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O interesse público pelo Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) vem crescendo ano a ano. Quem trabalha na linha de frente da saúde nota o aumento das queixas e suspeitas que chegam ao consultório. São em geral pais e mães preocupados, buscando responder à pergunta: afinal, meu filho tem TDAH?

Não é fácil cravar uma resposta. Em parte, essa dificuldade tem a ver com o fato de que muitos sintomas do TDAH podem ter outras causas. Agitação, distração, impulsividade: tudo isso pode ser TDAH, como também várias outras condições psicológicas, ou ainda estar relacionado a comportamentos típicos da infância.1

Na avalição do médico psiquiatra Rogério Onofre (CRM-SP 192.427), “as pessoas que têm TDAH estão sendo mais reconhecidas e acolhidas dentro dos serviços de saúde e educacionais. Também estamos lidando melhor com rótulos que impediam esse público de receber um diagnóstico e tratamento adequados.” Porém, ele ressalta que “quando consideramos que muitos dos sintomas do TDAH podem estar atrelados a outros motivos, essa atenção sobre o tema pode trazer mais preocupações do que respostas, especialmente em crianças.”

Identificar o TDAH continua, portanto, sendo um desafio, principalmente em crianças e adolescentes. Pensando nisso, preparamos um guia com o essencial que você precisa saber sobre o transtorno e um passo-a-passo para o diagnóstico correto.

O que é o TDAH

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um distúrbio neurocomportamental que afeta os sistemas motores, cognitivos e perceptivos do cérebro. Ele é caracterizado por um padrão persistente de desatenção, impulsividade e hiperatividade, que pode interferir no aprendizado, nas relações sociais e na vida familiar.2

Segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), trata-se de um dos distúrbios mais comuns da infância, afetando de 5% a 8% das crianças em todo o mundo. A ABDA também projeta que 70% dos pacientes com o transtorno possuem condições coexistentes, como ansiedade ou dificuldades de aprendizagem, e pelo menos 10% apresentam três ou mais dessas condições.3

Além de problemas comportamentais: os três tipos de TDAH

Antigamente, o TDAH era classificado como um “problema de comportamento”, devido à inquietação e impulsividade observadas em crianças. Hoje, sabe-se que ele tem bases neurológicas bem estabelecidas, relacionadas ao funcionamento dos neurotransmissores que regulam a atenção e o controle de impulsos. Ou seja, não se trata de “falta de limites” ou “má educação”5.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, do inglês Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), documento que auxilia médicos e pesquisadores a definir e classificar transtornos mentais, o TDAH pode se apresentar de três formas principais:5

  • Predominantemente desatento: dificuldade em manter o foco, seguir instruções e terminar tarefas;
  • Predominantemente hiperativo/impulsivo: inquietação, fala excessiva, dificuldade em esperar a vez;
  • Combinado: presença dos dois grupos de sintomas.

Essas alterações podem impactar o desempenho escolar, as relações sociais e a autoestima, exigindo acompanhamento contínuo.1,3

Como saber se meu filho tem TDAH? Entenda os sintomas mais comuns

“O primeiro desafio para o diagnóstico do TDAH é a identificação dos sinais. Muitos são confundidos com particularidades da criança, fazendo com que os pais não se atentem para possíveis condições do neurodesenvolvimento”, diz o Dr. Rogério.

Os sintomas de TDAH em crianças variam em intensidade, mas costumam aparecer entre os primeiros anos escolares e a adolescência. Eles se dividem de acordo com as três formas de apresentação do transtorno:3

  • Desatento: falta de atenção a detalhes, cometer erros por descuido, falta de atenção por tempo prolongado, não escutar quando lhe dirigem a palavra, não conseguir terminar as tarefas, ter dificuldade para organizar tarefas e atividades, evitar tarefas que exigem esforço mental constante, perder coisas, distrair-se facilmente e ser esquecido.
  • Hiperativo-Impulsivo: agitar pés e mãos ou remexer-se constantemente, não conseguir ficar sentado, correr ou escalar em situações inadequadas, ter dificuldade em atividades silenciosas, estar “a todo vapor”, falar demais, dar respostas precipitadas, não conseguir esperar a vez, interromper ou se intrometer em assuntos de outros.
  • Combinado: há a coexistência de sintomas de desatenção e hiperatividade-impulsividade.

No entanto, para que o diagnóstico seja considerado, os sintomas precisam estar presentes por tempo prolongado e em mais de um ambiente, se manifestando na escola, em casa e em atividades sociais, por exemplo. Segundo DSM-5, pelo menos seis dos sintomas devem persistir por no mínimo seis meses.5

“Todo mundo pode se distrair ou ficar inquieto em situações de estresse. O que preocupa é quando a desatenção, a hiperatividade ou a impulsividade são intensas, persistentes e trazem prejuízo nas atividades diárias”, ressalta o Dr. Rogério.

Como é o processo de diagnóstico de TDAH

O diagnóstico de TDAH é clínico, o que significa que não há exames laboratoriais ou de imagem capazes de confirmar o transtorno.3 Ele envolve entrevistas com pais e professores, observação comportamental e o uso de questionários e escalas padronizadas baseadas no DSM-54,5.

O processo de diagnóstico é minucioso e requer uma equipe interdisciplinar, com pediatras, psiquiatras infantis, psicólogos e neuropsicólogos. O pediatra, por acompanhar o desenvolvimento da criança desde cedo, muitas vezes é o primeiro a levantar a hipótese e encaminhar para avaliação especializada4,5. “Mas a primeira suspeita também pode vir de um professor ou dos próprios pais pela convivência mais próxima com a criança”, acrescenta o Dr. Rogério.

De acordo com as diretrizes da Academia Americana de Pediatria (AAP), o processo começa com a coleta do histórico médico, familiar e psicossocial. O profissional precisa entender como e quando os sintomas começaram, se ocorrem em diferentes ambientes (casa e escola, por exemplo) e se causam prejuízo funcional, isto é, se afetam o desempenho escolar e as relações sociais.5

O passo a passo da avaliação médica para TDAH inclui:4,5

  • Entrevista com pais e responsáveis, para levantar histórico familiar e comportamental;
  • Relatos escolares, obtidos de professores e cuidadores;
  • Observação direta da criança e exame físico, para excluir outras causas;
  • Aplicação de questionários e escalas de avaliação baseadas no DSM-5, que ajudam a identificar padrões e rastrear comorbidades (condições coexistentes).

Tudo indica que, na maioria dos casos, testes neuropsicológicos não melhoram de maneira relevante a precisão do diagnóstico. Mas eles podem ser benéficos para esclarecer os pontos fortes e as dificuldades de aprendizagem de cada criança ou do adolescente.5

Parece, mas não é: condições que simulam o TDAH

Um dos maiores desafios do diagnóstico é distinguir o TDAH de outras situações que podem apresentar sintomas semelhantes, como ansiedade, estresse ou dificuldades de aprendizagem5.

Alguns exemplos incluem5:

  • Ansiedade e estresse escolar, que podem causar distração e agitação;
  • Problemas de visão ou audição, que comprometem a atenção em sala de aula;
  • Transtornos de aprendizagem, como dislexia e discalculia;
  • Questões emocionais, como separação dos pais, bullying ou trauma.

“Essa coexistência de sintomas entre diversas condições é o que motiva um processo de diagnóstico mais detalhado, principalmente para excluir situações que possam precisar de diferentes abordagens terapêuticas”, alerta o Dr. Rogério. O diagnóstico incorreto pode levar ao atraso no reconhecimento de outras condições e a tratamentos ineficazes, impactando a qualidade de vida e desenvolvimento da criança5.

“Por isso, é fundamental que os pais procurem avaliação completa e criteriosa, sem pressa para fechar o diagnóstico”, completa.

O papel do tratamento após o diagnóstico

Uma vez confirmado o diagnóstico, o tratamento do TDAH deve ser abrangente e individualizado, combinando intervenções psicossociais, educacionais e, quando necessário, farmacológicas. Além disso, deve considerar a idade, intensidade dos sintomas e possíveis comorbidades da criança4,5.

As abordagens incluem4,5:

1. Apoio psicológico e orientação familiar

As terapias psicossociais e o treinamento de pais são considerados a primeira linha de tratamento para crianças pequenas. O Treinamento Comportamental dos Pais (PTBM) ensina os responsáveis a lidar melhor com comportamentos desafiadores, criar rotinas e estabelecer regras claras4,5.

Para crianças maiores e adolescentes, recomenda-se combinar terapia comportamental e acompanhamento escolar com o uso de medicamentos aprovados para o tratamento do TDAH, quando indicado4,5.

2. Intervenções pedagógicas e apoio escolar

Crianças com TDAH se beneficiam de estratégias personalizadas em sala de aula, como planos de educação individualizados (IEP) e acompanhamento conjunto entre escola e família.5

3. Acompanhamento multidisciplinar

O TDAH é uma condição crônica, e seu manejo deve seguir o modelo de cuidado continuado. Isso inclui a colaboração entre médicos, psicólogos, educadores e a família, além da reavaliação periódica dos sintomas e dos efeitos das intervenções4,5.

4. Tratamento medicamentoso

“Os medicamentos para TDAH podem ser parte importante do plano terapêutico, especialmente para crianças em idade escolar e adolescentes” afirma o Dr. Rogério Onofre.

Os psicoestimulantes são o tipo de medicamento mais usado, e considerados primeira linha de tratamento do TDAH. Eles atuam regulando neurotransmissores responsáveis pela atenção e pelo controle de impulsos, o que ajuda a melhorar o foco, a organização e o desempenho escolar4,5.

O uso é sempre individualizado, com prescrição médica e monitoramento dos efeitos, e deve ser combinado a intervenções comportamentais e psicossociais para melhores resultados.4,5

Diagnóstico de TDAH: um processo que exige cuidado e orientação profissional

O diagnóstico de TDAH requer cuidado, paciência e uma avaliação profissional minuciosa. Como pudemos ver, nenhum teste isolado é capaz de confirmar o transtorno, e muitos dos comportamentos frequentemente observados na infância podem ser confundidos com sintomas de TDAH, mesmo quando não o são.4,5

Se você tem dúvidas sobre como saber se seu filho tem TDAH, o primeiro passo é procurar um pediatra ou especialista em saúde mental da criança (como psiquiatra infantil ou neuropediatra). Apenas uma avaliação profissional pode confirmar o diagnóstico e indicar o melhor tratamento.

Conteúdo elaborado em fevereiro de 2026

Referências

  1. Ferreira LBM, Rodrigues KV, Cunha FCDF. Desafios na identificação e diagnóstico do TDAH em crianças: papel da escola e da família. Revista Diálogos Interdisciplinares 2024;4(16):831-47.
  2. Faria AM, Pereira AD, Carvalho LCB, Assis RM, Benício SD, de Carvalho KCN. Vista do Métodos diagnósticos para detecção do TDAH em crianças: uma mini revisão integrativa. Revista Educação em Saúde 2023;11(1):150-7.
  3. Ministério da Saúde. Entre 5% e 8% da população mundial apresenta Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2022 [Acesso em 27 Jan 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/setembro/entre-5-e-8-da-populacao-mundial-apresenta-transtorno-de-deficit-de-atencao-com-hiperatividade
  4. Eom TH, Kim YH. Clinical practice guidelines for attention-deficit/hyperactivity disorder: recent updates. Clin Exp Pediatr. 2024 Jan;67(1):26-34.
  5. Wolraich ML, Hagan JF Jr, Allan C, Chan E, Davison D, Earls M, et al; SUBCOMMITTEE ON CHILDREN AND ADOLESCENTS WITH ATTENTION-DEFICIT/HYPERACTIVE DISORDER. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. Pediatrics. 2019 Oct;144(4):e20192528.