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As doenças cardíacas estão entre as principais preocupações de saúde pública no Brasil e no mundo, respondendo por cerca de um terço dos óbitos por todas as causas e afetam homens e mulheres em todas as idades. Entre as mulheres, as principais são a doença isquêmica cardíaca (DIC) e a doença cerebrovascular, que inclui o acidente vascular cerebral (AVC), e são proporcionalmente mais frequentes no sexo feminino¹.

O Ministério da Saúde alerta para o aumento do risco entre mulheres de 35 a 65 anos, faixa etária em que as doenças do coração se tornam mais prevalentes. A atenção é ainda maior no climatério, fase de transição entre o período reprodutivo e a pós-menopausa, quando mudanças hormonais contribuem para o aumento do risco cardiovascular.²

Segundo o cardiologista Dr. Jairo Lins Borges (CRM-SP 46977 | RQE 132337), esse aumento do risco acende um alerta para a prevenção e para o diagnóstico precoce. “Nas mulheres, as doenças cardíacas podem evoluir sem sintomas claros por muitos anos. A realização dos exames adequados, no momento certo, permite identificar alterações iniciais e reduzir o risco de eventos graves”, orienta.

Quais são os principais exames para checar a saúde do coração?

Não existe um exame único capaz de diagnosticar todas as doenças cardiovasculares. A avaliação envolve a análise clínica, exames complementares e a consideração das condições individuais de cada paciente, o que permite identificar riscos e alterações ainda em fases iniciais².

Entre os exames mais utilizados para avaliar a saúde do coração estão o eletrocardiograma, o teste ergométrico e a ecocardiografia. Em situações específicas, também podem ser indicadas ressonância e tomografia, conforme a suspeita clínica e os achados iniciais¹.

Outro passo importante é a avaliação do risco cardiovascular, que reúne dados clínicos e exames laboratoriais para estimar a probabilidade de uma pessoa desenvolver doenças ou eventos cardiovasculares ao longo do tempo, orientando medidas de prevenção³. “Exames de sangue e a avaliação clínica são usados nessa etapa para verificar níveis de colesterol, glicemia, presença de hipertensão e outras condições associadas ao risco cardiovascular”, explica o médico.

Entre os principais fatores de risco cardiovascular nas mulheres estão:⁴

  • diabetes mellitus
  • hipertensão arterial sistêmica
  • dislipidemia
  • tabagismo
  • obesidade
  • sedentarismo

A prevalência desses fatores vem aumentando inclusive entre mulheres mais jovens. Quando associados a fatores específicos do sexo feminino, eles contribuem para aumento da mortalidade. As condições específicas a mulheres que potencializam esse risco incluem:⁴

  • síndrome dos ovários policísticos
  • uso de contraceptivos hormonais
  • doença hipertensivas da gravidez e eventos adversos gestacionais
  • terapia hormonal na menopausa
  • doenças inflamatórias e autoimunes, como artrite reumatoide e lúpus eritematoso
  • distúrbios depressivos

Segundo o Dr. Jairo, uma vez identificadas condições clínicas que podem influenciar na saúde do coração, alguns exames podem ser indicados para averiguar com maior clareza o risco e presença de doenças cardíacas em mulheres. Conheça alguns dos mais comuns:

Eletrocardiograma: o que é e para que serve?

O eletrocardiograma (ECG) é um dos exames mais utilizados na cardiologia por ser simples, rápido e não invasivo. Ele é empregado tanto para ajudar no diagnóstico quanto para avaliar o prognóstico de diferentes doenças cardíacas, como alterações do ritmo do coração e e outras alterações relacionadas à função cardíaca.¹

Na prática, o exame registra os impulsos elétricos que fazem o coração bater. A partir desses sinais, é possível observar o ritmo cardíaco, obter informações sobre o tamanho das câmaras do coração (chamadas de átrios e ventrículos) e identificar indícios de alterações nas artérias coronárias (responsáveis por levar sangue ao músculo cardíaco).⁵ “Essas informações ajudam a identificar condições como arritmias, isquemia e doenças estruturais do coração”, explica o médico.

O ECG também é utilizado para detectar a chamada hipertrofia ventricular esquerda, que é o aumento da espessura da parede do ventrículo esquerdo. Quando não são usados critérios específicos para cada sexo, o exame tende a identificar essa alteração com menos sensibilidade em mulheres do que em homens¹.

Para reduzir essa diferença, o eletrocardiograma avalia o tamanho de ondas específicas do traçado cardíaco por meio do critério de Cornell, que se torna mais preciso quando considera o sexo da pessoa. Como há diferenças físicas entre homens e mulheres, os valores de referência também variam. Em mulheres de meia-idade, alterações neste exame podem servir como um sinal de alerta para maior risco de insuficiência cardíaca no futuro.¹

Ecocardiograma: como o exame avalia o coração da mulher

O ecocardiograma é um exame não invasivo que utiliza ondas de ultrassom para avaliar a estrutura e o funcionamento do coração. Ele fornece informações sobre o tamanho, a forma e os movimentos do músculo cardíaco, além do funcionamento das válvulas, estruturas responsáveis por controlar o fluxo do sangue.¹,⁵

Por ser um procedimento não invasivo e não expor a paciente à radiação, o ecocardiograma é frequentemente indicado na investigação inicial das doenças cardiovasculares e na avaliação do prognóstico.1 O exame permite analisar a força de contração do coração, o tamanho das cavidades, a massa do músculo cardíaco e identificar alterações como doenças das válvulas, do músculo cardíaco, do pericárdio e da aorta.⁵

Em algumas situações, pode ser indicada a ecocardiografia de estresse. Nessa modalidade, o coração é avaliado durante esforço físico, como esteira ou bicicleta, ou com o uso de medicamentos que simulam o estresse do exercício. O objetivo é observar como o coração reage ao aumento da demanda de oxigênio¹.

Esse exame permite identificar áreas do músculo cardíaco com redução do fluxo sanguíneo, chamadas de isquemia, e regiões com fibrose, que indicam cicatrizes no coração. Ele é indicado na investigação da doença arterial coronariana em pacientes com sintomas e risco cardiovascular intermediário, ou na avaliação prognóstica de quem já tem a doença, sendo uma opção importante para mulheres jovens, pois evita a exposição à radiação¹.

Quando o teste ergométrico é indicado?

O teste ergométrico é um dos exames não invasivos mais utilizados na avaliação da doença isquêmica do coração. Ele é indicado para investigar sintomas que surgem durante o esforço físico, avaliar a capacidade funcional, identificar arritmias e observar como a pressão arterial e a frequência cardíaca se comportam durante o exercício¹.

Segundo o Dr. Jairo, nesse exame, a atividade elétrica do coração é monitorada enquanto a pessoa caminha ou corre em uma esteira. “A proposta é reproduzir o esforço do dia a dia e observar como o coração reage a essa demanda maior de oxigênio”, explica o médico. Ele também diz que o exame pode ser indicado para avaliação anterior à prática de exercícios físicos, como antes de se matricular em aulas de ginástica.

O teste ergométrico também pode ser usado como alternativa para descartar a doença arterial coronariana quando outros exames de imagem não estão disponíveis¹.

Ultrassonografia de carótidas: o que o exame revela sobre o risco cardiovascular

A ultrassonografia de carótidas é outro exame não invasivo, que avalia as paredes das artérias responsáveis por levar sangue ao cérebro. Por meio do ultrassom, é possível medir a espessura médio-intimal, que corresponde ao espessamento da parede da artéria, em diferentes pontos das carótidas¹.

Esse exame também permite identificar a presença de placas, que são acúmulos de gordura e outras substâncias na parede das artérias. Essas alterações podem indicar a presença de aterosclerose subclínica, ou seja, uma doença das artérias que ainda não causa sintomas, mas já aumenta o risco cardiovascular.¹

Estudos mostram que entre 40% e 80% de pessoas aparentemente saudáveis e sem sintomas podem apresentar da espessura médio-intimal ou placas nas carótidas. A presença dessas alterações está associada à carga de aterosclerose no organismo e ao risco de eventos cardiovasculares futuros¹.

Quando são identificadas placas carotídeas com espessura maior que 1,5 milímetro, o paciente é classificado como de maior risco cardiovascular, independentemente do sexo, o que reforça a importância desse exame na avaliação precoce das doenças cardíacas¹.

Ressonância do coração: quando o exame é indicado para mulheres

A ressonância magnética cardiovascular permite uma avaliação ampla das doenças cardíacas, com informações sobre a estrutura e o funcionamento do músculo do coração, presença de inflamação, isquemia e alterações nas válvulas¹.

A ausência de exposição à radiação ionizante é uma vantagem importante, especialmente para mulheres em idade fértil ou na fase pré-menopausa, tornando o exame uma opção segura para avaliações mais detalhadas¹.

Além dos exames: como cuidar da saúde do coração

Além de manter os exames em dia, o Dr. Jairo reforça a importância do acompanhamento médico regular para a prevenção das doenças cardíacas em mulheres, assim como a adoção de hábitos saudáveis. “Escolhas cotidianas têm papel decisivo para a proteção do coração ao longo da vida”, diz o médico.

Confira algumas dicas para um coração saudável:5

  1. Cuidar da alimentação: uma alimentação saudável é fundamental para a saúde cardiovascular. Priorizar alimentos in natura e minimamente processados ajuda a controlar fatores como colesterol e inflamação, diretamente relacionados ao risco de doenças do coração.
  2. Praticar atividade física regularmente. Manter uma rotina ativa protege o coração e contribui para o equilíbrio dos níveis de açúcar e colesterol no sangue, parâmetros importantes no acompanhamento da saúde cardiovascular.
  3. Manter o peso saudável. O excesso de peso é um dos fatores de risco mais associados às doenças cardiovasculares e tem aumentado nos últimos anos, tornando o controle do peso uma medida essencial de prevenção.
  4. Ficar longe do cigarro. Fumar afeta diretamente o coração. As substâncias presentes no cigarro favorecem a inflamação, a obstrução das artérias e a formação de placas de gordura, cálcio e inflamação, que podem comprometer o fluxo sanguíneo e levar ao infarto.

Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor

Conteúdo elaborado em março/26

Referências:

  1. Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP). Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo. Cardiologia Prática – Doença Cardiovascular na Mulher [Internet]. São Paulo: SOCESP; 2023. [Acesso em 6 mar. 2026]. Disponível em: https://socesp.org.br/revista/assets/upload/revista/d8ef5794c6250abf1b8cf13bb9d248b1.pdf
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Dia de conscientização: mulheres entre 35 e 45 anos são mais vulneráveis a doenças cardiovasculares [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. [Acesso em 6 mar. 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/maio/dia-de-conscientizacao-mulheres-entre-35-e-45-anos-sao-mais-vulneraveis-a-doencas-cardiovasculares
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Estratégia de saúde cardiovascular completa um ano e orienta prevenção [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. [Acesso em 6 mar. 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/novembro/estrategia-de-saude-cardiovascular-completa-um-ano-e-orienta-prevencao
  4. Oliveira GMM, Almeida MCC, Marques-Santos C, Costa MENC, Carvalho RCM, Freire CMV, et al. Posicionamento sobre a saúde cardiovascular nas mulheres – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;119(5):815–82.
  5. Brasil. Ministério da Saúde. Boletim temático da Biblioteca do Ministério da Saúde: saúde do coração [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2022.  [Acesso em 6 mar. 2026]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/boletim_tematico/saude_coracao_setembro_2022.pdf