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A gravidez provoca mudanças intensas no corpo feminino e isso inclui o coração. Durante a gestação, o organismo precisa aumentar a circulação sanguínea e adaptar o funcionamento cardiovascular para sustentar o desenvolvimento do bebê. Na maioria dos casos, essas alterações são bem toleradas. Porém, em algumas mulheres, a sobrecarga pode aumentar o risco de complicações graves, incluindo insuficiência cardíaca, arritmias e infarto.¹,²

Dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia mostram que as doenças cardiovasculares afetam cerca de 4% das gestações e representam a principal causa indireta de morte materna no Brasil. Segundo o Registro Brasileiro de Cardiopatia e Gravidez, conhecido como REBECGA, cerca de 80% dessas mortes poderiam ser evitadas com diagnóstico precoce, acompanhamento adequado e maior conscientização sobre os riscos cardíacos na gestação.1

Embora o infarto durante a gravidez seja considerado raro, especialistas alertam que o risco cardiovascular aumenta principalmente em mulheres que já têm fatores de risco ou doenças cardíacas, como hipertensão, diabetes, obesidade ou histórico familiar de doenças cardiovasculares. Além disso, complicações específicas da gestação, como pré-eclâmpsia e cardiomiopatia periparto, também elevam o risco de eventos cardiovasculares graves.²

De acordo com o cardiologista Dr. Jairo Lins Borges (CRM 46977 SP e RQE 132337), muitas mulheres acreditam que sintomas como falta de ar extrema, dor no peito e palpitações fazem parte da gravidez e não buscam orientação médica. “Algum desconforto realmente pode ocorrer, mas sintomas intensos, persistentes ou que surgem de forma súbita precisam ser avaliados rapidamente porque podem indicar alterações cardíacas”, afirma.

O que acontece com o coração durante a gravidez?

Durante a gestação, o corpo passa por uma série de adaptações para atender às necessidades da mãe e do feto. Entre as principais mudanças está o aumento do volume de sangue, que pode alcançar 50%. O coração passa a bombear mais sangue por minuto, aumentando o débito cardíaco.¹

Ou seja, a gravidez funciona como uma espécie de “teste de estresse fisiológico” para o sistema cardiovascular. Em mulheres saudáveis, essas adaptações costumam ocorrer sem grandes problemas. Já em quem tem doenças cardíacas ou fatores de risco cardiovascular, a sobrecarga pode favorecer complicações potencialmente graves.¹

O REBECGA identificou que a insuficiência cardíaca foi a principal complicação cardiovascular observada em gestantes cardiopatas brasileiras, atingindo 16,7% dos casos. As arritmias apareceram logo em seguida, com 10,7%.1

O Dr. Jairo explica que o período de atenção não termina no parto. “Existe uma falsa sensação de que o risco acaba quando o bebê nasce, mas o puerpério é uma fase delicada para o coração”, alerta. Ele também reforça que o pós-parto costuma ser uma fase de exaustão física e emocional e, por isso, a atenção deve ser mantida. “Privação de sono, alterações hormonais, retenção de líquidos e dificuldade para reconhecer sintomas podem atrasar o diagnóstico de problemas cardíacos”, afirma.

Pré-eclâmpsia e hipertensão aumentam o risco cardiovascular

Entre as condições que mais preocupam os médicos estão as síndromes hipertensivas da gravidez, como pré-eclâmpsia e eclâmpsia. Essas doenças aumentam o risco tanto para a mãe quanto para o bebê e podem favorecer eventos cardiovasculares graves.²

Atualmente, complicações graves do coração acometem cerca de 1% a 4% das gestações e muitas delas podem ser prevenidas com acompanhamento adequado. Por isso, gestantes com cardiopatia precisam de acompanhamento integrado entre cardiologia e obstetrícia, em um pré-natal de alto risco.²

Segundo o Dr. Jairo, o controle da pressão arterial durante a gravidez é uma das medidas mais importantes para reduzir os riscos. “Hipertensão gestacional e pré-eclâmpsia podem comprometer vasos sanguíneos e aumentar significativamente o risco cardiovascular”, explica.

Sintomas de infarto em mulheres podem ser diferentes

Outro desafio é que os sintomas de infarto nas mulheres nem sempre aparecem da forma clássica, com dor intensa no peito irradiando para o braço esquerdo. Em muitos casos, os sinais podem ser mais sutis e acabar confundidos com sintomas comuns da gestação.²

Entre os sinais que merecem atenção estão: ²

  • Dor ou pressão no peito
  • Falta de ar significativa
  • Tontura ou desmaio
  • Palpitações persistentes
  • Suor excessivo sem causa aparente
  • Náuseas associadas à dor no peito
  • Cansaço excessivo, fora do habitual

Segundo o cardiologista, qualquer sintoma cardiovascular associado à piora rápida exige avaliação médica. “A gravidez altera o organismo, mas não deve provocar dor torácica intensa, perda de consciência ou dificuldade respiratória significativa”, afirma.

Cardiopatias congênitas exigem planejamento

Outro dado importante observado pelo REBECGA foi o aumento das cardiopatias congênitas entre gestantes cardiopatas brasileiras. Atualmente, essas alterações estruturais do coração já representam 35,7% dos diagnósticos nesse grupo, superando índices registrados na década de 1990.1

O estudo mostra que muitas dessas mulheres passaram por cirurgias corretivas ainda na infância, o que ajudou a reduzir complicações durante a gravidez. Mesmo assim, os especialistas reforçam a importância do planejamento familiar e do acompanhamento especializado antes da gestação.1

Segundo o Dr. Jairo, mulheres com doenças cardíacas conhecidas devem conversar com o cardiologista antes de engravidar. “Em alguns casos, ajustes de medicamentos e avaliações prévias conseguem reduzir os riscos maternos e fetais”, explica.

Como reduzir o risco de infarto na gravidez?

Especialistas reforçam que hábitos saudáveis ajudam a diminuir o risco cardiovascular antes, durante e depois da gestação.²

As principais recomendações incluem: ²

  • Alimentação rica em frutas, verduras e fibras
  • Redução do consumo de ultraprocessados
  • Prática regular de atividade física quando liberada pelo médico
  • Não fumar
  • Evitar bebidas alcoólicas
  • Fazer acompanhamento pré-natal adequado

O Dr. Jairo destaca que o cuidado cardiovascular feminino precisa continuar após o parto. “A gravidez pode funcionar como um alerta precoce para futuras doenças cardiovasculares. Mulheres que tiveram hipertensão gestacional ou complicações cardíacas precisam manter acompanhamento médico depois da gestação”, conclui.

Conteúdo produzido em junho/2026

Informações não referenciadas correspondem à opinião ou prática clínica do profissional de saúde entrevistado.

Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.

Médico consultor: Dr. Jairo Lins Borges (CRM-SP 46977; RQE 132337), cardiologista clínico, professor e pesquisador da disciplina de Cardiologia na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Referências

  1. Avila WS, Lucena AJG, Freire CMV, Silva FB, Rivera IR, Oliveira JRS, Rivera MAM, et al. REBECGA: Registro Brasileiro de Cardiopatia e Gravidez. Estudo Multicêntrico Epidemiológico sobre Cardiopatias na Gravidez: Etapa Retrospectiva. Arq. Bras. Cardiol. 2025;122(8):e20240807.
  2. Brasil. Ministério da Educação. Saúde da mulher: Sintomas de infarto nas mulheres podem ser diferentes e dificultar diagnóstico [internet]. 2026 [Acesso em 21 maio 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/hubrasil/pt-br/comunicacao/noticias/sintomas-de-infarto-nas-mulheres-podem-ser-diferentes-e-dificultar-diagnostico#Takotsubo