Scroll

A acne costuma aparecer na adolescência, mas pode persistir por anos e até continuar na vida adulta. Além de uma questão estética para muitos, ela é considerada uma doença inflamatória da pele ligada a alterações hormonais, produção excessiva de oleosidade, proliferação bacteriana e processos inflamatórios. Em alguns casos, melhora por um período e depois retorna, o que gera frustração e dúvidas frequentes sobre as verdadeiras causas do problema.¹,²

Segundo o Ministério da Saúde, a acne ocorre quando as glândulas sebáceas ficam inflamadas ou infectadas, provocando cravos, espinhas, cistos, caroços e cicatrizes. As lesões aparecem principalmente no rosto, peito e costas, regiões que concentram maior número de glândulas produtoras de sebo.¹

Dados publicados na Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade mostram que a acne comum afeta entre 85% e 100% da população em algum momento da vida. Embora o pico seja mais comum na adolescência, cerca de 50% das pessoas podem continuar apresentando a condição na idade adulta.³

“O retorno da acne geralmente acontece porque os fatores que favorecem a doença continuam ativos no organismo. Mesmo quando as lesões melhoram, a tendência à oleosidade, a influência hormonal e a inflamação da pele podem permanecer”, explica a dermatologista Dra. Letícia Secco (CRM-SP 104.212; RQE 25.079).

close-up do rosto de uma mulher jovem branca, ressaltando a pele com acne

O que acontece na pele quando a acne aparece?

A acne é resultado de um processo complexo que envolve diferentes mecanismos no folículo pilossebáceo, estrutura de onde nascem os fios e que produz o sebo que lubrifica o pelo e a pele. Estudos apontam quatro fatores principais relacionados ao surgimento das lesões:³,

  • Produção excessiva de sebo pelas glândulas sebáceas: o excesso de oleosidade favorece a proliferação bacteriana e cria um ambiente propício para a inflamação.
  • Alterações na queratinização da pele: as células mortas passam a se acumular dentro dos poros, formando os chamados microcomedões, que originam cravos e espinhas.
  • Proliferação bacteriana: a bactéria Cutibacterium acnes, que vive naturalmente na pele e se alimenta de sebo, se prolifera em excesso dentro do folículo e estimula a inflamação.
  • Processo inflamatório: o organismo reage às alterações da pele liberando mediadores inflamatórios, o que provoca vermelhidão, dor e inchaço.

Por que algumas pessoas têm acne por tantos anos?

A predisposição genética é um fator importante. O Ministério da Saúde explica que filhos de pais que tiveram acne possuem maior chance de desenvolver o problema. No entanto, pessoas sem histórico familiar também podem apresentar pele acneica.¹

As alterações hormonais têm papel central nesse processo. A acne costuma surgir com mais frequência na puberdade porque os hormônios androgênicos, responsáveis pelo desenvolvimento de características masculinas em homens e pela regulação de funções metabólicas em ambos os sexos, estimulam as glândulas sebáceas a produzir mais óleo. Em mulheres, oscilações hormonais relacionadas ao período menstrual também podem agravar o quadro.³,

A acne é considerada uma doença crônica. Isso significa que ela pode passar por fases de melhora e piora ao longo do tempo. Publicações científicas apontam que a manutenção terapêutica costuma ser necessária para reduzir o risco de recidiva.⁴

 Acne recorrente nem sempre significa tratamento errado

Muitas pessoas acreditam que o tratamento falhou quando as espinhas voltam a aparecer. No entanto, especialistas explicam que a melhora costuma ser gradual e que algumas terapias levam semanas para apresentar resultado visível. Em alguns casos, a melhora das lesões pode demorar várias semanas após o início do tratamento e a pele pode até apresentar piora temporária no começo.³

Outro ponto importante é a adesão ao tratamento. A interrupção precoce dos cuidados favorece o retorno das lesões.³,

“Um erro comum é abandonar o tratamento quando a pele melhora parcialmente. Por ser uma doença crônica, o controle contínuo da acne é necessário para evitar novas crises”, explica a dermatologista.

Quais os diferentes tipos de acne?

A acne pode se manifestar de formas variadas e com diferentes níveis de gravidade.¹,⁵

De maneira geral, os quadros podem ser classificados como leves, moderados ou graves, conforme o tipo de lesão, a intensidade da inflamação e o risco de cicatrizes.

Acne leve

A acne leve é caracterizada principalmente pela presença de cravos, sem inflamação importante. Esse quadro pode incluir também pequenas espinhas com inflamação discreta e presença de pus. As lesões surgem pelo acúmulo de oleosidade e células mortas que obstruem os poros.1,3,5

O tratamento costuma focar no controle da oleosidade e na prevenção da obstrução dos folículos, com limpeza suave da pele, uso de sabonetes específicos para pele acneica e medicamentos tópicos, como retinoides, ácido salicílico e ácido azelaico.1,3,5

Também podem ser indicados tratamentos tópicos com ação anti-inflamatória e antibacteriana, além de géis dermatológicos prescritos por dermatologistas para ajudar no controle das lesões inflamatórias.¹,³,⁵

Acne moderada

Na acne moderada, as lesões tornam-se mais profundas, dolorosas e inflamadas, com formação de cistos (espinhas internas). Nessa fase, o risco de cicatrizes aumenta significativamente.2,5

O tratamento geralmente exige acompanhamento dermatológico contínuo e pode incluir a associação de medicamentos tópicos e terapias por via oral, dependendo da intensidade do quadro.²,³,⁵

Acne grave

A acne grave se caracteriza pela presença de grandes lesões inflamatórias interligadas, com elevado risco de cicatrizes. As lesões podem causar dor e deformidades importantes na pele.1,3,5

Em sua forma mais intensa, trata-se de uma condição rara associada a febre, dores articulares e inflamações intensas, que pode provocar complicações importantes e estar relacionada a quadros sistêmicos. Nesses casos, o tratamento deve ser realizado exclusivamente com acompanhamento médico especializado, com terapias medicamentosas individualizadas, controle rigoroso da inflamação e monitoramento constante do paciente para reduzir sequelas permanentes.¹,³,⁵

As formas mais graves podem deixar cicatrizes permanentes e gerar impactos emocionais importantes, incluindo baixa autoestima, ansiedade e isolamento social.⁵

Jovem com uma toalha enrolada na cabeça olha-se no espelho, usando os dedos para pressionar uma espinha ou acne na região do queixo

Mitos e gatilhos que ainda geram dúvidas sobre a acne

A relação entre alimentação e acne ainda desperta discussão, mas estudos citados na publicação da Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade apontam uma associação entre o agravamento do quadro acneico e dietas ricas em alimentos que elevam rapidamente os níveis de glicose no sangue, como carboidratos.³

Já a ideia de que acne acontece por “falta de higiene” não encontra respaldo científico. A limpeza excessiva pode até irritar a pele e piorar os sintomas.³

Entre os fatores que podem influenciar crises ou agravamentos estão: ³

  • Estresse intenso
  • Alterações hormonais
  • Uso inadequado de produtos oleosos
  • Interrupção precoce do tratamento

Outro fator de agravamento é a manipulação frequente das lesões, em geral quando se tenta espremer as espinhas.

A Dra. Letícia explica que quando a espinha é manipulada ou espremida, principalmente com unhas ou objetos, “bactérias podem entrar na corrente sanguínea e eventualmente causar infecções mais graves, como celulite facial. Por isso, durante processos inflamatórios, é fundamental evitar espremer as lesões ou realizar procedimentos agressivos na pele”, complementa a médica.

O tratamento precisa ser individualizado

O tratamento depende do grau da acne e das características de cada paciente. O Ministério da Saúde recomenda avaliação dermatológica para definir a melhor estratégia, que pode incluir medicamentos tópicos, terapias orais e cuidados contínuos com a pele.¹

Entre as recomendações mais frequentes estão¹,³,

  • Lavar o rosto com produtos suaves: a limpeza ajuda a remover excesso de oleosidade sem agredir a pele.
  • Evitar manipular cravos e espinhas: isso reduz o risco de inflamação e cicatrizes.
  • Utilizar produtos não comedogênicos: cosméticos inadequados podem obstruir os poros.
  • Manter acompanhamento dermatológico: a reavaliação periódica ajuda a ajustar o tratamento conforme a evolução do quadro.

Além das opções tradicionais, a Dra. Letícia conta que alguns medicamentos dermatológicos tópicos podem ser indicados para controle da acne e da inflamação. Esses produtos atuam reduzindo a obstrução dos poros e auxiliando no controle das lesões inflamatórias. “Os tratamentos em gel costumam ser bastante utilizados porque conseguem agir diretamente na área afetada. A escolha depende do tipo de acne, da sensibilidade da pele e da presença de inflamação”, explica.

Quando procurar ajuda médica?

Especialistas reforçam que a acne não deve ser encarada apenas como uma condição estética. Casos persistentes, dolorosos ou que deixam cicatrizes precisam de avaliação profissional.¹,³

Também é importante buscar orientação quando há piora rápida das lesões, falha após tratamentos prévios ou impactos emocionais importantes relacionados à aparência da pele.³

Embora seja extremamente comum, a acne possui causas complexas e pode exigir acompanhamento prolongado. A boa notícia é que existem diferentes abordagens terapêuticas disponíveis e o tratamento precoce pode reduzir tanto a recorrência quanto o risco de marcas permanentes.¹,

Conteúdo elaborado em agosto/2026

Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.

Dra. Letícia Secco (CRM-SP 104212; RQE 25079), médica dermatologista e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

Referências

  1. Brasil. Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) do Ministério da Saúde. Como fazer tratamento da acne na atenção primária [Internet]. Brasília: BVS Atenção Primária em Saúde; [acesso em 17 de ago 2026]. Disponível em: https://aps-repo.bvs.br/aps/como-fazer-tratamento-da-acne-na-atencao-primaria-2/
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Proteger e cuidar da saúde de adolescentes na atenção básica [recurso eletrônico]. Brasília: Ministério da Saúde; 2017. 234 p. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-do-adolescente/saude-sexual-e-reprodutiva/ferramentas/saude_adolecentes.pdf/%40%40download/file  
  3. Gonçalves G, Oliveira A, Monteiro C. Acne vulgar diagnóstico e manejo pelo médico de família e comunidade. Rev Bras Med Fam Comunidade [Internet]. 2013 [Acesso em 26 Mai 2026]. Disponível em: https://rbmfc.org.br/rbmfc/article/download/754/600/0
  4. Costa A, Alchorne MMA, Goldschmidt MCB. Fatores etiopatogênicos da acne vulgar. An Bras Dermatol [Internet]. 2010 [Acesso em 26 Mai 2026]. Disponível em: https://docs.bvsalud.org/biblioref/2018/05/884077/2010_205.pdf
  5. Reynolds RV, Yeung H, Cheng CE, Cook-Bolden F, Desai SR, Druby KM, Freeman EE, Keri JE, Stein Gold LF, Tan JKL, Tollefson MM, Weiss JS, Wu PA, Zaenglein AL, Han JM, Barbieri JS. Guidelines of care for the management of acne vulgaris. J Am Acad Dermatol. 2024 May;90(5):1006.e1-1006.e30. doi: 10.1016/j.jaad.2023.12.017. Epub 2024 Jan 30. Erratum in: J Am Acad Dermatol. 2026 Jul;95(1):347. doi: 10.1016/j.jaad.2026.04.009. PMID: 38300170.