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Publicado em: 9 de abril de 2026
O interesse público pelo Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) vem crescendo ano a ano. Quem trabalha na linha de frente da saúde nota o aumento das queixas e suspeitas que chegam ao consultório. São em geral pais e mães preocupados, buscando responder à pergunta: afinal, meu filho tem TDAH?
Não é fácil cravar uma resposta. Em parte, essa dificuldade tem a ver com o fato de que muitos sintomas do TDAH podem ter outras causas. Agitação, distração, impulsividade: tudo isso pode ser TDAH, como também várias outras condições psicológicas, ou ainda estar relacionado a comportamentos típicos da infância.1
Na avalição do médico psiquiatra Rogério Onofre (CRM-SP 192.427), “as pessoas que têm TDAH estão sendo mais reconhecidas e acolhidas dentro dos serviços de saúde e educacionais. Também estamos lidando melhor com rótulos que impediam esse público de receber um diagnóstico e tratamento adequados.” Porém, ele ressalta que “quando consideramos que muitos dos sintomas do TDAH podem estar atrelados a outros motivos, essa atenção sobre o tema pode trazer mais preocupações do que respostas, especialmente em crianças.”
Identificar o TDAH continua, portanto, sendo um desafio, principalmente em crianças e adolescentes. Pensando nisso, preparamos um guia com o essencial que você precisa saber sobre o transtorno e um passo-a-passo para o diagnóstico correto.
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um distúrbio neurocomportamental que afeta os sistemas motores, cognitivos e perceptivos do cérebro. Ele é caracterizado por um padrão persistente de desatenção, impulsividade e hiperatividade, que pode interferir no aprendizado, nas relações sociais e na vida familiar.2
Segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), trata-se de um dos distúrbios mais comuns da infância, afetando de 5% a 8% das crianças em todo o mundo. A ABDA também projeta que 70% dos pacientes com o transtorno possuem condições coexistentes, como ansiedade ou dificuldades de aprendizagem, e pelo menos 10% apresentam três ou mais dessas condições.3
Antigamente, o TDAH era classificado como um “problema de comportamento”, devido à inquietação e impulsividade observadas em crianças. Hoje, sabe-se que ele tem bases neurológicas bem estabelecidas, relacionadas ao funcionamento dos neurotransmissores que regulam a atenção e o controle de impulsos. Ou seja, não se trata de “falta de limites” ou “má educação”5.
Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, do inglês Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), documento que auxilia médicos e pesquisadores a definir e classificar transtornos mentais, o TDAH pode se apresentar de três formas principais:5
Essas alterações podem impactar o desempenho escolar, as relações sociais e a autoestima, exigindo acompanhamento contínuo.1,3
“O primeiro desafio para o diagnóstico do TDAH é a identificação dos sinais. Muitos são confundidos com particularidades da criança, fazendo com que os pais não se atentem para possíveis condições do neurodesenvolvimento”, diz o Dr. Rogério.Os sintomas de TDAH em crianças variam em intensidade, mas costumam aparecer entre os primeiros anos escolares e a adolescência. Eles se dividem de acordo com as três formas de apresentação do transtorno:3
No entanto, para que o diagnóstico seja considerado, os sintomas precisam estar presentes por tempo prolongado e em mais de um ambiente, se manifestando na escola, em casa e em atividades sociais, por exemplo. Segundo DSM-5, pelo menos seis dos sintomas devem persistir por no mínimo seis meses.5
“Todo mundo pode se distrair ou ficar inquieto em situações de estresse. O que preocupa é quando a desatenção, a hiperatividade ou a impulsividade são intensas, persistentes e trazem prejuízo nas atividades diárias”, ressalta o Dr. Rogério.
O diagnóstico de TDAH é clínico, o que significa que não há exames laboratoriais ou de imagem capazes de confirmar o transtorno.3 Ele envolve entrevistas com pais e professores, observação comportamental e o uso de questionários e escalas padronizadas baseadas no DSM-54,5.
O processo de diagnóstico é minucioso e requer uma equipe interdisciplinar, com pediatras, psiquiatras infantis, psicólogos e neuropsicólogos. O pediatra, por acompanhar o desenvolvimento da criança desde cedo, muitas vezes é o primeiro a levantar a hipótese e encaminhar para avaliação especializada4,5. “Mas a primeira suspeita também pode vir de um professor ou dos próprios pais pela convivência mais próxima com a criança”, acrescenta o Dr. Rogério.
De acordo com as diretrizes da Academia Americana de Pediatria (AAP), o processo começa com a coleta do histórico médico, familiar e psicossocial. O profissional precisa entender como e quando os sintomas começaram, se ocorrem em diferentes ambientes (casa e escola, por exemplo) e se causam prejuízo funcional, isto é, se afetam o desempenho escolar e as relações sociais.5
O passo a passo da avaliação médica para TDAH inclui:4,5
Tudo indica que, na maioria dos casos, testes neuropsicológicos não melhoram de maneira relevante a precisão do diagnóstico. Mas eles podem ser benéficos para esclarecer os pontos fortes e as dificuldades de aprendizagem de cada criança ou do adolescente.5
Um dos maiores desafios do diagnóstico é distinguir o TDAH de outras situações que podem apresentar sintomas semelhantes, como ansiedade, estresse ou dificuldades de aprendizagem5.
Alguns exemplos incluem5:
“Essa coexistência de sintomas entre diversas condições é o que motiva um processo de diagnóstico mais detalhado, principalmente para excluir situações que possam precisar de diferentes abordagens terapêuticas”, alerta o Dr. Rogério. O diagnóstico incorreto pode levar ao atraso no reconhecimento de outras condições e a tratamentos ineficazes, impactando a qualidade de vida e desenvolvimento da criança5.
“Por isso, é fundamental que os pais procurem avaliação completa e criteriosa, sem pressa para fechar o diagnóstico”, completa.
Uma vez confirmado o diagnóstico, o tratamento do TDAH deve ser abrangente e individualizado, combinando intervenções psicossociais, educacionais e, quando necessário, farmacológicas. Além disso, deve considerar a idade, intensidade dos sintomas e possíveis comorbidades da criança4,5.
As abordagens incluem4,5:
As terapias psicossociais e o treinamento de pais são considerados a primeira linha de tratamento para crianças pequenas. O Treinamento Comportamental dos Pais (PTBM) ensina os responsáveis a lidar melhor com comportamentos desafiadores, criar rotinas e estabelecer regras claras4,5.
Para crianças maiores e adolescentes, recomenda-se combinar terapia comportamental e acompanhamento escolar com o uso de medicamentos aprovados para o tratamento do TDAH, quando indicado4,5.
Crianças com TDAH se beneficiam de estratégias personalizadas em sala de aula, como planos de educação individualizados (IEP) e acompanhamento conjunto entre escola e família.5
O TDAH é uma condição crônica, e seu manejo deve seguir o modelo de cuidado continuado. Isso inclui a colaboração entre médicos, psicólogos, educadores e a família, além da reavaliação periódica dos sintomas e dos efeitos das intervenções4,5.
“Os medicamentos para TDAH podem ser parte importante do plano terapêutico, especialmente para crianças em idade escolar e adolescentes” afirma o Dr. Rogério Onofre.
Os psicoestimulantes são o tipo de medicamento mais usado, e considerados primeira linha de tratamento do TDAH. Eles atuam regulando neurotransmissores responsáveis pela atenção e pelo controle de impulsos, o que ajuda a melhorar o foco, a organização e o desempenho escolar4,5.
O uso é sempre individualizado, com prescrição médica e monitoramento dos efeitos, e deve ser combinado a intervenções comportamentais e psicossociais para melhores resultados.4,5
O diagnóstico de TDAH requer cuidado, paciência e uma avaliação profissional minuciosa. Como pudemos ver, nenhum teste isolado é capaz de confirmar o transtorno, e muitos dos comportamentos frequentemente observados na infância podem ser confundidos com sintomas de TDAH, mesmo quando não o são.4,5
Se você tem dúvidas sobre como saber se seu filho tem TDAH, o primeiro passo é procurar um pediatra ou especialista em saúde mental da criança (como psiquiatra infantil ou neuropediatra). Apenas uma avaliação profissional pode confirmar o diagnóstico e indicar o melhor tratamento.
Conteúdo elaborado em fevereiro de 2026
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