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A enxaqueca é uma condição neurológica bastante comum. Segundo algumas estimativas, cerca de um bilhão de pessoas são afetadas no mundo por esse problema.1,2 Mesmo assim, há aspectos ainda pouco conhecidos dessa doença crônica.

Associamos a enxaqueca quase que exclusivamente à dor de cabeça, mas essa doença apresenta um quadro clínico muito mais amplo¹.

Os sintomas menos conhecidos da enxaqueca incluem manifestações que vão além da dor e podem surgir em diferentes fases da crise, muitas vezes sem serem identificados como parte do problema.¹

Isso, segundo o neurologista Dr. Luiz Betting (CRM-SP 94965; RQE 25938), se deve à “˜falta de conhecimento, tanto por parte dos pacientes quanto dos profissionais de saúde, de que esses sintomas existem ou podem estar relacionados à enxaqueca”.

No entanto, esses sinais podem ser mais frequentes do que se imagina. Um estudo publicado em 2022, que acompanhou 225 pacientes com enxaqueca, mostrou que 99% dos pacientes relataram ao menos um sintoma não relacionado diretamente à dor de cabeça em alguma fase da crise.²

Conheça quais são os sinais e sintomas comuns e incomuns da enxaqueca:

Entendendo melhor as fases da enxaqueca

Segundo explica o Dr. Luiz, a dor de cabeça da enxaqueca difere significativamente de outros tipos de cefaleia, podendo ser unilateral e pulsátil, a ponto de incapacitar o paciente para suas atividades cotidianas.

Essa característica, ele diz, ajuda a diferenciar a enxaqueca de outras dores de cabeça, mas não explica, sozinha, tudo o que a pessoa pode sentir durante uma crise.2

O ataque de enxaqueca é classicamente dividido em quatro fases: pródromo, aura, dor de cabeça e pós-dromo. Sintomas não relacionados à dor de cabeça podem surgir antes do início da dor em si ou persistir mesmo após o fim de uma crise².

Antes da dor começar: quais são os sinais premonitórios da enxaqueca?

Os sinais premonitórios da enxaqueca, também chamados de sintomas do pródromo, são aqueles que podem surgir horas ou até dias antes da dor de cabeça. Eles antecedem a crise propriamente dita e, em algumas pessoas, funcionam como um aviso claro de que o episódio de enxaqueca está prestes a começar.¹

Apesar de frequentes, esses sintomas ainda são pouco reconhecidos. A sua prevalência tende a ser subestimada porque muitos pacientes e profissionais de saúde não os associam à enxaqueca ou os interpretam de forma equivocada como gatilhos da crise, e não como parte do próprio quadro neurológico.¹ “São confundidos com causas das crises de enxaqueca, e não entendidos como parte da condição”, esclarece o Dr. Luiz.

Durante essa fase inicial, os sintomas podem envolver alterações cognitivas e de humor, fadiga, mudanças no estado de alerta, alterações no funcionamento do organismo e aumento da sensibilidade sensorial.¹ Muitos pacientes relatam:²

  • Alterações de humor
  • Irritabilidade
  • Dificuldade de concentração
  • Desejo intenso por determinados alimentos
  • Bocejos frequentes
  • Sensibilidade aumentada à luz e ao som
  • Sintomas autonômicos cranianos (como lacrimejamento)
  • Rigidez no pescoço

Entre esses sinais, um estudo indicou que a rigidez no pescoço é o sintoma não relacionado à dor de cabeça mais frequentemente dessa fase. Ainda assim, vale destacar que sintomas além da dor podem surgir em qualquer fase da crise de enxaqueca e, em alguns casos, estar presentes ao longo de todo o episódio.²

Enxaqueca com aura: sintomas neurológicos antes da dor

Outra manifestação que pode anteceder a dor de cabeça característica da enxaqueca é a chamada aura. A enxaqueca com aura é um tipo comum de enxaqueca e afeta até 30% das pessoas que convivem com a doença³.

Ela se caracteriza por alterações neurológicas temporárias, que aparecem principalmente na forma de sintomas visuais, mas também podem envolver alterações sensoriais, da fala, motoras e relacionadas ao tronco cerebral.³

Esses sintomas costumam surgir antes da fase de dor de cabeça, funcionando como um sinal de alerta para a crise. No entanto, a dor pode começar durante a aura ou, em alguns casos, a aura pode se manifestar após o início da dor.³

Na enxaqueca com aura típica, os sintomas incluem alterações visuais, sensoriais e da linguagem, sem presença de fraqueza motora. Eles surgem de forma gradual, duram no máximo uma hora e são totalmente reversíveis. O sintoma mais comum é a alteração visual, presente em mais de 90% das pessoas com esse tipo de enxaqueca.³

Outros sintomas relacionados à aura incluem:³

  • Formigamento unilateral no rosto ou no braço
  • Alterações da fala
  • Dificuldade na produção da linguagem
  • Troca ou esquecimento de palavras

Em uma parcela menor dos casos, os sintomas da aura podem ter origem no tronco cerebral, que controla funções como equilíbrio, audição e fala³, “causando sintomas como tontura, vertigem, zumbidos e visão dupla”, completa o neurologista.

Outros sintomas pouco conhecidos da enxaqueca

Na fase da crise em que a dor de cabeça toma conta, outros sintomas também podem estar envolvidos. É possível sentir náusea, vômitos e sensibilidade aumentada à luz e ao som.²

Ainda durante a fase de dor, a dificuldade de concentração se destaca como um dos sintomas secundários mais frequentemente relatados pelos pacientes. Esse comprometimento cognitivo pode dificultar tarefas simples do dia a dia e contribuir para a sensação de incapacidade associada à enxaqueca.²

Após o fim da fase mais intensa da dor de cabeça, muitos pacientes relatam a fadiga como sintoma mais prevalente.² “Um sentimento de exaustão após um momento intenso”, relata o médico.

Além dela, outros sintomas podem persistir por até 24 horas após o alívio da dor, como hipersensibilidade sensorial, dificuldade de concentração, alterações de humor e rigidez no pescoço.²

Por que entender os sintomas menos conhecidos da enxaqueca é tão importante?

Os sintomas da enxaqueca que vão além da dor de cabeça têm um papel direto no impacto da doença e no grau de incapacidade que ela provoca.² “Esses sinais contribuem de forma significativa para a limitação funcional causada pelas crises e ajudam a explicar por que a enxaqueca pode afetar tanto a vida cotidiana dos pacientes”, afirma o Dr. Luiz.

Pessoas que apresentam crises frequentes e sintomáticas de enxaqueca tendem a ter pior qualidade de vida e maior prejuízo em áreas como trabalho, estudos e vida familiar. Além disso, pacientes com maior quantidade de sintomas não relacionados à dor geralmente são aqueles com crises mais frequentes e que necessitam de maior uso de tratamentos agudos, o que aumenta o risco de uso excessivo de medicamentos.²

Por isso, segundo o médico, conhecer os sintomas menos conhecidos da enxaqueca permite um cuidado mais direcionado, que pode incluir o uso de medicamentos, com orientação médica, para aliviar a dor e os demais sintomas da crise. “Compreender esse leque mais amplo de sintomas é fundamental para encontrar maneiras de evitar estímulos e situações que podem acentuar o impacto das crises”, completa o médico.

Referências

  1. Karsan N, Goadsby PJ. Biological insights from the premonitory symptoms of migraine. Nat Rev Neurol. 2018;14(12):699-710.
  2. Messina R, Cetta I, Colombo B, Filippi M. Tracking the evolution of non-headache symptoms through the migraine attack. J Headache Pain. 2022;23(1):149.
  3. Joppeková Ľ, Pinto MJ, da Costa MD, Boček R, Berman G, Salim Y, et al. What does a migraine aura look like?—A systematic review. J Headache Pain. 2025;26(1):149.