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Publicado em: 10 de novembro de 2025
Assuntos abordados
Quando o assunto é ataque cardíaco, a primeira imagem que pode vir à mente é de uma dor intensa e súbita no peito. Esse imaginário, no entanto, pode estar bem distante de como um infarto do miocárdio pode se manifestar em mulheres1. “As manifestações de um ataque cardíaco em mulheres podem ser sutis, às vezes confundidas com ansiedade, má digestão ou até cansaço acumulado” explica o cardiologista Dr. Jairo Lins Borges (CRM 46977 SP).
As mulheres não só apresentam sintomas menos clássicos como também enfrentam desafios adicionais no diagnóstico e tratamento. Historicamente, a prevenção e o manejo das doenças cardiovasculares foram baseados em estudos realizados majoritariamente com homens. A falta de diretrizes específicas para o sexo feminino pode prejudicar o atendimento e retardar o início de terapias eficazes.¹
Esse cenário faz com que, ainda que mulheres tenham menor chance geral de ter um infarto, elas têm maior risco de morrer por conta dele².
Doenças cardiovasculares, principalmente o infarto, continuam sendo a principal causa de morte tanto em homens quanto em mulheres no país. Por ano, são registrados de 300 a 400 mil casos de infarto, sendo que de 5 a 7 casos, ocorre um óbito³.
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Antes da menopausa, as mulheres costumam ter um risco cardiovascular menor, em partes graças à ação protetora do estrogênio¹. “O estrogênio tem função vasodilatadora que ajuda a evitar o acúmulo do colesterol ruim (LDL) e favorece o colesterol bom (HDL). Mas, na menopausa, ocorre uma queda progressiva desse hormônio e, com ela, a perda desse efeito protetor”, explica o Dr. Borges.
Após a menopausa, essa mudança hormonal faz com que o risco de ataque cardíaco em mulheres aumente de forma acelerada e se aproxime do risco masculino².
Outra condição que afeta o risco de infarto em mulheres é o diabetes. O diabetes tipo 2 causa danos às artérias pela glicose alta e a resistência à insulina, favorecendo o acúmulo de placas de gordura. Para mulheres diabéticas, o risco de ataque cardíaco se iguala ou se torna maior que o dos homens².
Os sintomas de um ataque cardíaco podem variar conforme a idade e a presença de condições pré-existentes. Em idosos, o sinal mais comum nem sempre é a dor no peito, mas sim a falta de ar, que pode surgir de forma súbita, mesmo em repouso³.
Em alguns casos, a dor pode se manifestar no abdômen, lembrando crises de gastrite ou refluxo, embora essa forma seja menos frequente³. “Por isso, é essencial prestar atenção a um mal-estar súbito”, alerta o cardiologista.
No geral, um ataque cardíaco pode ser identificado pelos seguintes sintomas:³-4
Em mulheres, diferenças anatômicas e fisiológicas, por vezes, levam o coração a reagir a um infarto com menos sintomas. Estudos mostram que as mulheres têm artérias de menor calibre e placas de gordura diferentes das dos homens, com menos cristais de colesterol e menos depósitos de cálcio. Essas diferenças podem significar obstruções graves, mesmo que as placas não cheguem a bloquear completamente os vasos, o que dificulta a identificação do risco de doenças cardiovasculares.5
Outro ponto importante é que as mulheres são mais propensas a desenvolver uma condição chamada isquemia sem obstrução coronária (INOCA). Ela ocorre quando as artérias não estão completamente entupidas, mas o sangue não flui em quantidade suficiente para atender às demandas do coração. “É como se o coração funcionasse com um chuveiro de baixa pressão: o fluxo está lá, mas não é suficiente”, ilustra o Dr. Borges. Essa forma de isquemia é cada vez mais reconhecida como uma causa significativa de infarto e insuficiência cardíaca em mulheres.5-6-7
Essas diferenças também são parte da explicação do porquê sinais de ataque cardíaco em mulheres tendem a ser mais atípicos e, por isso, muitas vezes passam despercebidos. Enquanto os sintomas clássicos, como dor ou pressão no peito, também podem ocorrer, elas são mais propensas a sentir náusea, tontura, dor nas costas, dor na mandíbula, falta de ar e fadiga extrema.4
Pesquisas indicam que algumas mulheres relatam sintomas semelhantes a indigestão ou crise de ansiedade, e isso pode atrasar a busca por atendimento⁸. “Muitas mulheres subestimam a gravidade do que estão sentindo. Outras acreditam que a dor no peito pode estar mais ligada ao emocional do que a algum problema cardiovascular. Essa percepção equivocada pode atrasar o diagnóstico e agravar o quadro clínico”, diz o cardiologista.
Segundo uma pesquisa de cientistas da Universidade de Yale (Estados Unidos), o principal sintoma de ataque cardíaco em mulheres continua sendo a dor ou pressão no peito, relatada por 87% das mulheres e 89,5% dos homens4.
No entanto, os estudos mostram que elas tendem a apresentar sinais adicionais com mais frequência. Em 61,9% dos casos, as mulheres tiveram três ou mais sintomas associados, como dor na mandíbula, pescoço, costas, braços, palpitações ou desconforto abdominal, enquanto isso ocorreu em 54,8% dos homens4.
Além disso, as mulheres com infarto do tipo com elevação do segmento ST (STEMI) — um ataque cardíaco grave causado pelo bloqueio completo de uma artéria coronária — têm 51% mais chance de apresentar um quadro sem dor no peito em comparação aos homens4.
Entre os sintomas de infarto em mulheres, é importante ficar atenta a:4
Outro ponto importante é a interpretação dos sintomas. Enquanto 20,9% das mulheres acreditaram que os sinais estavam ligados a estresse ou ansiedade, apenas 11,8% dos homens tiveram essa percepção. Já atribuir a dor a uma causa muscular foi mais comum entre os homens (21,2%) do que entre as mulheres (15,4%).4
Essa percepção permeia até equipes médicas. Segundo o estudo, quando procuraram atendimento, 29,5% das mulheres já haviam relatado sintomas semelhantes antes da internação, uma proporção maior que a dos homens (22,1%). Apesar disso, mais da metade das mulheres (53%) disseram que o profissional de saúde não considerou os sintomas como cardíacos, em comparação a 37% dos homens.4
Homens e mulheres compartilham fatores de risco para doenças cardíacas, mas estudos recentes revelam algo que antes passava despercebido: as mulheres também têm fatores de risco próprios e condições que as afetam de forma diferente.9
Segundo o Dr. Jairo, os fatores tradicionais de risco, comuns a ambos os sexos, são: 9
Já os fatores específicos ou mais frequentes em mulheres incluem: 9
Além disso, o médico afirma que mulheres tendem a ter baixa percepção de risco, o que, por si só, é um fator de risco. “O desconhecimento sobre essas condições e sintomas faz com que mulheres se preocupem menos com a própria saúde coronária.”
Segundo o Dr. Jairo, o primeiro passo para reduzir o risco cardiovascular é reconhecer os fatores e sintomas específicos das mulheres. O segundo é adotar hábitos diários que ajudem a controlar os fatores modificáveis9.
Entre as principais recomendações estão:
Por fim, o Dr. Jairo reforça a importância de ouvir o próprio corpo e não hesitar em buscar ajuda médica. “Se você não está se sentindo bem, especialmente se tiver sintomas como falta de ar, náusea persistente, dor abdominal ou qualquer desconforto incomum, converse com o seu médico. Não ignore os sinais.”
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