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Para quem convive com a hipertensão, medir a pressão arterial em casa torna-se parte da rotina, mas é preciso cuidado com a maneira como essa medição é feita. Detalhes simples, como a posição do braço e a postura, podem alterar o resultado da medição e, no limite, mascarar sintomas que deveriam despertar atenção.

Uma pesquisa publicada em 2025 ajuda a ilustrar esse problema. Um grupo de mais de 1200 pacientes, todos sem diagnóstico prévio de hipertensão, teve a pressão medida em consultório. Depois, durante quatro dias, eles fizeram a automedição em casa.1

As medições feitas em consultório identificaram hipertensão arterial em 63,9% dos pacientes. Já a monitorização residencial indicou apenas 43,9% dos participantes como hipertensos – uma diferença grande, de vinte pontos percentuais.1

Segundo o cardiologista Dr. Jairo Lins Borges (CRM-SP 46977 | RQE 132337), um dos autores do estudo, isso ocorre porque certas atitudes afetam o sistema cardiovascular, alterando temporariamente a pressão arterial. “Seguir as diretrizes oficiais é essencial para que a automedição seja mais confiável e útil no acompanhamento clínico.”

Mas qual a real importância da automedição? Embora, por si só, não permita estabelecer um diagnóstico, ela funciona como uma ferramenta de triagem para o pedido de exames clínicos complementares ou até mesmo no acompanhamento do comportamento da pressão entre pessoas com hipertensão.2-3

De acordo com o Dr. Jairo, monitorar indicadores de saúde no dia a dia permite identificar alterações precocemente, favorecendo intervenções mais rápidas e eficazes. “Esse acompanhamento contínuo fortalece o autocuidado e contribui para decisões médicas mais assertivas, promovendo uma abordagem preventiva em vez de apenas reativa.”

Passo a passo de como medir a pressão em casa

Acompanhar esse indicador de saúde em casa pode trazer impactos positivos quando feito de forma adequada. Para garantir resultados mais assertivos, é fundamental seguir algumas orientações que começam antes mesmo do momento de proceder à medida. A preparação do corpo faz diferença direta nos valores obtidos, ajudando a evitar variações temporárias que não refletem a condição real do organismo.2-3

Como preparar o corpo antes da medição:2

  • Procurar um ambiente silencioso, com temperatura agradável;
  • Estar há pelo menos 30 minutos sem ter fumado, consumido cafeína, se alimentado ou praticado exercícios;
  • Sentar em posição relaxada por 5 minutos antes da medição, sem falar ou usar o celular
  • Estar com a bexiga vazia
  • Não falar durante e entre as medições

Ao seguir essas orientações, você pode dar início à automedição. Veja como no passo a passo abaixo2-4:

  • Manter as pernas descruzadas, pés apoiados no chão, dorso relaxado e recostado na cadeira.
  • Manter o braço nu, apoiado em uma superfície plana na altura do coração e com a palma da mão voltada para cima.
  • Fazer três medidas com o intervalo de 1 minuto entre elas e anotar os resultados. Isso é importante para que o médico possa avaliar o seu quadro.

Os aparelhos mais adequados são aqueles que fazem a medida na parte de cima do braço. Aparelhos que verificam a medida pelo dedo ou pelo pulso não têm a mesma confiabilidade.4

Já o momento ideal do dia para realizar a medida pode variar, mas a recomendação é repetir o mesmo horário diariamente.4

“Manter um horário estável ajuda a reduzir a influência de variações naturais do organismo ao longo do dia, permitindo comparações mais confiáveis entre os resultados e contribuindo para uma avaliação clínica mais precisa”, explica o Dr. Jairo.

Quais são os erros frequentes que alteram o resultado da medida da pressão?

Além das orientações de preparo, também é importante evitar alguns comportamentos comuns que podem interferir nos resultados e comprometer a precisão da medição. Pequenos hábitos, muitas vezes considerados inofensivos, podem provocar variações momentâneas e levar a interpretações equivocadas.³

Erros mais frequentes ao medir a pressão são:³

  • Posicionar o aparelho por cima da roupa
  • Sentar em assentos sem estabilidade ou apoio para as costas
  • Manter os pés suspensos ou sem apoio no chão
  • Cruzar as pernas durante o procedimento
  • Falar, se movimentar ou usar o celular enquanto o aparelho realiza a leitura

“Durante a verificação, o corpo deve estar em repouso e em posição adequada, pois movimentos, postura incorreta ou estímulos externos podem provocar alterações temporárias e comprometer a confiabilidade do resultado. A padronização do procedimento é essencial para que os valores reflitam o estado real do organismo”, detalha o médico.

Quando procurar atendimento médico?

Desde o ano passado, valores entre 12 por 8 e 13,9 por 8,9 passaram a ser classificados como pré-hipertensão. Quando esses resultados aparecem de forma persistente, é recomendável buscar avaliação profissional para avaliar o quadro com mais profundidade. Nessa fase, mudanças no estilo de vida podem ser recomendadas pelo profissional a fim de reduzir o risco de progressão para níveis mais elevados.3

Valores iguais ou acima de 14 por 9 são considerados indicativos de hipertensão. Ainda assim, o diagnóstico não deve ser baseado apenas nas medições realizadas em casa. O ideal é procurar um serviço de saúde para realizar exames complementares, como a Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA), que permitem uma avaliação mais completa em diferentes situações do dia a dia.3

Alguns sintomas associados a valores da pressão, como dor de cabeça persistente, dor no peito, tontura ou zumbido nos ouvidos, merecem atenção especial. Leituras muito altas, especialmente picos de 18 por 12, indicam a necessidade de procurar atendimento médico com urgência.3

“Se notar valores de pressão persistentemente altos ou sentir sintomas incomuns, isso pode indicar risco cardiovascular aumentado. Nesses casos, é vital investigar rapidamente. Para confirmar, é necessário uma avaliação e exames de monitoramento da pressão por 24 horas para um diagnóstico preciso.”, finaliza o Dr. Jairo.

Conteúdo elaborado em março/2026

Informações não referenciadas correspondem à opinião ou prática clínica do profissional da saúde entrevistado

Referências

1. Borges JL, Facó LL, Melo ES et al. Discrepancies between office and home blood pressure measurement: insights from a prospective, real world-evidence study in cardiovascular practices in Brazil. American Heart Association (AHA). 2025;82(Suppl_1): FR439.
2. Feitosa ADM, Barroso WKS, Mion Junior D, Nobre F, Mota-Gomes MA, Jardim PCB, et al. Diretrizes Brasileiras de Medidas da Pressão Arterial Dentro e Fora do Consultório – 2023. Arq Bras Cardiol. 2024;121(4):e20240113
3. Brandão AA, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, Armstrong AC, Mulinari RA, Feitosa ADM, et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624
4. American Heart Association. Home Blood Pressure Monitoring [Internet]. [Acesso em: 24 mar. 2026]. Disponível em: https://www.heart.org/en/health-topics/high-blood-pressure/understanding-blood-pressure-readings/monitoring-your-blood-pressure-at-home