado.
Quando fizemos um ano de casados, o meu marido me deu um escapulário. Em 2011, pouco antes de descobrirmos tudo, todas as vezes que eu usava o escapulário ele arrebentava. Precisei levar para arrumar umas cinco vezes. Teve um dia que vesti o escapulário e saí. Quando olhei no espelho do carro, havia um nó. Sinceramente, eu não sei como um nó se fez sozinho no meu escapulário.
Durante a minha primeira internação, por causa da trombose, uma médica amiga do meu marido foi nos visitar. Ela é espírita e havia pedido orações para mim. Ela disse que eu tinha alguma coisa na região do peito e que seria muito difícil descobrir o que era.
O amor que une as pessoas em oração por alguém é tão forte, tão poderoso. Quando foi cogitada uma operação para remoção de parte do meu pulmão, uma das médicas nos contou depois que sabia que o meu caso era difícil, e por isso foi rezando no caminho. Na reunião, o infectologista sugeriu retirar parte do pulmão, ela disse que “veio uma luz” dizendo que não, não era pra fazer. Mas ela não podia, como médica, ser contra o infectologista sem nenhum argumento, alguma evidência. Ela nos contou que rapidamente pensou em que argumentos poderia usar e sugeriu uma intervenção mais complexa e mais precisa. Sua sugestão foi acatada, e a biópsia sugerida por ela foi o exame que descobriu meu linfoma.
Sempre foi um sonho conhecer a Itália, e nada poderia coroar melhor o fim da minha doença do que esta comemoração. Sabemos que viajar pela Europa exige muita caminhada, mas pensamos que cinco meses depois do fim do tratamento eu já estaria bem recuperada. E talvez fosse mesmo o caso, se não tivéssemos feito um roteiro com 12 cidades em 15 dias. Claro que eu não tinha saúde para aguentar a ritmo daquela viagem! Mas só percebi isso quando eu já estava lá. Nosso avião chegou na Suíça, onde meu cunhado morava na época. Assim que chegamos, passeamos um pouco pela cidade com ele, almoçamos, jantamos e dormimos. No dia seguinte, ele foi nos acordar às 13 horas perguntando se estava tudo bem. Só isso já dá um sinal de como não estávamos na nossa melhor forma, porque nunca dormíamos até esse horário!
De lá fomos para Milão, onde pegamos um carro, e seguimos para Roma. Acordamos com calma, o plano era ir ao Vaticano. Não sabíamos que em algumas quartas-feiras o papa (Bento XVI, na época) fazia uma aparição às 9 horas. Era quarta e eu descobri isso já quase às 9 horas. Corremos para lá, mas sem expectativa de conseguir chegar a tempo ou de que justo naquela quarta, sem termos planejado, seria dia de ele fazer essa aparição. Havia muita gente, e, de repente… o carrinho do papa passa EXATAMENTE na minha frente e ele me olha bem no olho. Quando o meu marido olhou para mim, eu soluçava de tanto chorar, de tanta emoção. Era como uma catarse… inesperada até para mim.
Estes são exemplos das cicatrizes que não vemos, mas que qualquer ex-paciente de câncer sente, mesmo não escolhendo conscientemente sentir. Elas surgem e precisaremos conviver com isso pelo resto da nossa vida, mesmo depois que tudo “acabou”.
De outro lado, embora eu estivesse extremamente grata de ver tanta gente comemorando a minha saúde, ainda havia o risco real da reincidência. Quando um tratamento de câncer acaba, o paciente não tem alta, ele entra em remissão. Por isso, fazia exames a cada três meses. No terceiro e quarto anos, os exames seriam a cada seis meses porque as chances diminuem um pouco, mas ainda são relativamente altas. Após cinco anos e um último exame com bom resultado, aí, sim, eu poderia me considerar curada. Aí, sim, receberia alta médica.
Alguns anos depois do fim do meu tratamento fui convidada a participar de um debate no hospital onde me tratei, com cerca de 20 ex-pacientes. O objetivo era discutir melhorias no tratamento. Muito se fala sobre a importância do apoio psicológico ao paciente durante o tratamento, mas na minha experiência ele seria ainda mais importante depois.
Ao mesmo tempo que tentamos retomar a vida, periodicamente somos lembrados pelos exames que não estamos livres, e isso é extremamente angustiante.
“Tenho certeza de que vai estar tudo bem.“
“Não fique nervosa, não vai voltar.“
Passei todos os capítulos anteriores dando o meu mais sincero depoimento sobre a importância de acreditar e pensar positivamente. Mas esses comentários parecem que invalidam a nossa angústia, como se as pessoas pensassem que eu não tinha motivos reais para estar ansiosa, como se não me fosse permitido sentir medo ou ansiedade.
Outro incômodo: quando alguém se comporta como se eu não pudesse reclamar de nada porque tive o privilégio de superar uma doença que mata. É como se disséssemos que uma pessoa que passou por um assalto precisasse agradecer por estar viva, mesmo ela ainda estando traumatizada pela violência do assalto. Por isso eu acredito que o apoio e o acolhimento são tão importantes também depois do tratamento. Algumas cicatrizes são físicas, mas existem outras tantas emocionais que ficam bem escondidinhas, que ninguém vê e nem mesmo a gente entende.
Por isso às vezes a ansiedade se sobressai ao alívio de estar curada, e é tão difícil dizer que a vida “normal” está de volta. Este era meu “novo normal”, se eu usar o termo que está tão em alta agora em 2021.
@hoalbertottihoalbertotti.com.br/quem-sou/
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