Scroll

A saúde masculina ainda é cercada de tabus. Muitos homens tendem a buscar atenção médica só quando já apresentam sintomas avançados, o que aumenta o risco de complicações e limita o sucesso de tratamentos.¹

Um levantamento do Centro de Referência em Saúde do Homem de São Paulo mostra que 70% dos homens que procuram consultórios médicos o fazem influenciados por esposas, mães ou filhos. Mais da metade desses pacientes já chegam com doenças em estágio avançado.¹

Segundo o Ministério da Saúde, homens brasileiros vivem, em média, sete anos a menos que as mulheres. Esse cenário é explicado por múltiplos fatores, incluindo biologia, estilo de vida, exposição precoce a riscos e resistência cultural aos cuidados preventivos.¹

Por isso, a campanha Novembro Azul, tradicionalmente focada na conscientização sobre o câncer de próstata, expandiu seu escopo.¹

“O movimento é uma oportunidade para conversar com a população masculina sobre a importância do cuidado integral da saúde – seja a saúde do corpo, seja a da mente”, explica o médico oncologista Dr. Rodrigo Coutinho Mariano (CRM 148.246).

Homens também precisam de autocuidado

Na comparação com as mulheres, homens têm menor expectativa de vida, sendo que fatores biológicos explicam apenas parte dessa diferença². Uma das teorias para essa disparidade é que eles se expõem a mais riscos desde jovens, enquanto outra aponta para a resistência masculina em procurar cuidados médicos¹.

Homens são menos propensos que mulheres a realizar exames preventivos, buscar atendimento médico de forma precoce ou se vacinar. Essa resistência, em parte, é cultural: muitos acreditam que reconhecer dor ou pedir ajuda é sinal de fraqueza, o que poderia “tirar sua masculinidade”. O resultado é que os homens mas muitas vezes omitem ou minimizam sintomas durante a consulta.²

O impacto desse comportamento é evidente: muitos homens subestimam sinais de alerta do corpo e acabam com doenças avançadas antes de buscar ajuda. Por isso, entender a importância do autocuidado é o primeiro passo para uma vida mais saudável¹.

Autocuidado masculino é ir ao médico

Enquanto as mulheres mantêm acompanhamento de saúde desde a infância com exames preventivos periódicos, os homens geralmente perdem esse seguimento após a infância¹. “O distanciamento de uma rotina de cuidados com a saúde contribui para diagnósticos tardios e piora do prognóstico”, afirma o Dr. Rodrigo.

Haja vista esse contexto, a campanha do Novembro Azul, originalmente sobre o câncer de próstata, passou a abordar de forma mais ampla outras doenças que acometem homens, como diabetes mellitus e doenças cardiovasculares. Isso reforça que cuidar da saúde não se limita a uma campanha anual, mas deve ser contínuo e integral.¹

Quais as doenças que mais afetam os homens?

Quando olhamos para os números referentes a doenças cardiovasculares, doenças do aparelho respiratório e câncer – três das maiores causas de morte no Brasil –, encontramos índices de mortalidade maiores na população masculina. Se homens e mulheres enfrentam a mesma condição de saúde, eles têm em geral uma expectativa de vida menor do que elas.³

Em 2016, a probabilidade de um homem de 30 anos morrer de uma doença não transmissível (como infarto, câncer de próstata, diabetes, AVC, entre outras) antes dos 70 anos era 44% maior que a das mulheres³. “Esses dados mostram que fatores de risco e prevenção devem ser abordados de forma específica para o público masculino”, diz Dr. Rodrigo.

Cuidar da saúde do coração é coisa de homem

As doenças cardiovasculares, como hipertensão, infarto e obstruções arteriais, lideram como principal causa de morte no Brasil e no mundo. O número de óbitos relacionados a essas condições tem aumentado de forma constante.³

O Ministério da Saúde aponta fatores modificáveis que aumentam o risco cardiovascular: tabagismo, colesterol elevado, hipertensão, obesidade, estresse, depressão e diabetes⁴. A prevenção, portanto, depende de hábitos de vida saudáveis, incluindo alimentação equilibrada, exercícios físicos e acompanhamento médico regular.3-4

Para reduzir as chances de desenvolver doenças do coração, recomenda-se:⁵

  • Monitorar a pressão arterial, mesmo que não haja sintomas;
  • Avaliar risco de diabetes e manter controle glicêmico;
  • Evitar ou cessar o tabagismo;
  • Acompanhar níveis de colesterol e triglicerídeos com orientação médica;
  • Manter dieta balanceada e prática regular de atividade física;
  • Controlar peso corporal e limitar consumo de álcool;
  • Buscar estratégias de gerenciamento do estresse.

“Essas medidas não apenas previnem doenças cardíacas, mas também fortalecem o corpo contra outras condições crônicas e até alguns tipos de câncer, como o de próstata”, ressalta o médico oncologista.

Diabetes: doença é mais comum em homens

O IDF Diabetes Atlas 2025 estima que cerca de 800 milhões de adultos vivem com diabetes no mundo⁶. No Brasil, estima-se que 16,6 milhões de adultos tenham a doença, posicionando o país como o 6º no ranking global de casos. A projeção indica que esse número chegará a 24 milhões até 2050⁶.

A prevalência do diabetes é similar entre adultos de ambos os sexos, com 10,9% para mulheres e 11,3% para homens. Globalmente, a IDF estima que há 9,8 milhões a mais de homens vivendo com a doença do que mulheres. Na América do Sul e Central (SACA), a prevalência de diabetes também tende a ser maior em homens em quase todas as faixas etárias, com a diferença mais notável nas faixas etárias mais jovens e mais velhas⁶.

Atenção para os principais sintomas do diabetes

Os sintomas incluem fome e sede excessiva, vontade de urinar diversas vezes ao dia, formigamento nos pés e mãos, infecções frequentes, feridas de difícil cicatrização e visão embaçada⁷.

A prevenção e o manejo da doença dependem, por exemplo, de:6

  • Alimentação saudável;
  • Exercícios físicos regulares;
  • Controle do peso;
  • Uso correto da medicação e acompanhamento educacional.

Novembro Azul: o câncer de próstata pode ser prevenido o ano inteiro

O câncer de próstata é uma das doenças mais comuns entre os homens, mas, quando detectado precocemente, oferece mais de 90% de chance de cura. Por isso, os especialistas reforçam que os cuidados com a saúde não devem se restringir à campanha Novembro Azul, mas sim fazer parte da rotina ao longo de toda a vida8.

O acompanhamento médico regular é essencial, principalmente porque a doença tem fatores de risco bem definidos: a idade é um dos principais, com maior incidência em homens acima dos 50 anos8.

A hereditariedade também exerce papel importante. Homens que têm parentes de primeiro grau com histórico de câncer de próstata têm duas vezes mais chance de desenvolver a doença; se dois parentes próximos tiveram o câncer, esse risco pode aumentar de duas para seis vezes em comparação a homens sem histórico familiar8.

O estilo de vida também influencia diretamente o risco. A obesidade e o consumo elevado de gordura animal aumentam a probabilidade de desenvolver a doença, além de estarem associados a outras condições cardiovasculares8.

Para o Dr. Mariano, a prevenção vai muito além de um exame anual ou de lembrar da campanha. “Manter um estilo de vida saudável e visitas regulares ao médico é algo que se pode fazer sempre e não só previne a doença, como fortalece o corpo contra outras enfermidades e, em caso de diagnóstico, aumenta as chances de detecção precoce, quando o tratamento tem maior eficácia.”

Apesar desses cuidados conhecidos, a cultura de que o homem não pode demonstrar vulnerabilidade ainda representa um obstáculo.2 “Por vergonha ou preconceito, muitos homens acabam negligenciando sua própria saúde, atrasando a detecção de doenças que poderiam ser prevenidas ou tratadas com sucesso”, complementa.

Conteúdo elaborado em outubro/2025

Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor.

Referências:

  1. O estigma social que envolve a saúde masculina [Internet]. Ministério da Saúde. Available from: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/eu-quero-me-exercitar/noticias/2022/o-estigma-social-que-envolve-a-saude-masculina Acesso em 19.10.2025
  2. Merschel M. Misguided masculinity keeps many men from visiting the doctor [Internet]. www.heart.org. 2021. Available from: https://www.heart.org/en/news/2021/06/15/misguided-masculinity-keeps-many-men-from-visiting-the-doctor ‌Acesso em 19.10.2025
  3. Vista do Perfil de mortalidade no Brasil, segundo sexo, faixa etária e região, período de 2010-2020 [Internet]. Revistacontribuciones.com. 2020 [cited 2025 Oct 20]. Available from: https://ojs.revistacontribuciones.com/ojs/index.php/clcs/article/view/16929/9815 Acesso em 19.10.2025
  4. Oliveira GMM de, Brant LCC, Polanczyk CA, Malta DC, Biolo A, Nascimento BR, et al. Estatística Cardiovascular – Brasil 2023. Estatística Cardiovascular – Brasil 2023 [Internet]. 2024 Feb 14;121(2). Available from: https://abccardiol.org/article/estatistica-cardiovascular-brasil-2023 Acesso em 19.10.2025
  5. CDC. About Men and Heart Disease [Internet]. Heart Disease. 2024. Available from: https://www.cdc.gov/heart-disease/about/men-and-heart-disease.html Acesso em 19.10.2025
  6. IDF Diabetes Atlas 2025 [Internet]. Diabetes Atlas. 2025. Available from: https://diabetesatlas.org/resources/idf-diabetes-atlas-2025 Acesso em 19.10.2025
  7. Ministério da Saúde. Diabetes (diabetes mellitus) [Internet]. Ministério da Saúde. 2024. Available from: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/diabetes Acesso em 19.10.2025
  8. Diagnóstico precoce do câncer de próstata possibilita 90% de chance de cura, afirma especialista da Rede Ebserh/MEC [Internet]. Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. Available from: https://www.gov.br/ebserh/pt-br/comunicacao/noticias/diagnostico-precoce-do-cancer-de-prostata-possibilita-90-de-chance-de-cura-afirma-especialista-da-rede-ebserh-mec Acesso em 19.10.2025