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Remédio não é bala! Conheça o uso racional de medicamentos e os riscos da automedicação

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Quando bate aquela dor de cabeça, você recorre ao primeiro remédio que encontra, mesmo que este não tenha sido prescrito pelo seu médico? 

Adotar o uso racional de medicamentos é imprescindível para evitar riscos à sua saúde.1 Isso porque o consumo indiscriminado de medicamentos de venda livre pode trazer efeitos indesejados.1

O ato, aparentemente inocente, de sempre tomar um remédio para aliviar a dor de cabeça pode, na verdade, acarretar problemas como irritação gástrica e úlceras, dependência ou até mesmo danos ao fígado.1 

Quer evitar essas consequências para o seu organismo? Neste post, vamos abordar tudo o que você precisa saber sobre os riscos da automedicação. Confira!

O que é cronificação da enxaqueca e como ocorre?

A enxaqueca crônica é um tipo de dor de cabeça muito intensa, caracterizada por 15 ou mais dias de dor de cabeça por mês, sendo que pelo menos 8 desses dias têm características típicas da condição, por pelo menos 3 meses seguidos.2 Esse processo, que faz o incômodo deixar de ser esporádico para se tornar crônico, é conhecido como ‘’transformação’’ ou ‘’cronificação’’ da enxaqueca.2

Muitos estudos tentam entender os fatores que levam a essa mudança, analisando desde aspectos genéticos até como o cérebro e o sistema nervoso reagem.2 Pode-se dizer que a enxaqueca crônica é vista como uma condição do cérebro que envolve alterações biológicas importantes.2

A cronificação da enxaqueca acontece quando as dores se tornam cada vez mais frequentes, até que a pessoa manifesta esse quadro quase que constantemente, o que afeta muito a sua qualidade de vida.2

Isso acarreta dores de cabeça intensas e frequentes, levando ao maior uso de remédios, mais visitas ao médico e uma redução considerável da capacidade de viver normalmente, trazendo implicações para as atividades diárias, como trabalho e convivência familiar.2

Quais são os riscos associados ao uso excessivo de analgésicos e anti-inflamatórios?

A maioria das pessoas não pensa nos riscos ocultos dos medicamentos de venda livre, como analgésicos e anti-inflamatórios, que tomam para combater uma dor de cabeça ou mal-estar.1

O problema é que, quando usados de forma indiscriminada, esses remédios podem ter efeitos colaterais relevantes.1.2

O ácido acetilsalicílico (AAS) pode causar irritação no estômago e úlceras.1 Já o acetaminofeno, embora amplamente utilizado, está associado a danos no fígado, o que pode representar um grande risco à saúde se não for usado com cautela.1

O consumo inadequado dessas medicações — sejam analgésicos simples ou combinações de remédios  — também pode levar a uma situação bastante difícil: a dependência.1

O corpo começa a se acostumar com os efeitos da substância e, quando os níveis no sangue caem entre uma dose e outra, surgem sintomas de abstinência, como dor de cabeça e mal-estar.1

A dor de cabeça, muitas vezes confundida com uma enxaqueca, é chamada de dor de cabeça de rebote.1,2 Isso acontece porque o organismo se adapta ao remédio, e o incômodo só passa temporariamente quando uma nova dose é tomada.1

Esse ciclo pode se repetir, criando um círculo vicioso: o paciente, ao sentir os sintomas da dor de cabeça de rebote, pensa que está tendo uma nova crise de enxaqueca e recorre ao medicamento novamente.1

Com isso, os níveis da substância no corpo se restabelecem, aliviando o desconforto por um tempo, mas com o passar dos dias, doses cada vez maiores podem ser necessárias para alcançar o mesmo efeito.1

A longo prazo, isso aumenta o risco de dependência e dificulta cada vez mais o controle da dor de cabeça.1,3

Quais são os mecanismos que levam ao agravamento da enxaqueca pelo uso inadequado de medicamentos?

A automedicação para enxaqueca pode ser um dos gatilhos para a cronificação, tornando episódios ocasionais de dor em uma condição persistente e difícil de controlar, agravando ainda mais a qualidade de vida do indivíduo.3

O desenvolvimento de dor de cabeça causada pelo consumo exagerado de remédios é mais comum do que parece e está ligada ao uso frequente de medicamentos sintomáticos, especialmente por quem sofre de enxaqueca ou cefaleia tensional.3

Quando uma pessoa usa analgésicos desregradamente, como 10 a 15 dias por mês, isso pode provocar a dor de cabeça de rebote, causada pelo próprio medicamento, levando-a a consumir mais remédios.2

O ciclo de alívio imediato seguido do agravamento da dor pode estar relacionado a mecanismos parecidos com os da dependência de drogas, envolvendo impulsividade cognitiva e a disfunção em áreas do cérebro ligadas à busca por recompensa.3

Ao reduzir o consumo de analgésicos, muitos pacientes experimentam uma queda na frequência das dores, e consequentemente, menos limitações no dia a dia.2

Se as crises de enxaqueca não são tratadas de forma eficaz, isso pode sensibilizar o cérebro, tornando as dores mais frequentes e intensas.2 A falta de um bom tratamento imediato pode contribuir para a cronificação da enxaqueca, e as medicações simples, como analgésicos e anti-inflamatórios não esteroides, nem sempre solucionam o problema.2

Inclusive, é importante ressaltar que esses medicamentos não são específicos para enxaqueca. Há remédios desenvolvidos pela área farmacêutica exclusivamente para o tratamento desse problema, como as triptanas.3 Todavia, eles devem ser tomados a partir de orientação médica, tendo em vista que o seu uso excessivo também pode trazer efeitos adversos.3

O papel da farmacovigilância na segurança do uso de medicamentos

Remédio não é bala! Conheça o uso racional de medicamentos e os riscos da automedicação

Criada em 1968 pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a partir do Projeto de Pesquisa Piloto, que posteriormente se tornou permanente, a farmacovigilância monitora a segurança dos medicamentos após sua aprovação e uso.4 Ela trabalha para detectar, avaliar, entender e prevenir eventuais efeitos adversos ou demais problemas que possam ser gerados por medicamentos.4

A farmacovigilância tem se expandido bastante nos últimos anos.4 Hoje, sua atuação vai muito além dos medicamentos convencionais.4 Isso porque, engloba a monitorização de fitoterápicos, medicações tradicionais e complementares, hemoterápicos e até mesmo vacinas.4

Além de garantir que esses produtos sejam seguros, essa área científica cuida de questões como medicamentos de baixa qualidade, erros de medicação e casos de intoxicação, tanto aguda quanto crônica.4

Ela também se preocupa com o uso inadequado de remédios para finalidades não aprovados, as interações perigosas com outros fármacos ou alimentos, e a avaliação de mortes relacionadas a medicamentos.4

Objetivos da farmacovigilância

No que se refere ao consumo inapropriado de remédios, a farmacovigilância tem como objetivo melhorar a saúde pública, monitorando os efeitos dessas substâncias, além de promover seu uso de forma mais segura e eficaz.4

Um dos seus principais focos é avaliar constantemente os benefícios e riscos dos medicamentos, para que sejam usados de maneira racional e com o melhor custo-benefício possível.4

Outro ponto relevante é a educação, pois ela ajuda a capacitar profissionais de saúde e informar o público geral sobre como utilizar os fármacos em segurança, evitando problemas futuros.4 Esse é o caso da intensificação das dores de cabeça devido ao consumo exagerado de analgésicos.2,3

Importância de identificar os desencadeantes da enxaqueca

Você já parou para pensar no que faz você sentir dor de cabeça? A enxaqueca pode ser desencadeada por diversas situações, como preocupações excessivas, estresse, ansiedade e estado de tensão.5

Ficar muito tempo sem se alimentar também pode ser prejudicial para o seu corpo, uma vez que esse comportamento pode ocasionar a redução da taxa de açúcar no sangue, aumentando a produção de substâncias que provocam dor.5

O incômodo costuma se apresentar após uma noite mal dormida? O sono de qualidade é fundamental para o controle das enxaquecas.5 Dormir muito ou pouco pode contribuir para a dor de cabeça.5

Sabe aquelas xícaras de café que você vai tomando ao longo do dia? O excesso de cafeína também pode influenciar negativamente nessa condição.5 Assim como a falta de exercícios físicos, que pode fazer com que o organismo produza menos neurotransmissores que promovem a resistência a dor, como a serotonina e melatonina.5

Muitas pessoas que sofrem de enxaqueca não procuram ajuda médica.6 Todavia, o diagnóstico e a investigação da origem dessa doença é fundamental para gerenciá-la de maneira adequada.6 O tratamento apropriado é essencial para a melhora da sua qualidade de vida, já que a dor de cabeça pode ter um grande impacto no seu dia a dia.6

Vale ressaltar que os analgésicos não tratam a enxaqueca, tendo em vista que só diminuem a intensidade da dor e duração das crises.5 

“Portanto, o uso indiscriminado dessas substâncias pode piorar o seu quadro, enquanto que um tratamento baseado nos desencadeantes do problema, no uso de medicações específicas para a enxaqueca e o tratamento preventivo quando indicado, pode ser mais eficaz.5

Recomendações para um tratamento adequado e racional da enxaqueca

Quando falamos em tratar a enxaqueca, não existe uma fórmula mágica que funcione para todo mundo.6 Esse processo envolve observar a frequência e a intensidade das crises, além de considerar como você responde a diferentes tipos de tratamento.6

Para tanto, é recomendado consultar-se com um médico e estabelecer um diálogo aberto para encontrar as melhores soluções e analisar a necessidade do uso de medicamentos.6 Uma dica valiosa é identificar fatores que podem desencadear as crises, como a ingestão de certos alimentos, hábitos como o tabagismo, barulhos, alterações no sono ou o consumo de remédios como analgésicos e contraceptivos hormonais.5,6

Mudança de hábitos

Quanto mais graves forem os episódios de dor de cabeça, mais importante se torna repensar os hábitos diários e buscar um estilo de vida que ajude a preveni-los.6

Pequenos ajustes no cotidiano podem fazer uma enorme diferença no controle da enxaqueca.6 A prática de atividades que aliviam a tensão, como yoga e técnicas de relaxamento muscular, por exemplo, pode reduzir a frequência e intensidade das crises.6

O uso racional de medicamentos é imprescindível para evitar os seus efeitos adversos, como irritação no estômago, úlceras e danos ao fígado.1 Em se tratando especificamente dos analgésicos, que muita gente toma para combater a dor de cabeça, a sua utilização frequente pode colaborar para a piora da condição.3

Se esse incômodo é recorrente no seu dia a dia, o ideal consultar-se com um médico especialista para entender quais são as suas causas e a melhor forma de tratá-lo.6

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Referências:

1. Robinson RG. Pain relief for headaches. Is self-medication a problem? Can Fam Physician.1993;39:867-8, 871-2.

2. Torres-Ferrús M, Ursitti F, Alpuente A, Brunello F, Chiappino D, de Vries T, et al; School of Advanced Studies of European Headache Federation (EHF-SAS). From transformation to chronification of migraine: pathophysiological and clinical aspects. J Headache Pain. 2020;21(1):42.

3. Calabresi P, Cupini LM. Medication-overuse headache: similarities with drug addiction. Trends Pharmacol Sci. 2005;26(2):62-8.

4. Organização Mundial da Saúde. Departamento de Medicamentos Essenciais e Outros Medicamentos. A importância da Farmacovigilância/ Organização Mundial da Saúde – Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2005.

5. Ministério da Saúde. Enxaqueca. 2014 [Internet]. [Acesso em Jan 2025]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/enxaqueca/#:~:text=Atualmente%20j%C3%A1%20se%20sabe%20que,%E2%80%93%20ficar%20sem%20come

6. Pinto MEB, Wagner HL, Klafke A, Ramos A, Stein AT, Castro Filho ED, et al. Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. Cefaleias em adultos na Atenção Primária à saúde: diagnóstico e tratamento. 2009 [Internet]. [Acesso em Jan 2025]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/enxaqueca/#:~:text=Atualmente%20j%C3%A1%20se%20sabe%20que,%E2%80%93%20ficar%20sem%20come

Artigo elaborado em 09 de dezembro de 2024.