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Publicado em: 18 de outubro de 2022
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A cura – Heloisa Orsolini Albertotti
Eu não estava convencida do meu diagnóstico, nem os médicos. Mas me sentia melhor e tentava me concentrar em seguir a vida.
Passei esses dias em casa, lendo e praticando ioga. Estava tomando sol na varanda do apartamento quando me senti mal novamente. Perdi a visão e fiquei tonta por alguns instantes. Percebi meu braço esquerdo inchado e arroxeado novamente. “Retrombosei.” Liguei para o médico, que me pediu novos exames. Resumidamente, a massa havia crescido novamente. Eu ouvia o que ele dizia e só pensava: “Sabia”. Não estava convencida de que uma bactéria fosse capaz de fazer todo aquele estrago.
A opinião do infectologista era que seria necessário remover aquela massa em uma cirurgia. Ela tiraria três quartos do meu pulmão esquerdo — sobraria apenas um pequeno pedaço dele. Propôs uma junta médica para discutir o caso e avaliar possíveis alternativas. Infectologista, pneumologista e cirurgião torácico se reuniram para discutir o meu caso. Graças a Deus, a opinião inicial do médico foi vencida — fariam uma biópsia a céu aberto. Isso significaria uma abertura no meu peito mais profunda do que as anteriores, mas que retiraria apenas uma pequena amostra.
Eu já estava convencida de que meu caso não era dos mais comuns, e faria quantos procedimentos fossem necessários para descobrir e tratar. “Vai ficar tudo bem.” A cirurgia durou umas 4 horas. Quem já passou por uma operação sabe o caos que é o pós-operatório.
No dia 20 de dezembro de 2011 estranhei me deixarem sozinha. Passados alguns minutos, o quarto ficou cheio: entraram minha mãe, o meu marido, o infectologista e o dr. Jairo Sobrinho, o oncologista. Ele havia se retirado do caso quando a primeira biópsia apontou que não era câncer, e ver ele ali de novo era bem inesperado. “Helô, preciso conversar com você. Não é coisa boa, mas depois você vai ver que não é tão ruim assim”, disse ele, de novo com a sua mistura típica de um sorriso junto com segurança, sempre tratando todos com muito carinho.
Dr. Jairo Sobrinho
Era mesmo um linfoma. Normalmente os convênios cobrem o exame de duas amostras de uma biópsia a céu aberto nas suspeitas de câncer. Mas já tinha aceitado que o meu caso não estava entre os apresentados “normalmente”. Meu resultado só apareceu na quarta e na quinta amostras.
“A boa notícia é que a gente vai tratar e você vai ficar boa. Mas vai ser um período chato… Vamos fazer quimioterapia de três em três semanas, o cabelo vai cair, blá, blá blá, blá…“
explicava o oncologista. Nem sei até que parte escutei. Comecei a chorar. Eu achava que estava livre de tudo isso, até festinha no hospital a gente fez para comemorar o exame negativo para câncer!
E então, após duas internações e 30 dias de hospital, fui diagnosticada com um linfoma não Hodgkin de grandes células B em estágio IV. E isso significa um câncer linfático no seu estágio mais avançado.
O dr. Jairo fez o discurso com todas as recomendações:
“Sabe essa balada que fica aqui no seu quarto? Acabou, está proibida.“
Em dias próximos à quimioterapia, quando a imunidade ficaria muito baixa, eu não poderia comer alimentos crus nem mesmo em casa, muito bem higienizados. Não poderia também ter contato com ninguém com suspeita de qualquer doença, com crianças e com animais. Esse isolamento é algo muito ruim do tratamento e que choca bastante no primeiro momento.
Li uma frase que não consegui confirmar a autoria – uns dizem que é do Bob Marley, outros do Johnny Depp. “A gente nunca sabe o quanto é forte até que ser forte é a única opção.” Adianta ficar se lamentando? Mais exames chatos nos dias seguintes. Em um deles, para examinar a minha medula. Antes do exame, como sempre, o anestesista me encheu de perguntas. Ele me perguntou o motivo da biópsia e tudo que eu pensava era: “Pelo amor de Deus, alguém fala por mim!” Ainda não tinha me acostumado com a ideia de ter um linfoma, e foi muito difícil pronunciar: “Porque estou com linfoma”.
No dia 23 de dezembro fiz a primeira quimioterapia, ainda internada. Enquanto a medicação corria pela veia, recebi a visita de uma cabeleireira, que cortou o meu cabelo e fez a minha peruca. O dr. Jairo havia sugerido que eu já cortasse o meu cabelo mais curto, assim não passaria pelo “drama” de ver fios enormes caindo aos poucos.
Esta primeira quimioterapia foi a que mais me causou efeitos colaterais. Somando o período até o diagnóstico, as internações, os procedimentos, e ainda cortar o cabelo e escolher uma peruca, tudo junto, no mesmo dia. Comecei a tremer muito, e o meu marido chamou as enfermeiras. Elas entram na sala com um desfibrilador e outros equipamentos que acharam que seriam necessários para me “reanimar”. Continuava tremendo, com espasmos musculares. Não sei exatamente quanto tempo durou, e terminou porque o meu marido, por um instinto, tirou a camiseta e deitou comigo na cama, me abraçando. Ele ficou ali, abraçado comigo, até que eu me acalmasse. Aos poucos fui melhorando, percebendo que estava parando de tremer tanto. E os meus pensamentos continuavam: “Ainda bem que é comigo, ainda bem”. Depois eu soube que esse mal-estar foi uma reação esperada do medicamento, uma reação à quimioterapia.
Somando as três internações, da primeira trombose até a primeira quimioterapia, passei 41 dias no hospital. Os dias iam e vinham com muitos acontecimentos, gente entrando no quarto o tempo todo para me dar algum remédio, medir pressão, batimentos e temperatura, fazer exames, mudar o acesso venoso. Cada dia havia uma nova aventura, uma nova angústia ou alegria, dependendo dos resultados e de como estava me sentindo. Enfermeiras, médicos e o pessoal da limpeza sempre traziam alegria. Ou, se algum dia estavam mais sérios, era a gente que fazia questão de deixá-los mais contentes.
Saí do hospital no dia seguinte à primeira quimioterapia, era véspera de Natal. Desta vez não seria possível estar com todos. Pela recomendação do dr. Jairo, passamos apenas meus pais, irmãos, meu marido e eu. Embora sem ter toda a família por perto, ficamos firmes na tradição de fazer a reflexão de Natal. Eu lembrei da mensagem “Pegadas na areia”, e a li emocionada para todos.
2012 começou com a expectativa do tratamento. Dez dias da primeira quimioterapia e a minha ansiedade estava focada na espera pela queda do meu cabelo. Perguntei para o dr. Jairo se era certeza absoluta que iria cair, e ele disse que sim. Chorei e disse para ele: “O cabelo é o de menos, né?”. Para minha surpresa, ele respondeu:
“Não, o cabelo não é o de menos, e não deixe ninguém te falar isso. Eu trato pacientes com câncer há anos e afirmo que é um dos grandes traumas, especialmente para as mulheres.“
O cabelo faz parte da nossa identidade, de como a gente se vê. Quem já mudou o corte de cabelo drasticamente sabe do que estou falando. Eu estava sendo obrigada a mudar, e a minha nova imagem lembraria a todos que eu não estava gozando de saúde. Chegou 5 de janeiro. Meu aniversário. E o cabelo seguia lá. Que presente tê-lo para comemorar meus 29 anos. Eu sempre gosto de estar entre pessoas queridas, e até escolher algum presente especial. Naquele ano, só queria mais um dia com o meu cabelo.
Eu teria a próxima quimioterapia logo, e precisava fazer alguns exames antes. Fomos ao setor de oncologia do hospital para esse exame. No ambulatório, enquanto aguardava, passei a mão no cabelo. Foi a primeira vez que o senti caindo. Eram muitos fios soltos na minha mão. Como dizia meu avô,
“se é pra ir, vambora!“
Voltamos para casa e resolvi perguntar na portaria se por acaso havia algum vizinho cabeleireiro no meu prédio. E tinha. Eu não conhecia a Sheila. Interfonei no apartamento dela e perguntei se ela poderia me emprestar uma máquina de raspar a cabeça. Expliquei brevemente a minha situação. Tempos depois, ela me contou que tinha depressão, e que recebeu minha ligação como um sinal. Minha história deu a ela alguma força para se levantar.
Para mim, uma peruca nunca seria como o meu cabelo. Ter que tirar na hora de tomar banho, por exemplo, me faria sofrer todas as vezes. Não queria me enganar. Troquei a peruca pelo lenço. Tinha vários, todos estampados. As pessoas sempre me dizem que não sabiam que eu estava doente, parecia um acessório estiloso.
Confesso que eu estava querendo muito deixar de ser modelo. E o câncer, ainda que não da melhor forma possível, me permitiu assumir isso. Um dos primeiros pontos positivos que consegui enxergar ao ter meu diagnóstico foi essa liberdade de abrir mão daquela profissão antes de ter estruturado uma transição de carreira que trouxesse alguma segurança profissional e financeira, algo que sempre me preocupava. O foco agora precisava ser o meu cuidado. A relação com aqueles que eu amo ficou mais intensa e necessária do que sempre foi, mas, excluindo isso, era como se qualquer outro aspecto da minha vida fosse menos importante.
Meus dias passaram a ter outra dinâmica.
O meu calendário era baseado nas datas de quimioterapia e exames. A queda na imunidade, efeito do tratamento, me obrigava a viver períodos de um certo isolamento social. Por isso eu precisava evitar aglomerações, não podia comer fora de casa e nem ficar perto de pessoas doentes. Não podia também fazer as unhas ou qualquer tratamento estético, como massagens. Beijos, abraços e aperto de mão em qualquer pessoa além do meu marido e meus familiares mais próximos que tivessem certeza que estavam saudáveis eram proibidos. E eu cheirava a álcool em gel. Este livro está sendo escrito exatamente durante a pandemia de COVID-19. Todos sabem o que significa ter medo a cada saída e como é sentir que a sua vida está em pausa, que o tempo não passa, que os dias são iguais e que a vida é tão frágil. Hoje, todos sabem como é contar os dias.
Depois de várias idas do meu marido sozinho ao supermercado, resolvi que precisava ir junto. Além de gastar mais do que eu, vira e mexe ele esquecia de alguma coisa (menos da cerveja e do chocolate). Ele queria que eu colocasse máscara, mas eu não me sentia confortável. Então ele fez eu cobrir meu rosto com parte do meu lenço. Atraímos muitos olhares, e isso foi suficiente para darmos muitas risadas!
Os exames e as quimioterapias acabavam movimentando os meus dias. E, claro, tinha os dias de menos disposição e de enjoos. Durante o tratamento, eu tomava muita cortisona nos cinco dias posteriores a cada sessão de quimioterapia. Isso me deixava um pouco inchada, o que melhorava naturalmente nos dias seguintes.
Acredito muito que o fato de eu sempre ter cuidado para ter uma alimentação equilibrada, praticado exercícios e meditação desde muito cedo na minha vida não foi capaz de impedir que eu tivesse câncer, mas com certeza possibilitou que eu passasse muito melhor por todo o tratamento.
Existem alguns truques que as pessoas usam para minimizar os enjoos, e eu usei vários deles, mas nenhum é mágico. Chupar gelo, tomar picolé de limão, gengibre, água com gás bem gelada, chás… poucas pessoas mencionam a respiração, mas ela também ajuda muito. Quando sentimos enjoo tendemos a segurar um pouco a respiração. Prestar atenção nisso e liberar, trazendo de volta o ritmo, costuma ajudar. Corpo, mente e espírito são uma coisa só, e, quanto mais rápido entendemos isso, melhor.Conheça um pouco mais dessa trajetória!
@hoalbertottihoalbertotti.com.br/quem-sou/
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