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Você provavelmente já ouviu falar que existe uma relação entre anticoncepcionais e trombose. Até que ponto isso é verdade?

O risco de tromboembolismo venoso (TEV) com o uso de contraceptivos orais hormonais combinados, apesar de ser um pouco maior comparando-se as mulheres que não utilizam métodos hormonais, ainda assim possui uma baixíssima incidência e é considerado raro.

Atualmente, sabe-se que as chances de desenvolvimento da doença podem variar de acordo com a dose, tipo, forma como o hormônio é administrado e o seu tempo de uso.Também é importante ter conhecimento de que outros fatores como, gravidez, puerpério e histórico familiar, apresentam um risco maior de desenvolvimento de TEV do que o uso de AHCs. 

Quer saber mais sobre esse assunto? Neste post, vamos abordar os principais pontos sobre pílulas anticoncepcionais e trombose. Confira!

O que é trombose e como ela pode estar relacionada às pílulas anticoncepcionais?

O tromboembolismo venoso acontece quando um coágulo de sangue se forma em uma veia profunda, geralmente nas pernas.3 Apesar de ser uma condição rara, ela pode ser grave e, em alguns casos, fatal.3

Isso ocorre porque o coágulo pode se desprender e chegar até os pulmões, causando uma embolia pulmonar.3 No entanto, a maioria dos casos não leva à morte.3 Fatores como problemas de coagulação e danos nos vasos sanguíneos aumentam o risco de TEV.3

A gravidez e o pós-parto são períodos em que esse risco cresce significativamente.3 Para se ter uma ideia, enquanto mulheres que não estão grávidas apresentam de 1 a 5 casos de TEV a cada 10.000 por ano, durante a gestação esse número sobe para 5 a 20 casos a cada 10.000 e, no pós-parto, pode chegar a 40 a 65 casos a cada 10.000.3

O uso de AHCs, como a pílula, também pode estar relacionado ao surgimento de trombose venosa.3 Em mulheres que usam esse tipo de contraceptivo, o risco é de 3 a 15 casos a cada 10.000 por ano, um número maior comparado com a população feminina que não usa, mas ainda bem menor do que o risco de trombose que existe, por exemplo, no período da gravidez ou no pós-parto.3

Como os hormônios dos anticoncepcionais podem induzir a trombose?

O estrogênio presente em AHCs pode estar relacionado a mudanças no corpo que aumentam a possibilidade de formação de coágulos no sangue.2 Isso porque o metabolismo do estrogênio no fígado eleva a produção de fatores de coagulação.2

O risco de TEV podem variar dependendo do tipo e dose de estrogênio e tipo de progestagênio, além de fatores como idade da pessoa, histórico familiar e presença de outras condições que aumentam as chances de coágulos.2

Também é importante ressaltar que, além de ser um acontecimento raro, a trombose venosa tem mais chances de ocorrer nos 12 primeiros meses de uso de anticoncepcionais orais combinados, especialmente nos 3 meses iniciais.2 Isso porque a paciente está exposta a um novo fator de risco, que pode ser potencializado se outros fatores também estiverem presentes.2

Os anticoncepcionais mais modernos apresentam um menor risco de trombose?

As pílulas mais antigas apresentavam maior risco de trombose devido às doses mais elevadas de estrogênio. Vale mencionar, que o tipo de progestagênio presente no contraceptivo oral também pode influenciar no risco de TEV.

“Ultimamente, surgiram as pílulas anticoncepcionais contendo estrogênios idênticos aos naturais, como o estradiol e o estetrol, cujos estudos sugerem menor risco de TEV em comparação às pílulas contendo o estrogênio sintético (etinilestradiol)”, explica o Dr. Achilles Cruz, médico ginecologista e consultor da Libbs.

Quais são os fatores de risco individuais para trombose?

Evidências científicas apontam que o risco de TEV pode aumentar proporcionalmente conforme o número de fatores predisponentes.6 Assim, questões como idade e genética podem contribuir para essa condição.6

Acompanhe, a seguir, quais são os fatores de risco individuais para a trombose.

Episódio prévio de TEV

Se a mulher teve um quadro prévio de trombose venosa profunda ou embolia pulmonar, as chances de ter outro aumentam consideravelmente, especialmente em situações como grandes cirurgias, longos períodos de imobilidade ou doenças graves.6

Estima-se que as pessoas com histórico de trombose podem ser até 8 vezes mais suscetíveis a um novo episódio da doença. 6

Idade

O avanço da idade também pode favorecer a aparição de um quadro de TEV.6 Esse risco pode ser maior para quem tem mais de 40 anos, sendo que praticamente dobra a cada década de vida.6

Em pessoas mais jovens, a trombose é rara.6 Quando acontece, pode estar ligada a circunstâncias específicas, como traumas graves, fraturas na perna ou uso de cateteres venosos centrais.6

Veias varicosas

Ainda existem debates sobre o grau de influência das varizes na TEV.6 No entanto, estudos mostram que elas têm um impacto pequeno nesse quadro.6

Genética

Mulheres com condições genéticas que afetam a coagulação do sangue, como a mutação do fator V de Leiden, a mutação da protrombina G20210A ou deficiências nas proteínas C, S e antitrombina, estão mais propensas a desenvolver TEV.3

Fumo

O hábito de fumar, especialmente mais de 15 cigarros por dia, pode favorecer a TEV.3 Esse risco aumenta para as mulheres acima de 35 anos, tendo em vista que a idade também é um fator relevante para o surgimento da doença.3

Obesidade

A relação entre obesidade e trombose também é importante.3 Estudos indicam que o uso de anticoncepcionais orais pode agravar o impacto da obesidade no risco de TEV, elevando em até 10 vezes a probabilidade de surgimento da doença em usuárias obesas que utilizam esses contraceptivos, quando comparado com aquelas que não os utilizam.3

Como é feito o tratamento da trombose durante o uso de anticoncepcionais hormonais?

Diante do diagnóstico de trombose, o médico pode encaminhar a paciente para o tratamento com a prescrição de um anticoagulante.7

Após a terapêutica com anticoagulantes, que dura em média 3 meses, o risco de trombose geralmente é baixo, sendo possível interromper o medicamento.7 Contudo, se houver outras condições, como câncer ou doenças intestinais inflamatórias, pode ser necessário ajustar o tempo de tratamento anticoagulante.7

Em se tratando das mulheres em idade fértil ou grávidas que precisam de anticoagulantes, são considerados os efeitos da terapia no bebê.7

Por que é importante conversar com um médico antes de iniciar o uso de pílulas anticoncepcionais?

“O acompanhamento médico é crucial para que a escolha da pílula anticoncepcional seja feita de forma individualizada. É preciso avaliar com cuidado a necessidade do contraceptivo oral, explorar outras opções, compreender as preferências da paciente e levar em conta os fatores de risco de trombose”, esclarece o Dr. Achilles.

As mulheres jovens e saudáveis apresentam poucas chances de sofrer complicações trombóticas.8 Já o público feminino com idade mais avançada (acima dos 40 anos) ou com condições de risco para a doença, como obesidade, internação hospitalar e câncer, deve estar ciente de que, ao usar contraceptivos orais, haverá maior propensão à formação de coágulos.8

Dessa forma, os principais cuidados são encontrar alternativas mais adequadas para as mulheres mais suscetíveis à trombose e evitar a administração desses medicamentos em casos de contraindicações.8

Os anticoncepcionais hormonais orais combinados, conhecidos como pílulas anticoncepcionais são os métodos contraceptivos mais utilizados pelas mulheres. Os métodos combinados não orais, como o anel vaginal, adesivo transdérmico e os injetáveis mensais também podem contribuir para o aumento do risco de trombose. 3

Enquanto anticoncepcionais mais antigos representam um risco mais acentuado de TEV, as pílulas modernas podem ser consideradas mais seguras devido à redução da dose de estrogênio sintético, ou mesmo a substituição deste por um estrogênio natural.4,5

Como vimos, existe uma relação entre pílulas anticoncepcionais e trombose, mas ela depende de um conjunto de fatores. Por isso, a orientação médica é indispensável para a escolha do contraceptivo mais alinhado às necessidades de cada mulher.

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Artigo elaborado em: 85 mar. 2025.

* Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor.

** As opiniões emitidas pelo(a) especialista são independentes e, necessariamente, não refletem a opinião da Libbs.

Referências

1. Dragoman MV, Tepper NK, Fu R, Curtis KM, Chou R, Gaffield ME. A systematic review and meta-analysis of venous thrombosis risk among users of combined oral contraception. Int J Gynaecol Obstet. 2018 Jun;141(3):287-294. Disponível em: https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/ijgo.12455. Acesso em: 28 mar. 2025.

2. Trenor CC 3rd, Chung RJ, Michelson AD, Neufeld EJ, Gordon CM, Laufer MR, Emans SJ. Hormonal Contraception and Thrombotic Risk: a Multidisciplinary Approach. Pediatrics. 2011 Feb;127(2):347-57.Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3025417/. Acesso em: 28 mar. 2025.

3. American Society for Reproductive Medicine. Combined hormonal contraception and the risk of venous thromboembolism: a guideline. [Internet]. Disponível em: https://www.asrm.org/practice-guidance/practice-committee-documents/combined-hormonal-contraception-and-the-risk-of-venous-thromboembolism-a-guideline-2016/. Acesso em: 28 mar. 2025.

4. Baratloo A, Safari S, Rouhipour A, Hashemi B, Rahmati F, Motamedi M, Forouzanfar M, Haroutunian P. The Risk of Venous Thromboembolism with Different Generation of Oral Contraceptives; a Systematic Review and Meta-Analysis. Emerg (Tehran). 2014 Winter;2(1):1-11. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26495334/. Acesso em: 28 mar. 2025.

5. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Contraceptivos orais – como orientar a escolha desse método e aumentar a adesão ao uso.2021 [Internet]. Disponível em:https://www.febrasgo.org.br/media/k2/attachments/FeminaZ2021Z49Z08ZWeb.pdf. Acesso em: 28 mar. 2025.

6. Anderson FA Jr, Spencer FA. Risk factors for venous thromboembolism. Lippincott Williams & Wilkins. 2003 Jun 17; I-9–I-16. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12814980/. Acesso em: 28 mar. 2025.

7. LaVasseur C, Neukam S, Kartika T, Samuelson Bannow B, Shatzel J, DeLoughery TG. Hormonal therapies and venous thrombosis: considerations for prevention and management. Res Pract Thromb Haemost. 2022;6(6):e12763. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36032216/. Acesso em: 28 mar. 2025.

8. Solymoss S. Risk of venous thromboembolism with oral contraceptives. CMAJ. 2011 Dec 13;183(18):E1278-9. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3255133/. Acesso em: 28 mar. 2025.