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Publicado em: 20 de outubro de 2026
A Helicobacter pylori (H. pylori) é uma bactéria capaz de colonizar o estômago humano, um ambiente extremamente hostil para a maioria dos microrganismos devido à sua alta acidez. Estima-se que mais da metade (55%) da população brasileira seja infectada com essa bactéria. Em alguns estados das regiões Norte e o Nordeste do Brasil, a prevalência pode chegar a 70%.¹
A bactéria é alvo de preocupação porque é a principal causa de gastrite crônica e úlceras pépticas.2,3 Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) a classifica como um carcinógeno de Grupo I, ou seja, alerta que ela está altamente relacionada com o desenvolvimento do câncer gástrico.2
No entanto, grande parte dos indivíduos infectados não apresenta sintomas.3 Por isso o tratamento antimicrobiano é recomendado independentemente da presença de sintomas clínicos, visando interromper a evolução para doenças graves.²
O modo de transmissão da H. pylori de pessoa para pessoa é desconhecido, mas pode ocorrer principalmente pelas vias oral-oral e fecal-oral. As chances de transmissão são maiores em locais com saneamento precário e na infância². “O contato diário e próximo em escolas ou creches e os hábitos de higiene ainda em aprendizado facilitam muito a transmissão devido ao contato muito próximo”, explica o gastroenterologista Dr. Décio Chinzon (CRM-SP 49.552 | RQE 11.890).
Além do contato direto, a ingestão de água e alimentos contaminados representa um fator de risco significativo para a infecção. É possível evitar a contaminação através de melhorias nas condições de saneamento básico, acesso à água potável, práticas de higiene pessoal e familiar, além de programas de educação em saúde.¹,²
Os principais sintomas da infecção manifestam-se geralmente através de sintomas dispépticos, um conjunto de desconfortos gástricos que inclui a dor no estômago (epigastralgia) recorrente ou persistente.²
A presença da bactéria também pode causar sensações de queimação e azia, além de provocar náuseas e uma incômoda sensação de estômago cheio (plenitude pós prandial) logo após as refeições.²
Contudo, segundo o médico, é fundamental ressaltar que “a grande maioria dos indivíduos infectados é assintomática, ou seja, não apresenta qualquer sinal clínico até que a infecção esteja avançada e já tenha evoluído para outras condições, como feridas estomacais, gastrite ou câncer”, diz.
A investigação da bactéria deve ser priorizada em pacientes que sofrem de queixas dispépticas crônicas (isto é, dor ou desconforto na região superior do abdômen) já que a H. pylori é um fator significativo para o desenvolvimento dessas patologias.¹
Devem também investigar a presença da bactéria em pessoas com histórico familiar de câncer gástrico ou aquelas que fazem uso crônico de anti-inflamatórios e aspirina, devido ao maior risco de lesões estomacais.²
A dor no estômago também é um dos principais sintomas. No entanto, por estar relacionada com outras doenças, o sintoma merece avaliação médica para H. pylori quando acompanhado de “sinais de alarme”, como perda de peso inexplicada, dificuldade para engolir (disfagia), vômitos persistentes ou evidência de sangramento digestivo².
Segundo o consenso brasileiro sobre o H.pylori, a atenção deve ser maior quando esses sintomas aparecem após os 40 anos, sendo recomendados exames, como a endoscopia, para diagnóstico preciso.²
A infecção bacteriana por H.pylori está associada, sim, à gastrite crônica.¹,²
A inflamação crônica persiste silenciosamente por anos e está relacionada à capacidade da bactéria de escapar do sistema imunológico e neutralizar o ácido gástrico, permitindo que ela continue agredindo a mucosa sem que o paciente sinta sintomas imediatos.¹
Por ser uma doença infecciosa, os consensos médicos determinam que o tratamento deve erradicar a infecção, reduzindo deste modo a inflamação e interrompendo a progressão de danos aos tecidos gástricos, evitando também a transmissão da bactéria.²,⁴
A persistência da H.pylori no estômago também é o principal gatilho para o surgimento de úlceras pépticas.1,2
Estima-se que cerca de 10% dos indivíduos infectados evoluam para a doença ulcerosa, que ocorre quando a agressão inflamatória supera os mecanismos de defesa da mucosa do estômago.¹
Os sintomas que sugerem a presença de uma úlcera estão frequentemente associados à dispepsia, caracterizada por dor na boca do estômago (epigastralgia), sensação de queimação, náuseas e saciedade precoce.²
As complicações mais graves incluem sangramentos no estômago e a perfuração gástrica, situações de emergência que exigem intervenção hospitalar imediata. O tratamento de erradicação da H. pylori é altamente eficaz para reduzir o risco de recorrência, fazendo com que as taxas de cicatrização cheguem a 95% quando a bactéria é eliminada com sucesso.²
A infecção pela H. pylori é reconhecida como o principal fator de risco para o câncer de estômago, estando associada a aproximadamente 80% dos casos de tumores gástricos malignos.²
A bactéria é classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um carcinógeno de Grupo I, pois sua presença prolongada pode desencadear a “cascata de Correa”: um processo inflamatório que transforma a mucosa saudável em gastrite crônica, evoluindo para atrofia gástrica, metaplasia intestinal, displasia e, finalmente, o adenocarcinoma, que é um tipo de câncer maligno.¹,²
No entanto, o Dr. Décio esclarece que nem toda pessoa infectada desenvolverá a doença. “A progressão depende da interação entre a agressividade da cepa bacteriana, a genética do paciente e fatores ambientais, como a dieta.”
A boa notícia é que o tratamento para eliminar a bactéria reduz significativamente o risco de desenvolvimento do câncer, com estudos apontando uma queda de 30% a 40% na incidência da doença em populações tratadas.²
O diagnóstico da infecção por H. pylori é classificado em dois grandes grupos: métodos invasivos e não invasivos, sendo a escolha dependente da condição clínica do paciente e da necessidade de avaliar o estado da mucosa estomacal.¹
Os exames não invasivos, como o teste respiratório e a pesquisa de antígeno fecal, são preferidos para o rastreamento inicial e confirmação da infecção, enquanto os invasivos, realizados via endoscopia, permitem biópsias para análise detalhada.¹,²
Diversos exames podem detectar a bactéria, cada um com indicações específicas. Entre os métodos invasivos, destacam-se:¹
Já entre os não invasivos, os mais utilizados na prática médica são:
A realização de uma endoscopia digestiva alta não é necessária em todos os casos. Pacientes com menos de 40 anos que apresentam sintomas gástricos leves e sem “sinais de alarme”, como perda de peso inexplicada ou histórico familiar de câncer, podem ser diagnosticados e tratados apenas com testes não invasivos.²
A endoscopia é reservada para pacientes acima de 40 anos, com sintomas persistentes ou quando há suspeita de complicações graves, como úlceras e tumores.²
O teste respiratório com ureia marcada é extremamente confiável, sendo considerado o “padrão-ouro” entre os métodos não invasivos devido à sua alta acurácia, superior a 95%. Ele é o exame de escolha tanto para o diagnóstico inicial quanto para o controle de cura após o tratamento.²
Da mesma forma, o exame de fezes para identificação de antígenos monoclonais é uma ferramenta segura e eficaz, apresentando resultados comparáveis aos do teste respiratório.²
Os exames de sangue (sorologia) ainda são utilizados, mas possuem limitações importantes. Como detectam anticorpos que podem permanecer no organismo por muito tempo, eles não conseguem distinguir se a infecção é atual ou se o paciente já foi curado no passado.²
Por isso, a sorologia não deve ser usada para confirmar o sucesso do tratamento. No entanto, ela continua sendo útil para estudos de triagem em grandes populações e em situações em que outros testes podem falhar, como em casos de sangramento digestivo ativo ou atrofia gástrica severa.²
O tratamento padrão para H. pylori consiste em uma combinação de antibióticos associados a medicamentos que reduzem a acidez do estômago, conhecidos como inibidores da bomba de prótons (IBPs) ou bloqueadores de ácidos competitivos com potássio (PCABs).1,5
Esses antibióticos são responsáveis por eliminar o microrganismo, enquanto os IBPs diminuem a produção de ácido gástrico, o que não apenas protege a mucosa inflamada, mas também potencializa a eficácia dos antibacterianos, permitindo que atuem em um ambiente menos hostil.¹
Segundo os consensos brasileiros mais recentes, a duração ideal do tratamento é de 14 dias, período necessário para garantir taxas de cura satisfatórias e combater a crescente resistência bacteriana.¹
A adesão rigorosa ao tratamento é um fator importante para o sucesso da terapia. É fundamental tomar todos os medicamentos corretamente, respeitando as doses e os horários, pois o uso irregular ou a interrupção precoce favorece o surgimento de cepas resistentes, tornando a bactéria muito mais difícil de ser eliminada futuramente.¹,²
Embora não exista uma “dieta de cura” específica, a diminuição do sal na alimentação desempenha um papel coadjuvante no tratamento e na recuperação da mucosa gástrica.¹ Alguns alimentos e bebidas envolvem compostos bioativos que podem inibir a proliferação da bactéria e reduzir a inflamação do estômago, como:¹
O uso de probióticos (como Lactobacillus e Bifidobacterium) durante o tratamento é uma estratégia adjuvante promissora, pois ajuda a reequilibrar a microbiota intestinal afetada pelos antibióticos.¹
Esses “microrganismos vivos” reduzem os efeitos colaterais comuns da terapia, como diarreia e desconforto abdominal, além de competirem com a H. pylori por espaço no estômago, o que pode elevar as taxas de sucesso na eliminação do patógeno.¹
É possível reduzir drasticamente o risco de infecção através de medidas de higiene e saneamento básico. Como a transmissão ocorre principalmente pelas vias fecal-oral e oral-oral, a lavagem rigorosa das mãos, o consumo exclusivo de água tratada e o cuidado no preparo de alimentos são as barreiras mais eficazes contra a bactéria.1,2
Melhorias relacionadas às condições de vida, como evitar a alta densidade domiciliar e o compartilhamento de utensílios ou camas (especialmente na infância) também é crucial para interromper o ciclo de disseminação familiar.²
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Conteúdo elaborado em setembro/2026
Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.
Dr. Décio Chinzon (CRM-SP 49552 | RQE 11890), gastroenterologista e endoscopista, graduado em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Doutor em Gastroenterologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). É professor da USP e atua na pós-graduação em Gastroenterologia da instituição. Ex-presidente da Sociedade de Gastroenterologia do Estado de São Paulo. Presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia no biênio 2021/22
Informações não referenciadas correspondem à opinião ou prática clínica do profissional de saúde entrevistado.
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