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Os excessos fazem parte da vida. Quem nunca comemorou demais em um casamento, se refugiou na comida durante um Natal complicado ou aproveitou cada impulso festivo do carnaval? Embora naturais em momentos de celebração, esses exageros podem trazer riscos¹.

O consumo elevado de sal, álcool e gorduras interfere diretamente na saúde cardiovascular2-5 e merece atenção “em qualquer idade”, explica o cardiologista Dr. Jairo Lins Borges (CRM-SP 46977). Entender esses efeitos é essencial para quem busca controlar a pressão alta, o colesterol e cuidar do coração mesmo nos momentos de festa.

Por que exagerar na comida não faz bem pro coração?

Segundo o Dr. Jairo, comer demais coloca uma carga significativa sobre o coração e aumenta o risco de doenças cardíacas, insuficiência cardíaca e danos vasculares.

Se um hábito, esse excesso favorece o ganho de peso e desencadeia uma série de mudanças que afetam o coração direta e indiretamente. Entre essas alterações estão o aumento da pressão arterial, transformações estruturais no coração, processos inflamatórios e maior risco de insuficiência cardíaca, arritmias e aterosclerose2,3.

Outro ponto preocupante da alimentação exagerada é a ingestão elevada de sódio. O sódio em excesso aumenta a pressão arterial e pode provocar efeitos cardiovasculares prejudiciais4.

Além disso, o aumento da pressão também afeta negativamente os vasos sanguíneos, coração, rins e pode interferir em tratamentos4. “Para quem já tem problemas para controlar a pressão, a ingestão exagerada de sódio pode reduzir o efeito de medicamentos anti hipertensivos, colocando a pessoa em risco”, alerta o médico.

Qual o risco para o coração no fim do ano?

Estudos mostram que o período do Natal e Ano Novo está associado a um aumento de mortes por problemas cardiovasculares, um fenômeno chamado pelos cientistas de “Christmas Holiday Effect” – “Efeito do Feriado de Natal”, em tradução livre¹.

O fenômeno representa um risco aumentado de infarto agudo do miocárdio (IAM), o tipo mais comum de ataque cardíaco, no período. Em um estudo observacional sueco, foi apontado um aumento no risco geral de IAM de 15% durante as festas6.

Esse cenário tem múltiplas explicações, mas os pesquisadores apontam principalmente fatores típicos do período, como mudanças no padrão alimentar e aumento no consumo de bebidas alcoólicas6.

Bebidas alcoólicas: existe dose segura?

Os efeitos do álcool sobre a saúde têm sido estudados por décadas, e hoje há consenso científico: não existe uma quantidade considerada segura para o consumo5.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), qualquer dose já é suficiente para gerar algum nível de impacto no organismo. Isso significa que o risco começa no primeiro gole, e aumenta conforme a ingestão cresce. Para quem busca se proteger, a relação é clara: quanto menos se bebe, mais segura é a escolha5.

No sistema cardiovascular, esses efeitos aparecem de diferentes maneiras, especialmente quando o consumo aumenta durante festas e comemorações¹. Os impactos do álcool no coração incluem7:

  • Oscilação da pressão arterial: depois de três ou mais doses, a pressão pode cair nas primeiras horas e subir novamente em seguida. Essas variações aumentam o esforço do coração para manter o corpo funcionando.
  • Maior risco de doenças cardíacas: o consumo de álcool é associado a diferentes tipos de doença isquêmica do coração, que ocorre quando o fluxo de sangue para o músculo cardíaco fica reduzido. Quanto mais frequente o consumo, maior a chance de desenvolver esses problemas.
  • Aumento da chance de arritmias: beber em excesso está ligado a um risco maior de fibrilação atrial, uma arritmia que deixa os batimentos irregulares e pode causar complicações sérias.
  • Maior risco de AVC: consumir duas a quatro doses por dia ou mais aumenta o risco de qualquer tipo de derrame, já que o álcool interfere na pressão e no funcionamento dos vasos sanguíneos.
  • Alterações na estrutura do coração: o álcool pode levar ao aumento do átrio esquerdo e à formação de fibrose, mudanças que facilitam o surgimento de arritmias como a fibrilação atrial.

Em casos de consumo muito elevado, o Dr. Jairo também alerta para o risco crescente de morte súbita por infarto. Por conta dos diversos efeitos nocivos do álcool no coração, o médico orienta: “beber com moderação é crucial para cuidar da saúde cardiovascular em momentos de festas, quando a ingestão tende a aumentar pelos encontros sociais, principalmente para quem já convive com condições cardíacas.”

Dica de médico: como aproveitar festas e feriados reduzindo danos

Em momentos de comemorações, é comum que as pessoas abusem da comida e bebidas alcoólicas¹. Excessos que, como vimos, são potenciais inimigos da saúde cardiovascular1-7. Por isso, o médico destaca algumas orientações para aproveitar os momentos especiais sem descuidar do coração.

A primeira recomendação, segundo o Dr. Jairo, é evitar o consumo excessivo desses alimentos e priorizar preparações com verduras, legumes, raízes, grãos e carnes mais magras. “Comer tudo de uma vez também sobrecarrega o organismo. Além de maneirar em alimentos gordurosos, procure fazer refeições mais espaçadas e em porções menores para ajudar a reduzir o impacto.” Pular refeições também não é indicado, pois favorece exageros posteriores, diz o médico.

No caso do álcool, a moderação deve sempre estar em foco. “Intercalar cada dose com água é essencial. Contribui para manter a hidratação e reduz os efeitos do álcool no coração.” Além disso, o médico recomenda dormir bem e praticar atividade física antes e depois das festas, o que ajuda o organismo a manter um equilíbrio importante para a saúde cardiovascular.

“É possível aproveitar o fim de ano e outras celebrações sem abrir mão dos cuidados essenciais com o coração”, completa o Dr. Jairo.

*Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor

REFERÊNCIAS

  1. Knight J, Schilling C, Barnett A, Jackson R, Clarke P. Revisiting the “Christmas Holiday Effect” in the Southern Hemisphere. J Am Heart Assoc. 2016 Dec 22;5(12):e005098.
  1. Institute of Medicine (US) Committee on Diet and Health; Woteki CE, Thomas PR, editors. Eat for Life: The Food and Nutrition Board’s Guide to Reducing Your Risk of Chronic Disease. Washington (DC): National Academies Press (US); 1992. Chapter 6, Fats, Cholesterol, And Chronic Diseases sandra regina siarkowski – FMC
  2. Powell-Wiley TM, Poirier P, Burke LE, Després JP, Gordon-Larsen P, Lavie CJ, Lear SA, Ndumele CE, Neeland IJ, Sanders P, StOnge MP; American Heart Association Council on Lifestyle and Cardiometabolic Health; Council on Cardiovascular and Stroke Nursing; Council on Clinical Cardiology; Council on Epidemiology and Prevention; and Stroke Council. Obesity and Cardiovascular Disease: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2021 May 25;143(21):e984-e1010.
  3. Whelton PK, Appel LJ, Sacco RL, Anderson CA, Antman EM, Campbell N, Dunbar SB, Frohlich ED,Hall JE, Jessup M, Labarthe DR, MacGregor GA, Sacks FM, Stamler J, Vafiadis DK, Van Horn LV. Sodium, blood pressure, and cardiovascular disease: further evidence supporting the American Heart Association sodium reduction recommendations. Circulation. 2012 Dec 11;126(24):2880-9.
  4. World Health Organization. No level of alcohol consumption is safe for our health [Internet]. 2023. [Acesso em 17 dez. 2025]. Disponível em: https://www.who.int/europe/news/item/04-01-2023-no-level-of-alcoholconsumption-is-safe-for-our-health
  5. Mohammad MA, Karlsson S, Haddad J, Cederberg B, Jernberg T, Lindahl B, et al. Christmas, national holidays, sport events, and time factors as triggers of acute myocardial infarction: SWEDEHEART observational study 1998-2013. BMJ. 2018 Dec 12;k4811.
  6. Piano MR, Marcus GM, Aycock DM, Buckman J, Hwang CL, Larsson SC, Mukamal KJ, Roerecke M; on behalf the American Heart Association Council on Lifestyle and Cardiometabolic Health; Council on Cardiovascular and Stroke Nursing; Council on Clinical Cardiology; and Stroke Council. Alcohol Use and Cardiovascular Disease: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2025 Jul 8;152(1):e7-e21.