Saúde da Mulher
Maternidade
Menopausa
Período Fértil
Dermatologia
Cuidados com a Pele
Saúde da Pele
Respiratória
Cuidados Respiratórios
Doenças Respiratórias
Cardiologia
Saúde do Coração
Saúde Mental
Transtornos Emocionais
Neurologia
Transtornos Neurológicos
Gastro
Saúde Intestinal
Oncologia
Câncer
Publicado em: 4 de março de 2026
“Pallium” é uma palavra de origem latina que significa “manto”. Na Roma Antiga, o termo era usado para designar uma espécie de capa utilizada para proteger o corpo do frio e das intempéries. A origem da palavra ajuda a traduzir, de forma simbólica, o que representam os cuidados paliativos na saúde¹.
Receber o diagnóstico de uma doença grave costuma ser comparado a enfrentar uma tempestade inesperada no percurso da vida, uma crise capaz de abalar planos, rotinas e expectativas. Nesse contexto, o cuidado paliativo surge como esse manto protetor, oferecendo amparo, conforto e alívio para o sofrimento físico e emocional que acompanham a doença¹.
No senso comum, ainda há pouca clareza sobre o que realmente o cuidado paliativo significa para um paciente com câncer. Não se trata de “desistir” do tratamento ou interromper terapias voltadas ao controle da doença, diz o oncologista Dr. Rodrigo Coutinho Mariano (CRM-SP 148.246). Essa abordagem tem como principal objetivo melhorar a qualidade de vida do paciente e de sua família, atuando no controle dos sintomas, no acolhimento emocional e no suporte durante todo o processo de adoecimento.1
“E quanto mais cedo for integrada ao tratamento do paciente, mais benefícios para ele e a família”, afirma o especialista, reforçando que os cuidados paliativos podem caminhar junto com outras estratégias terapêuticas desde o diagnóstico.1
Os cuidados paliativos são ações em saúde voltadas a promover o bem-estar e a qualidade de vida de pessoas e de seus familiares que convivem com uma doença grave, capaz de limitar ou ameaçar a vida¹.
Essa abordagem busca prevenir e aliviar o sofrimento físico, emocional, social e espiritual, oferecendo um suporte integral que respeita as necessidades e os desejos do paciente¹. “O que não quer dizer que é um tratamento apenas para o fim da vida”, diz o oncologista. “Diferentemente do senso comum, esse tipo de cuidado pode ser aplicado em qualquer fase da doença, independentemente da idade ou do estágio clínico.”
Cuidados paliativos não lidam (apenas) com a doença, mas com todos os sintomas que englobam o tratamento, sejam eles físicos ou emocionais. Uma equipe multiprofissional atua de forma integrada para controlar sintomas, reduzir o sofrimento e oferecer apoio emocional e espiritual, envolvendo o paciente e seus familiares em cada decisão.²
E esses cuidados podem ter início mesmo quando ainda existe intenção curativa.1 Eles podem acompanhar tratamentos como quimioterapia e radioterapia, por exemplo, ajudando a lidar com efeitos colaterais, desconfortos físicos e impactos emocionais.1
Quando o tratamento deixa de ter eficácia para a cura e o foco passa a ser o conforto e o bem-estar, os cuidados paliativos assumem um papel central, incluindo os chamados cuidados na fase final da vida¹. Ainda assim, segundo o Dr. Rodrigo, essa abordagem não significa “preparar para morrer”. “Muitos pacientes vivem anos, bem e com a doença controlada, acompanhados por cuidados paliativos. Pode não haver mais o que fazer para curar a doença, mas sempre há o que fazer pelo bem-estar do paciente e de sua família.”
Como no exemplo apontado pelo médico, os cuidados paliativos também têm grande atenção para o impacto psicológico de uma doença grave e ameaçadora da vida³.
Pacientes podem vivenciar sentimentos como negação, raiva, ansiedade, tristeza, depressão, medo, solidão, culpa e desespero, além da sensação de perda da saúde, da autonomia e da independência³.
Essas respostas emocionais são esperadas, funcionando como recursos de enfrentamento ao longo do processo de adoecimento³. “Mas não é porque são esperadas que não precisam de atenção. Em pacientes com câncer, o cuidado psicoemocional é essencial até para que o paciente continue com o tratamento e siga as orientações médicas”, diz o médico.
Outro desafio está em diferenciar essas reações esperadas de respostas disfuncionais ou de transtornos psiquiátricos, como a depressão, que exigem atenção e tratamento específicos³.
A depressão é comum em pacientes em cuidados paliativos, mas ainda é frequentemente mal interpretada, subdiagnosticada e tratada de forma inadequada ou tardia. Entre os motivos estão a crença equivocada de que a depressão faz parte do processo diante da possibilidade de fim de vida e a dificuldade em reconhecer seus sinais em meio à complexidade dos sintomas da doença base³.
Enquanto a tristeza pode se manifestar como humor deprimido, pesar e luto antecipatório, sinais como desesperança persistente, sensação de inutilidade, culpa intensa, perda de interesse por atividades, prazer reduzido e ideação suicida podem indicar um quadro depressivo³.
O médico ressalta que, mesmo nesses casos, a depressão é tratável.³ É nesse contexto que os cuidados paliativos se destacam como um modelo de atenção essencialmente multidisciplinar.3 “É por isso que os cuidados paliativos são, em sua essência, um tipo de cuidado que envolve profissionais de diferentes áreas da saúde em que, além do médico principal, que no caso do câncer é o oncologista, o paciente e os familiares também devem ser acompanhados por médicos paliativistas, psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, assistentes sociais, enfermeiros navegadores e outras especialidades que garantem um cuidado holístico que abrange todos os aspectos físicos, psicoemocionais, sociais e espirituais.”
No Brasil, estima-se que cerca de 625 mil pessoas precisam de cuidados paliativos e podem ser atendidos integralmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS)4.
No sistema público, os cuidados paliativos devem ser oferecidos em todos os pontos da Rede de Atenção à Saúde sempre que houver indicação. Todos os pacientes têm direito a esse cuidado, que inclui atendimento multiprofissional, controle da dor e dos sintomas, suporte psicológico e acompanhamento integrado, muitas vezes realizado no próprio domicílio¹.
Para organizar essa assistência, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos, com a previsão de implantação de aproximadamente 1,3 mil equipes multidisciplinares em todo o país⁴.
Para ter acesso aos cuidados paliativos pelo SUS, a principal porta de entrada é pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Após a avaliação da equipe de saúde, o paciente pode ser encaminhado para outros serviços, conforme a complexidade do quadro e as necessidades identificadas¹.
A atenção primária desempenha papel fundamental nos cuidados paliativos precoces, oferecendo identificação de necessidades, alívio inicial de sintomas, orientação e suporte psicológico, além dos encaminhamentos necessários¹.
O paciente também pode ser direcionado para ambulatórios especializados, que permitem o controle contínuo dos sintomas e o suporte ao paciente e à família sem necessidade de internação frequente¹.
Hospitais gerais e centros de referência são responsáveis pelos casos que exigem um manejo mais complexo, além de organizar a transição do cuidado para outros níveis de atenção, como o atendimento domiciliar, garantindo continuidade do tratamento e acolhimento humanizado¹.
Outro ponto importante dos cuidados paliativos é que ele vai além do paciente como indivíduo. Com a progressão da doença, muitos pacientes passam a depender de ajuda para atividades básicas do dia a dia, o que torna a presença de um cuidador principal fundamental³. Muitas vezes, esse papel é assumido por um familiar próximo, como cônjuge, filhos ou irmãos, que passa a organizar a rotina de cuidados e a acompanhar o paciente de forma contínua.3 “São os chamados de cuidadores informais, que não têm treinamento nem remuneração pelo trabalho essencial que realizam”, esclarece o Dr. Rodrigo.
O médico também contextualiza que esses cuidadores são responsáveis por tarefas complexas, como manejo de sintomas, administração de medicamentos, cuidados com higiene, alimentação e acompanhamento em consultas e exames³. “Trata-se de um cuidado exigente, que demanda disponibilidade física e emocional constante e pode gerar cansaço e desgaste ao longo do tempo.”
Além disso, segundo o oncologista, o cuidado costuma recair principalmente sobre mulheres da família, o que exige atenção às vulnerabilidades envolvidas nesse processo.3 “Muitas cuidadoras se dedicam exclusivamente ao cuidado, sem remuneração, abrindo mão do trabalho, do lazer e do descanso, o que pode comprometer sua própria saúde física e mental”, ressalta o especialista.
Além da sobrecarga prática, o cuidador também vivencia o chamado luto antecipatório, marcado pelas perdas progressivas, pelo medo do futuro e por sentimentos ambíguos, como tristeza, angústia, culpa e, em alguns momentos, esperança³. Por isso, o cuidado paliativo também envolve olhar para quem cuida.3
No enfrentamento do câncer, diz o Dr. Rodrigo, os cuidados paliativos são uma forma de garantir dignidade, conforto e acolhimento ao paciente e à família ao longo de toda a doença.
Segundo o especialista, é importante desmistificar os cuidados paliativos, retirando o estigma de que a abordagem significa ausência de cuidado, abandono do tratamento ou que “não há mais nada para ser feito”.3 “Humanizar o fim de vida é reconhecer que sempre há o que fazer pelo bem-estar do paciente e de sua família. Cuidar é aliviar a dor, acolher o sofrimento e oferecer suporte em todos os aspectos”, afirma.
Garantidos no SUS, os cuidados paliativos são um direito e representam um compromisso com uma assistência mais humana, integral e respeitosa4.
Conteúdo elaborado em janeiro de 2026
Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor
1. Brasil. Ministério da Saúde. Atenção Especializada à Saúde. Cuidados Paliativos [internet]. [Acesso em 14 dez. 2025]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/cuidados-paliativos
2. American Cancer Society. What Is Hospice Care? [internet]. 2024. [Acesso em 14 dez. 2025]. Disponível em: https://www.cancer.org/cancer/end-of-life-care/hospice-care/what-is-hospice-care.html
3. Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Cuidados Paliativos – 2ª Edição [internet]. 2023. [Acesso em 14 dez. 2025]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2023/manual-de-cuidados-paliativos-2a-edicao/view
4. Brasil. Ministério da Saúde. Valorização da Vida – Ministério da Saúde lança política inédita no SUS para cuidados paliativos [internet]. 2024. [Acesso em: 14 dez. 2025]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2024/maio/ministerio-da-saude-lanca-politica-inedita-no-sus-para-cuidados-paliativos
Os primeiros passos para atravessar o tratamento do câncer hematológico são conhecer seu corpo e...
Veja como ocorre o abandono no câncer e descubra quais são as consequências disso para...
Infelizmente, muitas pessoas são deixadas por seus parceiros, parceiras ou familiares após o diagnóstico. Leia...
O câncer de próstata é o segundo tipo de câncer mais comum entre homens brasileiros,...
O vídeo aborda a jornada do paciente com câncer de próstata, concentrando-se no processo de...
O diagnóstico precoce do câncer de mama é decisivo para salvar vidas, e o movimento...