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boa amamentação também melhora a saúde respiratória

Se você está esperando um bebê ou está lendo este texto com o seu pacotinho no colo, já deve ter ouvido falar sobre os benefícios da amamentação.

Mas talvez ainda não saiba que, além de fortalecer o vínculo entre mãe e filho, proteger contra doenças e contribuir para o desenvolvimento do bebê¹, amamentar também pode influenciar a saúde respiratória da criança².

A recomendação do Ministério da Saúde é amamentar exclusivamente nos primeiros seis meses e, sempre que possível, continuar com o aleitamento materno até os dois anos de idade ou mais¹.

Entre os muitos benefícios da amamentação, estão a proteção contra infecções, alergias e diarreias, a redução do risco de doenças crônicas como obesidade e diabetes, além da melhora no desempenho cognitivo da criança¹.

Para a mãe, a prática reduz o risco de hemorragia no pós-parto e de câncer de mama, ovário e colo do útero.¹ O que talvez cause surpresa é que o simples ato de mamar no peito tem impacto direto também na forma como a criança respira. E isso pode afetar positivamente sua saúde de forma duradoura

Amamentação e saúde respiratória: qual é a relação?

A amamentação é um fator de proteção importante para a saúde respiratória. Crianças amamentadas por mais de 12 meses apresentam 41% menos chance de desenvolver respiração bucal. Entre as que mamam por mais de 24 meses, a redução do risco é de 34%.²

A constatação é de um estudo publicado em 2021 que analisou dados de sete bases científicas para investigar a relação entre o tipo de alimentação nos primeiros anos de vida e o desenvolvimento da respiração bucal em crianças.²

Outro trabalho, publicado no Jornal de Pediatria, já demonstrava a relação. O trabalho identificou que o uso de mamadeiras e hábitos de sucção não-nutritiva, como o uso prolongado de chupetas, mostraram associação com maior prevalência de respiração bucal

Em contrapartida, quanto maior a duração do aleitamento materno exclusivo, maior a chance de a criança manter o padrão saudável de respiração pelo nariz

“A amamentação estimula uma série de funções orofaciais fundamentais. É uma ação mecânica que fortalece os músculos da face, favorece o crescimento adequado da mandíbula e promove uma respiração nasal funcional”, explica Dr. Maura Neves, otorrinolaringologista (CRM 97446).

 O que é respiração bucal e por que ela preocupa?

A respiração bucal acontece quando a criança passa a respirar mais pela boca do que pelo nariz. Isso pode acontecer por obstruções nas vias aéreas, mas também por hábitos adquiridos precocemente, como o uso de mamadeiras e chupetas em excesso ou pela ausência de estímulo adequado proporcionado pela amamentação.3-4

Estudos mostram que a respiração bucal pode trazer impactos importantes para o desenvolvimento da criança. Uma pesquisa de 2018 mostrou que 85% das crianças que respiravam pela boca apresentavam alterações no sistema estomatognático, que envolve funções como mastigação, deglutição, fala e respiração. Entre as principais alterações observadas estavam: mordida aberta (40%), mordida cruzada (37%), deglutição atípica (22%) e palato profundo (11%).4

Essas alterações estão diretamente ligadas à forma como a criança respira e, em muitos casos, poderiam ter sido prevenidas com hábitos mais saudáveis durante os primeiros meses de vida4. “A amamentação exclusiva oferece o estímulo necessário para o crescimento facial e o desenvolvimento das funções orais. Quando esse processo é interrompido antes do tempo, aumentam as chances de a criança adotar uma respiração pela boca”, destaca a Dr. Maura Neves.

 A amamentação fortalece os pulmões?

Além do impacto na formação facial, um estudo publicado em 2007 sugere que a amamentação também contribui para a formação dos pulmões. O trabalho, realizado por pesquisadores da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, analisou o tempo de aleitamento materno e a introdução de fórmulas infantis, e mediu a capacidade pulmonar das crianças aos 11 e aos 16 anos.5

Os resultados mostraram que crianças amamentadas por mais tempo apresentaram melhor crescimento pulmonar. O volume expiratório forçado (FVC), indicador da função pulmonar, foi significativamente maior aos 16 anos naquelas que tiveram aleitamento mais prolongado: cerca de 103 ml a mais em comparação com crianças alimentadas com fórmula.5

Segundo os autores, o leite materno contém substâncias como citocinas e hormônios que podem estimular o desenvolvimento dos alvéolos pulmonares e a produção de elastina, uma proteína essencial para o bom funcionamento dos pulmões. 5

 A amamentação pode ajudar a prevenir a asma?

Pesquisadores canadenses também buscaram uma resposta para essa pergunta acompanhando 2.773 bebês até o primeiro ano de vida. A conclusão foi clara: quanto mais longa e exclusiva foi a amamentação, menor foi a ocorrência de chiado no peito, um dos principais sintomas relacionados à asma.6

A proteção foi ainda mais evidente entre bebês cujas mães tinham asma. Nesse grupo, os que foram amamentados exclusivamente por seis meses tiveram redução de 62% na incidência de chiado no peito, em comparação com os que não foram amamentados. Mesmo entre bebês cujas mães não eram asmáticas, o efeito protetor da amamentação também foi observado, com queda de 26% nos casos.6

Um direito e um investimento na saúde respiratória

O leite materno é o melhor alimento que um bebê pode ter. É completo, nutritivo e protege o organismo de infecções. Amamentar é também um direito assegurado por lei. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é dever do governo, instituições e empregadores garantir condições para o aleitamento materno.7

Amamentar por mais tempo traz benefícios duradouros para a saúde respiratória das crianças, e isso precisa ser valorizado em todos os níveis.

Oferecer o peito é muito mais do que alimentar: é cuidar da respiração, do desenvolvimento e do futuro do bebê. É um gesto de amor que começa no colo e se estende por toda a vida.

Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Aleitamento Materno [Internet]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/ptbr/assuntos/saude-de-a-az/a/aleitamentomaterno Acesso em 06 ago.2025
  2. Savian CM, Bolsson GB, Botton G, Antoniazzi RP, de Oliveira Rocha R, Zanatta FB, Santos BZ. Do breastfed children have a lower chance of developing mouth breathing? A systematic review and meta-analysis. Clin Oral Investig. 2021 Apr;25(4):1641-1654. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33506425 Acesso em 06.08.2025
  3. Lopes TS, Moura LF, Lima MC. Association between breastfeeding and breathing pattern in children: a sectional study. J Pediatr (Rio J). 2014 Jul-Aug;90(4):396-402
  4. Santos CAO dos, Souza RLF de, Silva KR da, Pereira SCDC, Paulino MR, Carvalho AAT, et al. Síndrome do respirador bucal: prevalência das alterações no sistema estomatognático em crianças respiradoras bucais. Yuan L, editor. Revista de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo. 2018;30(3):265-274.
  5. Guilbert TW, Stern DA, Morgan WJ, Martinez FD, Wright AL. Effect of breastfeeding on lung function in childhood and modulation by maternal asthma and atopy. Am J Respir Crit Care Med. 2007 Nov 1;176(9):843-8.
  6. Azad MB, Vehling L, Lu Z, Dai D, Subbarao P, Becker AB, Mandhane PJ, Turvey SE, Lefebvre DL, Sears MR; CHILD Study Investigators. Breastfeeding, maternal asthma and wheezing in the first year of life: a longitudinal birth cohort study. Eur Respir J. 2017 May 1;49(5):1602019.
  7. Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Aleitamento Materno [Internet]. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/aleitamento-materno Acesso em 06 ago. 2025.