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Quando o assunto é saúde da mulher, muita ênfase é dada à prevenção e ao diagnóstico precoce de doenças como o câncer de mama e de colo do útero. Com isso, “muitas acreditam que a visita anual ao ginecologista é suficiente para o check-up, esquecendo que o coração também precisa de atenção”, afirma o Dr. Jairo Lins Borges (CRM-SP 46977 / RQE 132337),

Em alguns estados do Brasil, mulheres chegam a superar o número de homens com fatores de risco para doenças do coração¹. De forma geral, as mulheres tendem a desenvolver doenças cardiovasculares em idade mais avançada do que os homens. Um dos motivos é comumente relacionado com os efeitos protetores do estrogênio, enfraquecidos após à menopausa².

“Por exemplo, se para os homens o risco aumenta mais a partir dos 50 anos, para as mulheres a atenção redobra na faixa dos 60”, afirma o Dr. Jairo. “Mas a idade e a menopausa não são os maiores fatores para o aumento do risco cardiovascular em mulheres, considerando as mudanças nos hábitos de vida modernos, as desigualdades e a falta de conhecimento sobre a saúde cardiovascular feminina”, acrescenta.

A Cartilha da Mulher, elaborada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, concorda com o médico. A diretriz aponta que grande parte das mulheres ainda desconhece o impacto negativo da doença cardiovascular no sexo feminino. Além disso, elas também apresentam dificuldade em mudar alguns hábitos fundamentais para evitar fatores de risco¹.

Por isso, “é fundamental que as mulheres estejam bem-informadas sobre a sua saúde cardiovascular e tenham o cuidado com o coração como parte de uma atenção integral à sua saúde”, ressalta o cardiologista.

O que o gênero tem a ver com a saúde do coração?

Sexo e gênero influenciam diretamente o risco, o diagnóstico e o tratamento das doenças cardiovasculares. Embora as taxas globais dessas doenças estejam em queda, indicando avanços nos tratamentos, o cuidado cardiovascular ainda não atende mulheres da mesma forma que homens³.

Entre as doenças do coração mais comuns em mulheres no Brasil, a doença arterial coronariana é a mais frequente. Estima-se que ocorram cerca de 58 eventos a cada 100 mil mulheres brasileiras, conforme dados de 2020 da Carga Global de Doenças.4

Além dessas, outras condições cardíacas comuns incluem insuficiência cardíaca, arritmias e tromboembolismo⁴.

É comum que mulheres, sobretudo aquelas em condição social mais vulnerável, enfrentem diagnóstico tardio, o tratamento inadequado e falhas no reconhecimento de condições específicas do sexo feminino.2,3

Há também diferenças biológicas que exigem atenção específica. Algumas doenças e fatores de risco cardiovasculares ocorrem apenas em mulheres ou são muito mais frequentes nelas, mas ainda recebem pouca atenção em estudos clínicos. Por exemplo, condições relacionadas à gravidez e à menopausa.2,3

Menopausa e saúde mental: fatores de risco para infarto em mulheres?

O risco de infarto em mulheres aumenta a partir de uma combinação de fatores biológicos, comportamentais e sociais. Além dos fatores tradicionais, como hipertensão e colesterol alto, aspectos relacionados à menopausa, à saúde mental e aos hábitos de vida têm impacto direto sobre a saúde cardiovascular feminina.1,5

A transição para a menopausa marca um período de maior risco cardiovascular. A explicação está associada à queda dos níveis de estrogênio, que tem um efeito protetor natural sobre as artérias. Mulheres que têm sintomas mais intensos, como os fogachos, e casos de menopausa precoce estão associadas a um risco ainda maior de doenças do coração.²

“Esse é um dos motivos que explicam o aumento do risco de doenças do coração em mulheres mais idosas. Mas não é único e, em muitos casos, não é o mais relevante”, aponta o Dr. Jairo.

Os principais fatores de risco que ajudam a explicar por que o infarto em mulheres se torna mais frequente com o avanço da idade e após a menopausa são²:

Diabetes
Entre as mulheres, o diabetes é um dos fatores de risco mais preocupantes. Elas apresentam de duas a quatro vezes mais chances de desenvolver doenças isquêmicas do coração, como o infarto.²

Tabagismo
O tabagismo está associado a um risco 25% maior de doença isquêmica do coração em mulheres. Esse impacto é ainda mais relevante diante da tendência de aumento do fumo entre mulheres mais jovens².

Estresse e saúde mental
As mulheres estão mais expostas a estressores ligados ao acúmulo de responsabilidades, discriminação e violência doméstica. Essa sobrecarga, por exemplo, aumenta o risco de cardiomiopatia de Takotsubo, conhecida como síndrome do coração partido. Além disso, a presença de depressão após um evento cardíaco pode elevar em até três vezes o risco de mortalidade em mulheres.²

Obesidade
A obesidade é mais prevalente em mulheres do que em homens, com taxas globais até 50% maiores. O excesso de peso contribui diretamente para o desenvolvimento de doenças carviovasculares.²

Segundo o médico, a alimentação é um dos pontos centrais na prevenção das doenças cardiovasculares. “O consumo frequente de alimentos ultraprocessados aumenta significativamente o risco de problemas como hipertensão, diabetes, colesterol alto, obesidade e doenças do coração e do cérebro”, esclarece.

Sedentarismo
De mulheres jovens às mais velhas, elas tendem a ser menos ativas fisicamente. A falta de atividade física reduz a proteção cardiovascular e contribui para desigualdades nos indicadores de saúde, já que o exercício regular é essencial para manter o coração saudável².

Como o corpo da mulher avisa um infarto?

Outra diferença entre mulheres e homens é que o infarto em mulheres “nem sempre se manifesta da forma considerada clássica”, diz o cardiologista. “Além dos sintomas mais conhecidos, como dor no peito, falta de ar e fadiga, elas podem apresentar sinais menos óbvios, que nem sempre são imediatamente associados ao coração. Ou nem apresentar sinais, serem assintomáticas.”

Segundo ele, isso faz com que muitas subestimem os sintomas, o que atrasa o diagnóstico. “Acham que não é nada grave”, complementa o médico.

A identificação dessas particularidades é fundamental. Os principais sinais e sintomas que podem indicar um infarto ou outras doenças cardiovasculares em mulheres incluem6:

Dor no peito
Geralmente descrita como dor na região central do tórax, podendo ser sentida atrás do osso do peito. Em vez da dor torácica típica, algumas mulheres apresentam desconforto no peito, sensação de aperto, peso ou mal-estar geral. Esses sintomas substituem a dor clássica e frequentemente levam a atrasos no diagnóstico⁶.

Dor irradiada para mandíbula e pescoço
A dor pode se espalhar para áreas como mandíbula e pescoço, um padrão relativamente comum em mulheres⁶.

Fadiga intensa
Cansaço fora do habitual, mesmo em repouso ou com esforços leves⁶.

Náusea
Enjoo sem causa aparente pode acompanhar eventos cardíacos e ser confundido com problemas digestivos⁶.

Palpitações
Sensação de batimentos acelerados ou irregulares, mais comum em mulheres, especialmente na presença de fibrilação atria⁶l.

Falta de ar
A falta de ar pode surgir mesmo sem esforço significativo e está presente em diferentes doenças cardiovasculares⁶.

Tontura ou sensação de desmaio
 Pode ocorrer associada a arritmias ou alterações no fluxo sanguíneo⁶.

9 dicas para mulheres cuidarem da saúde do coração

A prevenção das doenças cardiovasculares em mulheres passa tanto pelo controle dos fatores de risco tradicionais quanto pela atenção a condições específicas do sexo feminino.2,3 A identificação precoce desses fatores de risco, aliada a mudanças no estilo de vida, é fundamental para reduzir a morbimortalidade cardiovascular entre as mulheres7.

Reunimos 9 orientações práticas e diretas para mulheres protegerem a saúde do coração:

  1. Priorize uma alimentação equilibrada
    A base da alimentação deve incluir frutas, vegetais, grãos integrais, laticínios magros, proteínas magras e óleos vegetais. Ao mesmo tempo, é importante reduzir o consumo de sal, gorduras saturadas, gorduras trans e açúcares adicionados, que podem aumentar o risco de hipertensão, diabetes e outras doenças cardiovasculares. 7
  2. Pratique atividade física regularmente
    A recomendação geral é acumular pelo menos 150 minutos semanais de exercícios de intensidade moderada ou 75 minutos de atividades mais intensas. A prática regular ajuda a controlar a pressão, o peso e o colesterol, além de proteger diretamente o coração7.
  3. Mantenha o controle do peso corporal
    Equilibrar alimentação e exercício é essencial. Para mulheres que precisam perder peso, a orientação é mais rigorosa: realizar entre 60 e 90 minutos de atividade física moderada, preferencialmente todos os dias da semana7.
  4. Não fume e evite o fumo passivo
    O tabagismo é um dos principais fatores de risco evitáveis. Fumar pode reduzir até uma década de vida, enquanto parar de fumar diminui essa perda em cerca de 90%. Evitar a exposição à fumaça de cigarro também é fundamental7.
  5. Monitore e controle a pressão arterial
    Manter a pressão em níveis adequados depende de alimentação saudável, prática de exercícios e redução do consumo de sal e álcool. Quando a pressão atinge ou ultrapassa 140/90 mmHg, o uso de medicamentos passa a ser necessário7, mas “sempre com avaliação e orientação do seu médico”, ressalta o Dr. Jairo.
  6. Cuide com a glicemia e o diabetes
    Mulheres com diabetes vão precisar de um controle maior dos demais fatores de risco. Para elas, a frequência e a intensidade da atividade física devem ser ainda maiores para reduzir o risco de eventos cardiovasculares7.
  7. Acompanhe os níveis de colesterol
    O controle do colesterol faz parte das metas clínicas para reduzir o risco de infarto e outras doenças cardiovasculares. Alimentação adequada, exercício e, quando indicado pela equipe médica, tratamento medicamentoso são pilares desse cuidado. 7
  8. Atenção a histórico de condições gestacionais
    Mulheres que tiveram pré-eclâmpsia, hipertensão gestacional, diabetes gestacional ou parto prematuro devem manter acompanhamento cardiovascular mais rigoroso ao longo da vida. 7
  9. Cuide da saúde mental
    Reconhecer e tratar quadros de depressão e ansiedade é essencial, também em mulheres mais jovens. Fatores psicossociais podem ter impacto direto e significativo no risco de desfechos cardiovasculares na mulher. 7

De forma geral, é importante estimular hábitos de vida mais ativos e saudáveis entre as mulheres.4 “Não tem caminho mais fácil”, afirma o médico. Manter esse estilo de vida e realizar acompanhamento médico da saúde cardiovascular é o que qualquer mulher “precisa fazer para cuidar da saúde do coração, em qualquer idade, antes ou depois da menopausa”, explica o Dr. Jairo.

*Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor.

*As opiniões emitidas pelo(a) especialista são independentes e não necessariamente refletem a opinião da Libbs

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Cardiologia. “Cartilha Informativa – Campanha Temática Mulher.” Apud. Secretaria da Saúde do Ceará. Mulheres devem ter mais cuidados com doenças cardiovasculares [Internet]. Ceará: Secretaria da Saúde do Ceará; 2015 [citado em 15 jan 2026]. Disponível em: https://www.saude.ce.gov.br/2015/03/16/mulheres-devem-ter-mais-cuidados-com-doencas-cardiovasculares/
  2. Vervoort D, Wang R, Li G, Filbey L, Maduka O, Brewer LC, et al. Addressing the global burden of cardiovascular disease in women. J Am Coll Cardiol. 2024 jun 1;83(25):2690–707.
  3. Gulamhusein N, Ahmed SB. Getting to the heart of it: sex and gender considerations in the management of cardiovascular disease. Lancet Reg Health Eur. 2024 Sep 18;45:101076.
  4. Brasil. Ministério da Saúde. Atividade física e hábitos saudáveis para a saúde cardiovascular da mulher [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; [maio de 2022] [citado em 15 jan 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/eu-quero-me-exercitar/noticias/2022/atividade-fisica-e-habitos-saudaveis-para-a-saude-cardiovascular-da-mulher
  5. Oliveira GMM de, Almeida MCC de, Marques-Santos C, Costa MENC, Carvalho RCM de, Freire CMV, et al. Posicionamento sobre a saúde cardiovascular nas mulheres – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022 nov;119(5):815–82.
  6. Mehta LS, Velarde GP, Lewey J, Sharma G, Bond RM, Navas-Acien A, et al. Cardiovascular disease risk factors in women: the impact of race and ethnicity: a scientific statement from the American Heart Association. Circulation [Internet]. 2023 abr 10;147(19).
  7. Izar MC, Fonseca FA. Fatores de risco na mulher: tradicionais e específicos. Rev Soc Cardiol Estado São Paulo. 2023 jun 30;33(2):264–70.