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O diabetes é uma das doenças crônicas mais comuns no mundo e afeta milhões de brasileiras em diferentes fases da vida. Embora essa doença atinja homens e mulheres, há características específicas do organismo feminino que merecem atenção porque estão associadas ao desenvolvimento ou agravamento do diabetes.¹

mãos de uma mulher com diabetes utilizando um aparelho para checar seu nível de glicose

Quais os diferentes tipos de diabetes?

Segundo o Ministério da Saúde, o diabetes é causado pela produção insuficiente ou pelo aumento da resistência à ação da insulina, hormônio responsável por regular os níveis de glicose no sangue (glicemia) e fornecer energia para o organismo. Quando a glicemia permanece elevada por períodos prolongados, podem surgir complicações que afetam o coração, os vasos sanguíneos, os olhos, os rins e os nervos. Em situações graves, a doença pode levar à morte.¹

Existem três formas principais da doença. O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune caracterizada pela destruição das células pancreáticas responsáveis pela produção de insulina, por mecanismos relacionados ao sistema imunológico. No Brasil, estima-se que ocorram 25,6 casos por 100.000 habitantes a cada ano, o que é considerada uma incidência elevada da doença.¹

Já o diabetes tipo 2 representa cerca de 90% dos casos e ocorre quando o organismo passa a apresentar resistência à ação da insulina ou quando sua produção se torna insuficiente para atender às necessidades do corpo. Entre os fatores associados estão sobrepeso, sedentarismo, hipertensão arterial, triglicerídeos elevados e hábitos alimentares inadequados.¹

O diabetes gestacional, por sua vez, é identificado pela primeira vez durante a gravidez e caracteriza-se por alterações no metabolismo da glicose que surgem nesse período. Em muitos casos, o quadro desaparece após o parto, mas aumenta o risco de desenvolvimento futuro de diabetes tipo 2 tanto para a mãe quanto para a criança.¹

Por que o diabetes merece atenção especial nas mulheres?

Porque as mulheres convivem com importantes mudanças hormonais ao longo da vida. A transição para a menopausa, por exemplo, pode estar associada a alterações hormonais que podem influenciar o metabolismo da glicose e aumentar o risco de diabetes. Além disso, condições específicas das mulheres, como a síndrome dos ovários policísticos (SOP) ou derivadas da gestação, representam fatores de risco adicionais para o desenvolvimento da doença.2,3

“Os hormônios femininos influenciam diretamente a sensibilidade à insulina. Por isso, fases como puberdade, gestação e menopausa costumam exigir um acompanhamento mais atento do controle glicêmico”, explica o cardiologista Dr. Jairo Lins Borges (CRM 46977 SP | RQE 132337).

Quais são os principais sintomas de diabetes nas mulheres?

No diabetes tipo 1, os sinais costumam surgir de forma rápida. Entre os sintomas mais comuns estão: 1

  • Vontade de urinar diversas vezes ao dia:
  • Sede constante
  • Fome frequente
  • Perda de peso inexplicada
  • Fraqueza e fadiga

Já no diabetes tipo 2, o desenvolvimento geralmente é gradual. Os sintomas podem incluir: 1

  • Infecções frequentes
  • Visão embaçada
  • Dificuldade de cicatrização
  • Formigamento nas mãos e nos pés

Muitos desses sinais podem ser confundidos com cansaço do dia a dia, estresse ou outras condições de saúde, atrasando a busca por atendimento médico. Infecções recorrentes e dificuldade de cicatrização merecem atenção, pois podem indicar níveis elevados de glicemia.1

Como o diabetes afeta o corpo feminino ao longo da vida?

O diabetes pode afetar a saúde da mulher de maneiras diferentes ao longo da vida. Aspectos relacionados à saúde reprodutiva, à gravidez e à menopausa podem influenciar o manejo da doença e o controle da glicose. 2

No diabetes tipo 2, por exemplo, a prevalência aumenta significativamente com o envelhecimento. Para se ter uma ideia, mais da metade das pessoas com esse tipo de diabetes encontra-se acima dos 60 anos. A doença está associada ao aumento de lesões microvasculares e macrovasculares, que comprometem diversos órgãos e sistemas.4

Segundo pesquisa publicada na Revista de Enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) com mulheres idosas com diabetes, há uma associação entre a doença e déficits cognitivos. Algo que, segundo os pesquisadores, reforça a necessidade de estratégias voltadas não apenas ao controle glicêmico, mas também à preservação da saúde mental e funcional durante o envelhecimento. 4

Quando o diabetes permanece mal controlado por muitos anos, os danos podem atingir vasos sanguíneos de pequeno e grande calibre. Isso explica por que a doença está associada tanto a problemas renais e visuais quanto a infartos e outras doenças cardiovasculares”, comenta o Dr. Jairo.

Qual o risco do diabetes na adolescência?

A adolescência é uma fase particularmente importante para o diabetes tipo 1. De acordo com o Ministério da Saúde, o pico de incidência da doença ocorre entre os 10 e os 14 anos, período marcado por intensas transformações físicas e hormonais.¹

O tratamento do diabetes tipo 1 exige uso contínuo de insulina para evitar complicações decorrentes da elevação da glicemia.1

Diabetes afeta a fertilidade?

De acordo com o Dr. Jairo, sim, o diabetes pode afetar a fertilidade. “O descontrole glicêmico pode causar alterações hormonais e irregularidade menstrual. Além disso, a resistência à insulina está frequentemente associada à síndrome dos ovários policísticos (SOP)”, explica o cardiologista.

Segundo estudo publicado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, mulheres com SOP apresentam risco aumentado de intolerância à insulina e diabetes tipo 2. Por esse motivo, o rastreamento de alterações do metabolismo glicêmico é recomendado nessa população.3

Os pesquisadores destacam que a própria síndrome é considerada fator predisponente para o desenvolvimento do diabetes tipo 2. Em alguns casos, exames convencionais de glicemia em jejum podem não ser suficientes para detectar precocemente alterações metabólicas, exigindo métodos mais específicos de investigação.3

“Planejar a gestação com o diabetes controlado é uma das medidas mais importantes para proteger tanto a saúde da mulher quanto a do futuro bebê”, afirma o cardiologista.

Quais os riscos do diabetes na gravidez?

O diabetes gestacional é considerado a alteração metabólica mais comum da gravidez. Caracteriza-se por intolerância aos carboidratos diagnosticada durante a gestação atual e que não atende aos critérios de diabetes pré-existente.5

De acordo com o Ministério da Saúde, entre 2% e 4% das gestantes desenvolvem diabetes gestacional.1 Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a prevalência varia entre 3% e 25%, dependendo da população avaliada e dos métodos diagnósticos utilizados. 5

Diversos fatores estão associados ao aumento do risco, incluindo idade superior a 25 anos, obesidade, hipertensão arterial e histórico familiar da doença. 5

Toda gestante deve realizar acompanhamento pré-natal adequado e exames para rastreamento do diabetes. O diagnóstico precoce é considerado essencial para reduzir riscos maternos e fetais.¹˒5

Entre as possíveis complicações associadas ao diabetes gestacional estão: 5

  • Macrossomia fetal, quando o bebê apresenta peso elevado para a idade gestacional
  • Aumento do risco de cesariana
  • Pré-eclâmpsia
  • Distócia de ombro durante o parto
  • Hemorragias maternas e fetais
  • Desconforto respiratório neonatal

A boa notícia é que muitas mulheres conseguem controlar a glicemia por meio de alimentação adequada, atividade física e acompanhamento médico. Quando essas medidas não são suficientes, pode ser necessária a utilização de insulina sob orientação profissional. 5

O acompanhamento multidisciplinar é considerado um dos pilares do tratamento. Ao mesmo tempo, a informação adequada e a participação ativa da gestante nas decisões relacionadas ao cuidado contribuem para melhores resultados maternos e neonatais. 5

mulher diabética sentada sobre uma mesa e utilizando um aparelho para checar seu nível de glicose

Qual é a relação entre diabetes e saúde cardiovascular da mulher?

As doenças cardiovasculares estão entre as complicações associadas ao diabetes. Segundo o Ministério da Saúde, níveis elevados de glicemia ao longo do tempo podem causar danos, por exemplo, ao coração e às artérias.¹

O diabetes está relacionado ao desenvolvimento de lesões macrovasculares e microvasculares. As lesões macrovasculares afetam vasos sanguíneos de maior calibre e estão associadas às doenças cardiovasculares. Já as microvasculares comprometem estruturas menores, como vasos dos rins, olhos e nervos. 4

Além disso, pessoas com diabetes têm entre 1,5 e 2 vezes mais chances de AVC, e esse risco aumenta conforme o tempo de duração da doença.6

Mulheres que tiveram diabetes gestacional também apresentam risco aumentado de desenvolver diabetes tipo 2, o que pode contribuir para futuras complicações cardiovasculares.1,4

“O coração não sofre apenas quando a glicemia está muito alta. O risco cardiovascular resulta da combinação de vários fatores, incluindo pressão arterial elevada, excesso de peso, colesterol alterado e sedentarismo. Quanto mais cedo esses fatores forem identificados e controlados, maior será a proteção cardiovascular”, explica o Dr. Jairo.

Quais complicações podem surgir quando o diabetes não é controlado?

O diabetes é uma doença sistêmica. Isso significa que seus efeitos não se limitam ao descontrole da glicemia. Quando os níveis de açúcar no sangue permanecem elevados por períodos prolongados, diversos órgãos podem ser afetados. As principais complicações envolvem coração, artérias, olhos, rins e nervos.1

Entre os problemas mais frequentemente associados ao diabetes estão:¹

• Doenças cardiovasculares

• Comprometimento da função renal

• Alterações visuais

• Danos neurológicos

• Dificuldade de cicatrização

• Maior suscetibilidade a infecções

Em idosos, as consequências podem extrapolar as complicações físicas, causando até déficit cognitivo. 4

“Muitas pessoas acreditam que o diabetes se resume à glicemia, mas trata-se de uma condição que pode afetar praticamente todo o organismo quando não é identificado e tratado adequadamente”, observa o Dr. Jairo.

Como prevenir o diabetes e suas complicações?

A prevenção do diabetes tipo 2 está fortemente relacionada ao estilo de vida. O Ministério da Saúde destaca que a prática regular de atividade física, a alimentação saudável e o desvio de comportamentos de risco são medidas fundamentais para diminuir a incidência da doença.¹

Entre as principais estratégias preventivas estão:¹

• Praticar atividade física regularmente

• Manter alimentação equilibrada

• Controlar o peso corporal

• Evitar o consumo de tabaco

• Evitar o consumo excessivo de álcool

• Realizar acompanhamento médico periódico

A prevenção é particularmente importante para pessoas que apresentam fatores de risco conhecidos, como excesso de peso, sedentarismo, hipertensão arterial e histórico familiar de diabetes.¹

No caso do diabetes gestacional, a identificação precoce durante o pré-natal desempenha papel fundamental na redução de complicações. O rastreamento por exames de glicemia e testes de sobrecarga de glicose permite o diagnóstico e o tratamento oportunos, contribuindo para melhores desfechos maternos e fetais. 5

A atividade física recebe destaque tanto na prevenção quanto no tratamento. A contração muscular favorece a captação de glicose pelos tecidos, contribuindo para o controle glicêmico. Durante a gestação, quando não há contraindicações obstétricas, exercícios de baixo impacto podem integrar o plano terapêutico. 5

A alimentação saudável também é considerada parte essencial do cuidado. Mudanças nos hábitos alimentares figuram entre as primeiras medidas recomendadas para o controle da glicemia, especialmente nos casos de diabetes tipo 2 e diabetes gestacional. 5

“Não existe uma medida isolada capaz de prevenir o diabetes. O benefício surge da combinação de hábitos saudáveis mantidos de forma consistente ao longo dos anos”, ressalta o Dr. Jairo.

Como deve ser o acompanhamento médico da mulher com diabetes?

O acompanhamento médico regular é um dos pilares do controle do diabetes. Como a doença pode afetar diferentes órgãos, o monitoramento contínuo permite identificar precocemente alterações e reduzir o risco de complicações.¹

No diabetes tipo 1, o uso diário de insulina é indispensável e exige acompanhamento frequente para ajuste terapêutico e monitorização dos níveis glicêmicos.¹

No diabetes tipo 2, o acompanhamento também deve contemplar o controle de condições frequentemente associadas, como hipertensão arterial, excesso de peso e alterações metabólicas. ¹

Durante a gravidez, o cuidado torna-se ainda mais abrangente. Por isso, o acompanhamento multiprofissional favorece melhores resultados para mãe e bebê. A participação de médicos, enfermeiros, nutricionistas e outros profissionais contribui para o controle glicêmico e para a prevenção de complicações obstétricas. 5

“O diabetes deve ser encarado como uma condição de acompanhamento contínuo, especialmente nas mulheres, cuja trajetória de vida inclui fases hormonais que podem modificar o comportamento da doença”, complementa o cardiologista.

Segundo ele, a combinação entre diagnóstico precoce, hábitos saudáveis, monitoramento adequado e acesso à informação continua sendo a principal estratégia para reduzir o impacto do diabetes na saúde feminina ao longo da vida.

Conteúdo elaborado em junho/2026

Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.

Médico consultor: Dr. Jairo Lins Borges (CRM-SP 46977; RQE 132337), cardiologista clínico, professor e pesquisador da disciplina de Cardiologia na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Informações não referenciadas correspondem à opinião ou prática clínica do profissional da saúde entrevistado.

Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Diabetes [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde.  [Acesso em 02 Jun 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/diabetes  
  2. Centers for Disease Control and Prevention. Diabetes and women [Internet]. Atlanta (GA): CDC; 2024 May 15 [cited 2026 Jul 31]. Available from: https://www.cdc.gov/diabetes/risk-factors/diabetes-and-women-1.html
  3. Pontes AG, Rehme MFB, Martins WP, Ferriani RA, Navarro PA. Rastreamento do diabetes mellitus tipo 2 em mulheres com síndrome dos ovários policísticos. Rev Bras Ginecol Obstet. 2012;34(3):128-133. [Acesso em 03 Jun 2026]. Disponível em:  https://journalrbgo.org/wp-content/uploads/sites/4/articles_xml/1806-9339-rbgo-34-3-128/1806-9339-rbgo-34-3-128.pdf.
  4. Silva AO, Cavalcanti AMTS, Carvalho NAR, Lima CMBL, Oliveira SHS. Déficit cognitivo em mulheres idosas portadoras de Diabetes Mellitus tipo 2. Rev Enferm UFPE. 2011;5(Esp):2576-2582. [Acesso em 03 Jun 2026].[Acesso em 03 Jun 2026]. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistaenfermagem/article/view/11348/13064.
  5. Nascimento JM, Silva AM, Oliveira RM, et al. Diabetes mellitus gestacional e suas implicações materno-fetais. Res Soc Dev. 2022;11(16):e230111638457. [Acesso em 03 Jun 2026]. Disponível em: https://doi.org/10.33448/rsd-v11i16.38457.
  6. Kim Y, Yang PS, Jang E, Yu HT, Kim TH, Uhm JS, et al. Diabetes mellitus and stroke. Diabetes Metab J. 2023;47(2):174-191. doi:10.4093/dmj.2022.0288. [Acesso em 03 Jun 2026]. Disponível em:  https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9911852/.