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Publicado em: 10 de abril de 2026
Em março, mais especificamente no dia 26, o mundo se mobiliza em torno do Dia Mundial da Conscientização sobre Epilepsia. A data convida a população a entender mais sobre a condição como uma forma de combater o estigma e incentivar o acolhimento de quem convive com a doença¹.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a epilepsia é uma doença neurológica crônica não transmissível que afeta pessoas de todas as idades. Estima-se que cerca de 50 milhões de pessoas no mundo vivam com epilepsia e que até 70% delas poderiam ficar livres das crises se recebessem diagnóstico e tratamento adequados².
A epilepsia é uma alteração temporária e reversível do funcionamento do cérebro em que, por alguns segundos ou minutos, ocorre uma descarga elétrica anormal, fazendo com que sinais incorretos sejam enviados ao corpo. Esses sinais podem ficar restritos a uma área específica do cérebro ou atingir os dois hemisférios cerebrais, causando as crises epilépticas. Essas crises podem envolver movimentos involuntários de uma parte do corpo ou do corpo todo, como acontece nas crises tônico-clônicas (popularmente conhecidas como convulsões), e que às vezes vêm acompanhados de perda de consciência e outros sintomas².
Por isso, nem todas as crises são visíveis, o que não diminui a importância da condição¹, mas pode dificultar e atrasar o diagnóstico correto, explica o neurologista Dr. Luiz Betting (CRM-SP 94965, RQE 25938). “A epilepsia apresenta diversas manifestações que vão além das crises tônico-clônicas, e é importante destacar que muitas crises não apresentam movimentos evidentes. O desconhecimento dessas diferentes formas pode atrasar o diagnóstico e o tratamento de muitos pacientes.”
As crises epilépticas só acontecem quando há descargas elétricas excessivas em um grupo de células do cérebro. Dependendo da área atingida, os sintomas podem variar bastante.2
Algumas crises se manifestam como breves lapsos de atenção ou pequenos movimentos involuntários, enquanto outras podem evoluir, sim, para crises mais intensas e prolongadas. A frequência também é variável, podendo ocorrer menos de uma vez por ano ou várias vezes ao dia².
Ter uma única crise não significa que a pessoa tenha epilepsia. Estima-se que até 10% da população mundial terá ao menos uma crise ao longo da vida. O diagnóstico de epilepsia é estabelecido quando há duas ou mais crises não provocadas, ou seja, que não foram desencadeadas por fatores como febre ou alterações metabólicas.2
Portanto, assim como nem toda crise significa epilepsia, a presença de crises tônico-clônicas (as “convulsões”) não é obrigatória para o diagnóstico, reforça o Dr. Luiz. “É possível ter epilepsia sem apresentar crises tônico-clônicas, e também é possível ter convulsões por outras causas que não sejam epilepsia.”
O médico afirma que as crises tônico-clônicas (“convulsões”) são as manifestações mais reconhecidas e, frequentemente, as que mais geram preocupação nos pacientes, mas esse não é o único sinal da doença. Por vezes, a pessoa apenas interrompe o que está fazendo, fica com o olhar fixo por alguns segundos e depois retoma a atividade, sem perceber o que aconteceu³.
Os sintomas também podem incluir perda da percepção do que está acontecendo ao redor, além de alterações nos movimentos e na sensibilidade (como visão, audição e paladar), no humor e em outras funções cognitivas, afetando a capacidade de pensamento e a memória².
A epilepsia pode ter diferentes causas e tipos de crise, por isso às vezes é chamada de “epilepsias”, no plural, para refletir essa diversidade³.
As crises epilépticas podem ser focais ou generalizadas, o que depende do quanto o cérebro é afetado³As crises focais se originam em uma região cerebral e representam cerca de 60% dos casos. Nesse tipo, a pessoa pode permanecer consciente e apresentar alterações motoras, sensoriais ou emocionais, como sensação intensa de déjà vu, náusea ou percepções que não são reais. Em outros casos, há alteração da consciência, com comportamentos repetitivos e automáticos, como piscar, mexer a boca ou caminhar sem perceber³.
Já as crises generalizadas envolvem os dois lados do cérebro. Elas podem causar perda de consciência, quedas e contrações musculares intensas³.As crises generalizadas podem ser divididas em subtipos. Entres eles estão³:
• Crise de ausência: a pessoa parece ficar olhando fixamente para o nada, com ou sem pequenos abalos musculares.
• Crise tônica: provoca rigidez dos músculos, principalmente nas costas, nos braços e nas pernas.
• Crise clônica: causa movimentos repetidos e rítmicos dos músculos dos dois lados do corpo.
• Crise mioclônica: gera abalos ou contrações rápidas, geralmente na parte superior do corpo, braços ou pernas.
• Crise atônica: leva à perda súbita do tônus muscular, podendo fazer a pessoa cair ou deixar a cabeça pender involuntariamente.
• Crise tônico-clônica (convulsão): combina rigidez muscular, abalos repetidos e perda de consciência.
Existe também o estado de mal epiléptico, uma situação grave em que a crise dura mais de cinco minutos ou ocorre repetidamente sem que a pessoa recupere a consciência³.
Ele pode ser convulsivo ou não convulsivo. No tipo não convulsivo, não há movimentos evidentes, mas a pessoa pode apresentar confusão prolongada, agitação ou perda de consciência, podendo ser necessário exame específico, como o eletroencefalograma, para confirmação3-4. Estima-se que essa forma represente entre 20% e 30% dos casos de estado de mal epiléptico⁴.
As crises epilépticas podem acontecer sem aviso prévio. Especialmente em crises tônico-clônicas, o principal objetivo é proteger a pessoa⁵.
Veja como agir com segurança⁵:
• Mantenha a calma e acalme quem estiver por perto;• Amorteça a queda e proteja a cabeça com algo macio;• Afaste objetos que possam causar ferimentos;• Deite a pessoa e vire a cabeça para o lado para evitar engasgos com saliva;• Afrouxe roupas apertadas;• Não tente conter os movimentos;• Não coloque nada na boca;• Não jogue água, não dê tapas e não ofereça nada para cheirar;• Observe a duração da crise;• Acione o serviço de emergência;• Fique ao lado da pessoa até que ela recupere a consciência e permita que descanse.
O Dr. Luiz reforça que a maioria das pessoas com epilepsia consegue controlar as crises com medicamentos e pode levar vida normal, com pouca ou nenhuma limitação.
Ele alerta, no entanto, que ainda há muito preconceito e discriminação, com impactos na vida profissional e social, principalmente para quem apresenta crises mais graves e frequentes. “O preconceito existe pela falta de entendimento da condição e pela crença de que as crises significam limitações para o resto da vida. Um diagnóstico correto e acompanhamento médico podem mudar a vida de muitos pacientes, que podem retomar suas atividades sem crises”, afirma.
Além das medicações, algumas estratégias ajudam no tratamento das epilepsias. Uma delas é o registro das crises, que consiste em anotar quando acontecem e como se manifestam. Essas informações auxiliam a equipe de saúde no diagnóstico, na escolha do tratamento e no controle de efeitos colaterais⁶.
Ao observar esse registro, é possível identificar padrões ou situações que funcionam como gatilhos, ou seja, fatores que aumentam o risco de uma crise. Evitar ou controlar esses gatilhos pode diminuir a frequência dos episódios⁶.
Entre as orientações para prevenção estão⁶:
• Manter alimentação equilibrada;• Reduzir o estresse;• Tomar corretamente os medicamentos prescritos e observar possíveis efeitos colaterais ou interações;• Manter rotina regular de sono;• Reduzir ou evitar álcool e drogas;• Buscar orientação médica para ajuste das medicações durante o ciclo menstrual, quando indicado;• Evitar luzes piscantes em casos de sensibilidade.
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