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A insuficiência cardíaca é uma condição crônica que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, cerca de 23 milhões de pessoas convivem com a doença globalmente e uma em cada cinco poderá desenvolvê-la ao longo da vida. Associada ao envelhecimento, a progressão da doença pode ser retardada ou evitada com a identificação e o controle precoce dos fatores de risco.¹

modelo de plástico de um coração humano contra um fundo azul, sendo examinado com uma lupa

O que é insuficiência cardíaca?

A insuficiência cardíaca ocorre quando o coração perde a capacidade de bombear sangue de forma suficiente para atender às necessidades do organismo ou só consegue desempenhar essa função às custas de um esforço maior que o normal para o coração. Essa disfunção resulta em mudanças no fluxo e na pressão do sangue dentro do sistema circulatório. Como consequência, órgãos e tecidos passam a receber menos oxigênio e nutrientes, favorecendo sintomas que tendem a piorar de forma gradual.1-3

É importante ressaltar que a insuficiência cardíaca não é sinônimo de infarto. O infarto acontece quando uma parte do músculo cardíaco deixa de receber sangue devido à obstrução de uma artéria. Já a insuficiência cardíaca é uma síndrome clínica que pode surgir como consequência de diferentes doenças, incluindo o próprio infarto, hipertensão arterial, diabetes, doenças nas valvas do coração e outras alterações estruturais do coração.3

Embora considerada uma doença crônica, a insuficiência cardíaca pode ser controlada. O tratamento atual permite reduzir sintomas, evitar internações, retardar a progressão da doença, proporcionar melhor qualidade de vida e reduzir mortalidade.1,3

Quem tem mais risco de desenvolver insuficiência cardíaca?

O risco de desenvolver insuficiência cardíaca aumenta com a idade. Dados da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca da Sociedade Brasileira de Cardiologia mostram que a doença acomete aproximadamente 1% das pessoas entre 55 e 64 anos, chegando a 17,4% entre indivíduos com 85 anos ou mais.³

Mas a doença não depende apenas do envelhecimento; há uma combinação de fatores de risco e de outras condições que, ao longo dos anos, provoca alterações na estrutura e na função do coração.¹,³

Entre os principais fatores associados estão:3

  • Hipertensão arterial
  • Diabetes
  • Obesidade
  • Obstrução das artérias coronárias
  • Infarto prévio
  • Tabagismo
  • Consumo excessivo de álcool
  • Altos níveis de colesterol (dislipidemia)
  • Idade avançada

Além dessas condições, o cardiologista Dr. Jairo Lins Borges (CRM-SP 46.977 | RQE 132.337) explica que “o histórico familiar e algumas doenças cardíacas hereditárias podem aumentar a probabilidade de desenvolver a insuficiência”. Segundo ele, “ainda que esses fatores não garantam o desenvolvimento da doença, medidas de prevenção são recomendadas para reduzir a predisposição”.

O especialista complementa que “a prática regular de exercícios e o controle de fatores de risco como diabetes, obesidade e pressão alta são recomendados para fortalecer a saúde cardiovascular e evitar a insuficiência cardíaca, especialmente para quem tem histórico de doenças do coração.”

Obesidade pode levar à insuficiência cardíaca?

O excesso de peso aumenta a carga de trabalho do coração e favorece alterações metabólicas e inflamatórias que contribuem para o desenvolvimento da insuficiência cardíaca. Quanto maior o índice de massa corporal e quanto mais tempo a obesidade permanece, maior tende a ser o risco de remodelamento do músculo cardíaco e de redução da sua capacidade de contração.³

ODr. Jairo explica que “pequenas mudanças sustentáveis costumam produzir resultados mais duradouros do que dietas radicais”. Segundo ele, “emagrecer gradualmente reduz a sobrecarga sobre o coração e traz melhora clínica para diversos fatores ligados ao desenvolvimento da insuficiência cardíaca.”

Quais doenças podem levar à insuficiência cardíaca?

A insuficiência cardíaca raramente surge de forma isolada. Isso porque ela costuma representar a evolução de outras doenças que comprometem progressivamente o funcionamento do coração. Entre as principais causas estão a obstrução das artérias do coração (doença arterial coronariana), o infarto do miocárdio, hipertensão arterial, diabetes, doenças das valvas cardíacas, que prejudicam o fluxo sanguíneo, e algumas alterações no músculo do coração.²

Além dessas condições, arritmias persistentes e doenças como anemia grave, alterações da tireoide e insuficiência renal alteram o funcionamento do coração, contribuindo para o aumento da sobrecarga do coração.²,³

“A insuficiência renal ocorre quando os rins não funcionam adequadamente, adequadamente; nesses casos, observam-se retenção de líquido e alterações na pressão arterial, o que sobrecarrega o coração e pode acelerar a progressão dessas doenças”, explica o cardiologista.

homem idoso pressionando a mão no peito, na altura do coração, representando desconforto causado pela insuficiência cardíaca

Quais hábitos aumentam o risco de insuficiência cardíaca?

Hábitos de vida exercem papel importante na saúde cardiovascular. O tabagismo aumenta o risco de insuficiência cardíaca tanto para cardiopatas quanto para pessoas saudáveis, estando associado a alterações na estrutura e na função do músculo cardíaco. O consumo excessivo de álcool também pode causar lesão direta no coração e favorecer o desenvolvimento de miocardiopatia alcoólica, que leva à insuficiência cardíaca.²,³

Outros hábitos de vida que contribuem para o desenvolvimento da condição incluem:1-3

  • Sedentarismo
  • Alimentação inadequada
  • Excesso de sal
  • Ganho de peso
  • Controle inadequado da pressão arterial e da glicemia (nível de açúcar no sangue)

Por outro lado, parar de fumar, praticar atividade física regularmente, manter alimentação saudável e controlar doenças crônicas são medidas reconhecidas pela diretriz como fundamentais para reduzir o risco de insuficiência cardíaca e preservar a saúde do coração.3

Como identificar os sintomas iniciais da insuficiência cardíaca?

Os primeiros sinais de insuficiência cardíaca podem ser confundidos com cansaço do dia a dia ou consequências do envelhecimento. Um dos sintomas mais característicos é a falta de ar durante atividades que antes eram realizadas normalmente, como caminhar pequenas distâncias ou subir escadas.¹–³

Outros sintomas são: ¹–³

  • Fadiga persistente
  • Redução da disposição para esforços físicos
  • Retenção de líquido, causando inchaço nos pés, tornozelos e pernas

Quais sintomas indicam que a doença está avançando?

Com a evolução da insuficiência cardíaca, os sintomas tornam-se mais intensos e passam a comprometer o dia a dia. A falta de ar pode surgir mesmo em repouso ou durante o sono, obrigando a pessoa a dormir com vários travesseiros ou até permanecer sentada para conseguir respirar melhor. Essa dificuldade para respirar deitado, chamada ortopneia, é um dos sinais mais característicos da doença.¹–³

Também podem aparecer: ¹,²

  • Tosse persistente, principalmente à noite
  • Palpitações
  • Aumento importante do inchaço nas pernas
  • Perda de apetite
  • Dor abdominal
  • Diminuição da quantidade de urina
  • Extremidades frias
  • Cansaço intenso

“Nos casos mais avançados, qualquer esforço físico, como levantar de uma cadeira, pode provocar falta de ar ou fadiga, e algumas pessoas apresentam sintomas mesmo em repouso”, conta o Dr. Jairo.

É importante procurar atendimento médico imediatamente quando houver piora rápida da falta de ar, dor no peito, desmaios ou dificuldade importante para respirar. Esses sinais podem indicar descompensação da insuficiência cardíaca e necessidade de tratamento urgente.¹–³

Como a insuficiência cardíaca é diagnosticada?

O diagnóstico começa pela avaliação clínica, com investigação do histórico de saúde, dos sintomas e do exame físico. De acordo com o Ministério da Saúde, a suspeita costuma surgir diante de manifestações como falta de ar, ortopneia, edema nos membros inferiores e fadiga, sendo confirmada por exames complementares.¹,²

O ecocardiograma é um dos principais exames de imagem para confirmar o diagnóstico e acompanhar a evolução da doença, pois permite avaliar a estrutura do coração e medir a fração de ejeção, indicador da capacidade de bombeamento de sangue pelo coração.¹–³

O eletrocardiograma também faz parte da investigação por identificar alterações elétricas frequentemente associadas à insuficiência cardíaca, embora isoladamente não confirme o diagnóstico. Exames de sangue, especialmente a dosagem de biomarcadores específicos, além da radiografia de tórax, podem complementar a avaliação.3

Contudo, o Dr. Jairo ressalta que “nenhum exame deve ser interpretado de forma isolada; o diagnóstico depende da combinação entre sintomas, avaliação clínica e exames complementares, permitindo definir não apenas a presença da doença, mas também sua causa e gravidade.”

Insuficiência cardíaca pode ser prevenida?

Embora nem todos os casos possam ser evitados, boa parte está relacionada a fatores de risco modificáveis. Controlar a pressão arterial, manter a glicemia adequada, tratar alterações do colesterol, abandonar o cigarro e evitar o consumo excessivo de álcool são medidas capazes de reduzir o risco de desenvolver insuficiência cardíaca.²,³

A diretriz também destaca a importância da prática regular de atividade física, do controle do peso corporal e da prevenção das doenças cardiovasculares como estratégias fundamentais para diminuir a incidência da síndrome. Quanto mais cedo esses cuidados forem incorporados à rotina, maiores tendem a ser os benefícios para a saúde do coração.3

O que precisa mudar no estilo de vida para proteger o coração?

As recomendações presentes na Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca incluem alimentação equilibrada, controle do peso, redução do consumo de sal, prática regular de exercícios físicos e acompanhamento adequado das doenças crônicas. Pacientes com insuficiência cardíaca também são orientados a monitorar o peso diariamente, reconhecer sinais de retenção de líquidos e utilizar corretamente os medicamentos prescritos.3

Além disso, evitar o tabagismo e reduzir o consumo de bebidas alcoólicas contribuem para preservar a função cardíaca e diminuir complicações futuras.²,³

Quais pessoas precisam ter acompanhamento mais próximo?

Pessoas com hipertensão arterial, diabetes, obesidade, doença arterial coronariana, histórico de infarto, doenças nas valvas cardíacas ou outras alterações cardiovasculares devem realizar acompanhamento médico periódico.¹–³

O Dr. Jairo destaca que “não existe uma regra única sobre a frequência das avaliações cardiológicas”. De acordo com ele, “a periodicidade deve ser definida individualmente, levando em consideração a idade, os fatores de risco, o histórico de doenças e a presença ou não de sintomas”.

Quem já tem diagnóstico de insuficiência cardíaca deve manter acompanhamento contínuo, preferencialmente com uma equipe multidisciplinar. Médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, farmacêuticos e outros profissionais contribuem para melhorar a adesão ao tratamento, orientar mudanças no estilo de vida e para identificar precocemente sinais de descompensação.²,³

A insuficiência cardíaca é uma doença crônica, mas isso não significa que o diagnóstico represente perda da qualidade de vida. O reconhecimento precoce dos fatores de risco, o controle das doenças associadas e a adoção de hábitos saudáveis permitem reduzir complicações e retardar a progressão da doença.¹–³

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Conteúdo produzido em julho/2026

Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.

Médico consultor: Dr. Jairo Lins Borges (CRM-SP 46977; RQE 132337), cardiologista clínico, professor e pesquisador da disciplina de Cardiologia na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Informações não referenciadas correspondem à opinião ou prática clínica do profissional de saúde entrevistado.

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Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2025 [Acesso em 2 jul. 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/pcdt-de-insuficiencia-cardiaca/@@display-file/file
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado. Definição – Insuficiência Cardíaca (IC) no adulto” [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; [Acesso em 19 ago. 2026]. Disponível em: https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/insuficiencia-cardiaca-%28IC%29-no-adulto/definicao/
  3. Rohde LEP, Montera MW, Bocchi EA, Clausell NO, Albuquerque DC, Rassi S, et al. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda. Arq Bras Cardiol. 2018 Sep;111(3):436-539.