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Riscos da automedicação: o que é preciso saber?

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Todo mundo, com o passar do tempo, acumula em casa medicamentos dos mais diversos tipos e com as mais variadas finalidades. Esse é um hábito incontornável não só entre os brasileiros, mas em muitas partes do mundo.

Só que essa “farmacinha” nem sempre é composta apenas por medicamentos isentos de prescrição, ou seja, que podem ser comprados sem receita. Com isso, os riscos da automedicação são uma constante, devido ao consumo desses remédios sem a devida orientação de um médico.

Com isso em mente, vale refletir sobre o que leva à automedicação, quais motivos explicam a sua prática crescente, inclusive no Brasil, e quais os riscos a falta de racionalidade no consumo de remédios traz não só para você, mas para a sociedade como um todo. Acompanhe para entender.

Afinal, o que define a automedicação?

Na prática, é possível definir a automedicação como a iniciativa de ingerir remédios (incluindo ervas ou soluções caseiras) por conta própria ou com o aconselhamento de outra pessoa sem que para isso tenha havido a intervenção de um médico.1

Em geral, as fontes da indicação indevida podem ser amigos e parentes, a partir das sobras de prescrições anteriores ou até mesmo de anúncios na TV, na internet ou em qualquer outro meio de comunicação.1 Parte do que alimenta a automedicação pode ser explicada pela busca rápida e barata do alívio de desconfortos tidos, em tese, como comuns.1

Esse tipo de prática está alinhada à facilitação ao acesso de medicamentos, inclusive aqueles que só deveriam ser disponibilizados mediante a apresentação de receita. No mais, isso também envolve o crescente número de drogarias e farmácias que não adotam condutas consideradas profissionalmente éticas e responsáveis, contornando o que prevê a legislação do segmento.2

Com isso, cada vez mais a automedicação vem se tornando um problema grave de saúde pública.2

Quais fatores levam à automedicação e por que ela cresce tanto no Brasil?

Riscos da automedicação: o que é preciso saber?

A dimensão de como a automedicação é um hábito amplamente disseminado pode ser vista por meio de números. Uma pesquisa feita pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF), em parceria com o Instituto Datafolha, revelou que 77% dos brasileiros que utilizaram medicamentos nos últimos seis meses têm o hábito da automedicação.3

O estudo também identificou um cenário além, envolvendo medicamentos já prescritos. Nesse caso, os entrevistados revelaram que, mesmo após passarem por uma consulta, receberem diagnóstico e prescrição, alteram a forma como tomam os medicamentos, modificando a dose recomendada.3

Tal comportamento foi mencionado por 57% dos participantes, com destaque para homens (60%) e jovens de 16 a 24 anos (69%). A principal modificação na posologia consistiu na redução da dose de pelo menos um dos medicamentos prescritos (37%).3

Entre as justificativas apresentadas, a sensação de que o medicamento causou efeitos adversos ou a percepção de que a doença já estava controlada foram as razões mais comuns. Além disso, 17% apontaram o custo elevado do medicamento como motivo para essa prática.3

A pesquisa também revelou os medicamentos mais frequentemente utilizados pelos brasileiros nos últimos seis meses. Chama a atenção o elevado índice de consumo de antibióticos, atingindo 42%, sendo superado apenas pelo percentual registrado para analgésicos e antitérmicos, que alcançou 50%. Em terceiro lugar, destacam-se os relaxantes musculares, com uma taxa de utilização de 24%.3

Como qualquer outro problema de saúde pública, a automedicação tem múltiplas causas. É comum, por exemplo, que nos países em que o acesso a serviços de saúde seja deficitário ou demande muito financeiramente o atendimento na farmácia seja a única forma e a mais fácil de receber suporte para uma série de condições.2

Além disso, é simples obter por conta própria informações sobre qualquer medicamento por meio da internet. O que deveria ser um espaço de consulta e esclarecimento acaba se transformando em um motor para a automedicação.

Quais são os riscos da automedicação?

Como não poderia deixar de ser, a automedicação dá margem para uma série de efeitos adversos, quase sempre maiores e mais graves do que os problemas que tentava solucionar. Entre os riscos mais frequentes estão:1

  • autodiagnostico incorreto;
  • deixar de procurar ajuda médica com maior prontidão;
  • escolha indevida do medicamento;
  • incapacidade de compreender os riscos da ingestão de cada medicamento;
  • possibilidade de eventos adversos graves, mesmo com medicamentos isentos de prescrição;
  • incapacidade de identificar contraindicações ou precauções necessárias antes de ingerir qualquer medicamento;
  • incapacidade de reconhecer se um mesmo princípio ativo está sendo ingerido em quantidade inapropriada devido à combinação de medicamentos diferentes;
  • não saber relatar ao médico posteriormente quais medicamentos tomou;
  • incapacidade de identificar eventos adversos;
  • ingestão por via inadequada (tomar um remédio que deveria ser aplicado na pele, por exemplo);
  • uso prolongado e excessivo, tanto na dose quanto no tempo;
  • risco de abuso ou dependência;
  • risco de interações medicamentosas (ou seja, de misturar remédios);
  • risco de ingerir medicamentos vencidos ou armazenados de forma incorreta.

Além de todos esses aspectos, algumas classes de medicamentos merecem atenção especial, já que seu uso desenfreado sem a devida orientação médica pode trazer prejuízos para toda a sociedade. É o caso dos antibióticos, por exemplo.

O uso sem necessidade ou de forma incorreta de medicamentos dedicados a controlar infecções bacterianas pode incentivar o desenvolvimento de cepas resistentes aos antibióticos disponíveis. Com isso, muitos tratamentos hoje eficazes podem ficar comprometidos devido ao surgimento de microrganismos super resistentes.4

Ainda na lista de riscos da automedicação, tal hábito pode mascarar sintomas de problemas graves e, tão sério quanto, gerar quadros de intoxicação. Ou seja, a automedicação é quase sempre uma “solução” em que os riscos superam os benefícios.

Como evitar esse tipo de problema?

Do mesmo modo que a automedicação tem diversas causas para começar, evitá-la também pode resolver uma série de gargalos. Médicos, por exemplo, devem ser claros e transparentes a respeito dos riscos de cada medicação prescrita, bem como informar de forma objetiva para o que ela está sendo indicada e qual a forma correta de ingeri-la.1

O farmacêutico também pode contribuir com essa tarefa, fornecendo informações importantes sobre como os medicamentos devem ser utilizados. Os pacientes, por sua vez, devem entender os riscos dessa prática e procurar fontes confiáveis para esclarecer dúvidas, incluindo nisso esses profissionais de confiança acima citados.

No final das contas, a automedicação é um problema sensível. Ao mesmo tempo que ela expõe o bem-estar a diversos riscos, ela é resultado de uma série de fatores que precisam ser encarados por todos. Com o reforço na conscientização e no acesso ao suporte de saúde necessário, o uso irracional de medicamentos deve perder espaço.

Referências

1. Bennadi D. Self-medication: A current challenge. J Basic Clin Pharm. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4012703/>. Acesso em 23 de fev. de 2023.

2. Arrais PSD, Coelho HLL, Batista M do CDS, Carvalho ML, Righi RE, Arnau JM. Perfil da automedicação no Brasil. Rev Saúde Pública [Internet]. 1997Feb;31(1):71–7. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0034-89101997000100010>. Acesso em 11 de dez. de 2023.

3. Conselho Federal de Farmácia. Pesquisa aponta que 77% dos brasileiros têm o hábito de se automedicar. CRF SP. Disponível em: <https://www.crfsp.org.br/noticias/10535-pesquisa-aponta-que-77-dos-brasileiros-t%C3%AAm-o-h%C3%A1bito-de-se-automedicar.html> Acesso em 11 de dez. de 2023.

4. Organização Pan-Americana da Saúde. Resistência antimicrobiana. Disponível em: <https://www.paho.org/pt/topicos/resistencia-antimicrobiana>. Acesso em 23 de fev. de 2023.