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Publicado em: 23 de março de 2026
Todos os anos, no mês de março, pessoas ao redor do mundo são convidadas a vestir roxo como parte de um esforço internacional de conscientização sobre a epilepsia¹. A mobilização chama atenção para uma das doenças neurológicas mais comuns do mundo, que afeta mais de 50 milhões de pessoas globalmente². No Brasil, estima-se que cerca de 2% da população conviva com a condição¹.
A epilepsia reúne um grupo heterogêneo de doenças cerebrais e pode atingir indivíduos de qualquer idade, sexo ou etnia. Em alguns casos, as causas da epilepsia podem estar relacionadas a alterações estruturais no cérebro, infecções, distúrbios metabólicos ou mecanismos imunológicos. No entanto, para a maioria das pessoas, não há uma causa evidente identificável².
Os caminhos para uma cura definitiva das epilepsias ainda estão em estudo³, o que torna o acompanhamento médico e o tratamento adequado fundamentais para o controle da doença, afirma o neurologista Dr. Luiz Betting (CRM-SP 94965).
A epilepsia é uma alteração temporária e reversível do funcionamento do cérebro, que não é provocada por febre, uso de drogas ou distúrbios metabólicos. Durante alguns segundos ou minutos, uma parte do cérebro passa a emitir sinais elétricos incorretos, que podem permanecer restritos a uma área específica ou se espalhar para outras regiões¹.
Do ponto de vista médico, a epilepsia é definida como um grupo de doenças cerebrais caracterizadas por uma predisposição duradoura a gerar crises epilépticas². As crises são o principal sintoma da epilepsia. No entanto, é importante entender que uma crise isolada pode acontecer sem que a pessoa tenha epilepsia, já que o diagnóstico depende de episódios contínuos².
Quando os sinais elétricos anormais ficam limitados a uma parte do cérebro, a crise é chamada de focal. Quando atingem os dois hemisférios cerebrais, são classificadas como generalizadas¹.
As causas da epilepsia podem estar relacionadas a diferentes tipos de lesões no cérebro. Elas podem surgir desde o nascimento ou ser consequência de acidentes, como uma batida forte na cabeça com sangramento interno, além de infecções como meningite, encefalite e neurocisticercose.4O abuso de bebidas alcoólicas e drogas durante a gestação, assim como problemas ocorridos antes ou durante o parto, também estão entre as possíveis origens da doença4.
Mesmo sem o abuso de substâncias, durante os primeiros meses de gestação, malformações no cérebro ou nos vasos sanguíneos cerebrais podem desencadear crises epilépticas em alguma fase da vida. Já em idosos, as doenças cerebrovasculares, como o acidente vascular cerebral (AVC), e os tumores cerebrais estão entre as causas mais frequentes da epilepsia nessa faixa etária4.
Ainda assim, em muitos casos não é possível identificar a causa exata, sendo a epilepsia classificada como de origem desconhecida4.
Hoje, a ciência aponta que a genética tem, sim, papel importante na epilepsia. Nas síndromes graves e de início precoce, a causa pode ser uma falha crítica em um único gene responsável pela comunicação elétrica entre os neurônios. Um exemplo é a Síndrome de Dravet, uma encefalopatia epiléptica genética rara e grave que começa no primeiro ano de vida².
Já nas epilepsias generalizadas genéticas, mais frequentes, o mecanismo é poligênico. Isso significa que não há um único erro determinante, mas o acúmulo de pequenas variações genéticas que, somadas, aumentam a suscetibilidade da pessoa à doença².
Estudos recentes também identificaram que algumas epilepsias focais podem estar associadas a mutações somáticas. Nesse caso, a alteração genética não está presente em todas as células do corpo e, por isso, pode não aparecer em exames de sangue comuns. O erro ocorre durante a formação do cérebro ainda na fase fetal, afetando apenas um pequeno grupo de células e criando uma área de tecido malformado que passa a desencadear as crises, mesmo quando o restante da constituição genética da pessoa é normal².
A epilepsia ainda não tem uma cura definitiva. Atualmente, não existe um tratamento capaz de eliminar a doença de forma garantida para todos os pacientes. O que se observa é que, em algumas situações específicas, pode haver remissão das crises, mas isso não significa que exista uma cura aplicável a todos os casos.³
A cirurgia ressectiva, que remove a área do cérebro responsável pelas crises, pode levar à cessação completa das crises em parte dos pacientes. Também há síndromes chamadas autolimitadas, que começam na infância ou adolescência e podem entrar em remissão espontaneamente ao longo do tempo.³
Além disso, uma parcela de pessoas que ficam sem crises com o uso de medicamentos ou tratamento dietético pode continuar livre das crises mesmo após a suspensão da terapia.³
Ainda assim, os mecanismos que explicam esses casos de remissão não são totalmente compreendidos, o que impede que esse efeito seja transformado, até o momento, em um modelo de tratamento direcionado à cura da epilepsia.³
“Ainda que não tenha um caminho claro para a cura, o tratamento da epilepsia alcança níveis de controle muito elevados, especialmente com o diagnóstico e acompanhamento corretos”, afirma o Dr. Luiz.Entre os principais caminhos para isso está o tratamento com medicações anticrises epilépticas. Aproximadamente dois terços dos pacientes conseguem controlar as crises com essas medicações.4
A decisão de iniciar o tratamento considera três critérios centrais: o risco de novas crises, as consequências da continuidade das crises para o paciente e a eficácia e os possíveis efeitos adversos do medicamento escolhido. Esse risco de recorrência varia conforme o tipo de crise e a síndrome epiléptica.5
Em cerca de um terço dos pacientes, porém, as crises persistem mesmo com o uso adequado dos remédios. Nesses casos, especialmente em crianças, uma alternativa é a dieta cetogênica, rica em gorduras, adequada em proteínas e pobre em carboidratos4.
Desenvolvida para imitar no organismo os efeitos bioquímicos do jejum, mantendo um estado de anabolismo (fase em que ocorrem reações que formam moléculas complexas a partir de outras mais simples, com gasto de energia), essa abordagem pode trazer resultados expressivos: cerca de 10% dos pacientes podem ficar livres das crises e aproximadamente 40% apresentam redução de 50% na frequência dos episódios5.
Outra possibilidade é a cirurgia, indicada principalmente para pacientes com crises focais resistentes aos medicamentos, incapacitantes e originadas em uma região do cérebro que possa ser removida sem risco existente ou mínimo de causar prejuízo neurológico ou cognitivo5.
Existem dispositivos que podem ser usados no tratamento das epilepsias, especialmente para pacientes que não conseguem controlar as crises apenas com medicamentos 6.
Os dispositivos de estimulação cerebral profunda são um bom exemplo. Nesse procedimento, eletrodos são implantados no núcleo anterior do tálamo, estrutura envolvida na propagação das crises. O sistema envia estímulos elétricos contínuos para modular a atividade cerebral e tentar impedir que a crise se inicie ou se espalhe6.
Outro exemplo é o estimulador do nervo vago (VNS), ou estimulador vagal. O dispositivo é colocado sob a pele e um eletrodo é conectado ao nervo vago, liberando estímulos automáticos e intermitentes. Em vários estudos esse tratamento se mostrou promissor para os casos refratários (quando medicamentos e cirurgias falham), reduzindo significativamente a frequência das crises, com uma eficácia que tende a aumentar ao longo do tempo, e com indicação para diferentes faixas etárias.7
Assim, com o avanço dessas tecnologias, amplia-se o horizonte de cuidado para pessoas com epilepsia, trazendo novas possibilidades de controle das crises e mais qualidade de vida ao longo do tempo.
Conteúdo elaborado em março/2026
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