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Publicado em: 28 de outubro de 2026
O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, amplamente reconhecido pela sigla TDAH, é classificado como uma condição crônica do neurodesenvolvimento que afeta a regulação da atenção, do controle de impulsos e dos níveis de atividade motora. ¹
Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do TDAH, publicado pelo Ministério da Saúde do Brasil, essa condição é identificada por uma tríade clássica de sintomas que inclui a desatenção, a hiperatividade e a impulsividade em patamares que prejudicam o desenvolvimento e a funcionalidade do indivíduo em diversos contextos sociais.¹
Embora muitas vezes o senso comum associe o transtorno apenas a crianças agitadas, a ciência demonstra que os sintomas obrigatoriamente se iniciam na infância e podem persistir durante toda a vida adulta, exigindo um olhar cuidadoso para evitar quadros secundários de ansiedade e depressão.¹
Diferentemente do que muitos acreditam, o TDAH não se resume a uma simples falta de vontade ou de atenção, mas sim a um funcionamento biológico distinto em áreas específicas do cérebro. Pesquisas de neuroimagem indicam que pessoas com o transtorno possuem uma atividade reduzida no lobo frontal, região responsável pelas chamadas funções executivas.²
Essas funções atuam como o centro de comando do cérebro, gerenciando a capacidade de organizar pensamentos, planejar etapas de uma tarefa, filtrar distrações e manter o foco em objetivos de longo prazo. ²
O psiquiatra Dr. Rogério Onofre (CRM-SP 192.427 | RQE 109.401) explica que o cérebro com TDAH funciona em uma frequência de rádio diferente das demais pessoas. “O sinal de atenção só se torna nítido e estável quando a novidade ou a urgência em torno de determinado assunto é extremamente alta, o que justifica por que um paciente pode parecer distraído em uma conversa importante enquanto, por outro lado, permanece totalmente imerso em um passatempo atraente.”
Segundo o Dr. Rogério, a dopamina funciona como o combustível necessário para a ignição do motor da atenção.
“No cérebro com TDAH, esse motor simplesmente não dá partida sem um estímulo potente, o que obriga o sistema nervoso a buscar por fontes de novidade que possam elevar esses níveis químicos rapidamente”, explica.
Atividades que exigem repetição ou que possuem um caráter burocrático representam um dos maiores obstáculos para quem possui o transtorno. 1,3
O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do TDAH (Ministério da Saúde) ressalta que o TDAH se manifesta por meio de interrupções constantes e da perda de interesse prematura antes mesmo da tarefa ser concluída.¹
Segundo o Dr. Rogério, o que muitas pessoas ao redor rotulam erroneamente como “preguiça” pode, na verdade, estar relacionado a “dificuldades das funções executivas, por vezes descritas informalmente como paralisia executiva”. Ele esclarece que “o paciente sabe exatamente o que precisa fazer, mas o seu cérebro não consegue enviar o comando de partida para a execução da tarefa porque não enxerga nela a recompensa imediata necessária para sustentar o esforço”.
Embora a procrastinação seja um hábito comum 1,3, no contexto do TDAH ela pode estar relacionada a dificuldades das funções executivas, da motivação e do processamento do tempo. 1,2
“Muitas pessoas com essa condição só conseguem entrar em ação quando o prazo está prestes a expirar, pois a urgência torna a tarefa (e suas consequências) mais imediata”, acrescenta o Dr. Rogério.
Evidências mostram que esse ciclo gera um sofrimento emocional intenso, pois a pessoa se sente constantemente frustrada e sobrecarregada, o que alimenta uma autocrítica severa e prejudica a autoestima ao longo dos anos.4,5
A motivação no transtorno é movida pela novidade, pelo desafio e pela paixão imediata, o que torna a constância uma meta difícil de alcançar. A Associação Brasileira do Déficit de Atenção explica que a empolgação inicial com um novo projeto pode desaparecer de forma abrupta assim que a atividade se torna rotineira.⁶
Esse processamento emocional disfuncional pode interferir diretamente na trajetória acadêmica e profissional, já que o indivíduo pode abandonar cursos ou empregos por não conseguir sustentar o interesse em objetivos que demandam tempo para serem atingidos.⁶
Organizar o cotidiano exige capacidade de gerenciar o tempo. Essa capacidade pode estar comprometida em indivíduos com TDAH, contribuindo para esquecimentos que podem impactar diferentes aspectos da vida cotidiana,1,3 incluindo a organização doméstica e a gestão financeira ³. Algumas das principais interferências do TDAH na rotina são:
O Dr. Rogério reforça que o segredo para uma rotina funcional no TDAH é reduzir a dependência apenas da memória. “O paciente pode se beneficiar de estruturas externas de suporte, como calendários visuais espalhados pela casa e alarmes sonoros constantes, que funcionam como os auxiliares de voo que o cérebro não possui naturalmente.”
No ambiente profissional e acadêmico, as exigências de escuta passiva e reuniões longas podem ser situações de muito estresse para quem tem TDAH. A sala de aula tradicional, por exemplo, demanda silêncio e execução de instruções em várias etapas.¹
“Sem adaptações adequadas, como pausas planejadas e fragmentação de grandes projetos em pequenas metas, o risco de abandono escolar e baixa produtividade no trabalho aumenta significativamente”, ressalta o psiquiatra.
A saúde emocional é frequentemente a área mais impactada, embora receba menos atenção do que os sintomas de desatenção. A desregulação emocional faz com que o paciente sinta frustrações e irritações de forma mais intensa do que a média da população. 4,5
Além disso, há uma sensibilidade aguçada à crítica e à rejeição, o que pode levar a um estado de vigilância constante e ansiedade social, já que o indivíduo tenta esconder suas falhas de organização por medo do julgamento alheio.4,5
Segundo o Dr. Rogério, nem toda dificuldade de concentração é sinal de TDAH. O estresse e a privação de sono podem mimetizar sintomas. Para que o diagnóstico seja confirmado, os sinais precisam estar presentes desde antes dos 12 anos de idade e causar prejuízos claros em pelo menos dois âmbitos diferentes da vida, como em casa e no ambiente profissional.1
O processo de avaliação é essencialmente clínico e deve ser conduzido por médicos especialistas, como psiquiatras ou neurologistas, que utilizam entrevistas detalhadas e escalas validadas para excluir outras condições de saúde.¹
O Dr. Rogério conclui que “o sofrimento causado pelas dificuldades de regulação emocional e pela desorganização crônica pode estar entre os motivos que levam o adulto a buscar ajuda pela primeira vez”. Ele enfatiza que “o diagnóstico correto não é um rótulo limitador, mas sim a chave para entender como o próprio cérebro funciona e para começar a viver com mais leveza e funcionalidade”.
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Conteúdo produzido em julho/2026
Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.
Médico consultor: Dr. Rogério Onofre (CRM-SP 192.427; RQE 109.401), médico psiquiatra formado pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e pesquisador do Programa de Transtornos Afetivos (PRODAF), uma das frentes mais importantes do país em estudos sobre depressão resistente, bipolaridade e novas terapias como a cetamina. É também supervisor do ambulatório longitudinal da residência médica da EPM-Unifesp
Informações não referenciadas correspondem à opinião e/ou prática clínica do profissional da saúde entrevistado.
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