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Publicado em: 1 de outubro de 2025
A Organização Mundial da Saúde classifica a epilepsia como uma doença cerebral crônica não-transmissível. Ou seja, é uma condição que não se pode “pegar” de outra pessoa e que, na maioria das vezes, não tem cura.¹
Estima-se que 50 milhões de pessoas em todo o mundo convivam com a epilepsia.¹ Mas, diferente do que se possa imaginar, ter a doença não significa que a pessoa estará privada de ter uma vida normal.
Entender o que é a epilepsia e seus diferentes tipos abre portas para o tratamento adequado e para uma vida plena, apesar da doença.
A epilepsia, também chamada de transtorno epiléptico, ocorre quando grupos de neurônios, as células responsáveis por transmitir sinais no cérebro, passam a emitir impulsos elétricos de forma desorganizada.2
Em vez de agirem em harmonia para controlar pensamentos, emoções, movimentos e percepções, esses neurônios se desregulam, provocando descargas elétricas anormais e involuntárias que resultam em convulsões e outros sintomas neurológicos.²
Durante uma crise epiléptica, diversos neurônios disparam sinais simultaneamente, em um ritmo muito mais rápido que o normal. Essa atividade elétrica intensa pode causar movimentos involuntários, alterações sensoriais e emocionais e até perda de consciência.²
Enquanto algumas pessoas se recuperam rapidamente após uma crise, outras podem levar minutos ou até horas. É comum haver sonolência, fraqueza muscular, confusão mental ou dores no corpo. O tempo de recuperação e os sintomas variam de pessoa para pessoa.²
Não. Apesar de as convulsões serem os episódios mais conhecidos no senso comum, as manifestações da epilepsia são diversas. As convulsões são apenas uma das formas possíveis de crise.1
Sintomas menos dramáticos como lapsos de atenção, espasmos musculares ou alterações comportamentais também são formas de crise epiléptica.¹
Ou seja, há diferentes tipos de crises epilépticas, com diferentes gravidades e impactos para a vida do paciente. Algumas pessoas podem ter convulsões e perder a consciência; outras podem simplesmente parar o que estão fazendo e olhar fixamente para o “nada” por um período de tempo, como se o cérebro estivesse sendo reiniciado.²
A epilepsia é diagnosticada quando ocorrem duas ou mais convulsões não provocadas. Ou seja, ter uma única convulsão, o que acontece com até 10% da população mundial, não significa que o indivíduo tenha epilepsia.¹
Com o diagnóstico correto e o tratamento adequado, cerca de 70% das pessoas com epilepsia podem viver sem crises.¹
De forma geral, as crises epilépticas são divididas em dois grupos: as crises focais e as crises generalizadas.²
Crises focais (também chamadas de crises parciais) começam em uma parte específica do cérebro.2 Imagine que durante uma chuva forte um transformador queimou, deixando o seu bairro sem luz, mas o restante da cidade continua com a energia elétrica funcionando normalmente.
Assim são as crises focais: a descarga elétrica desordenada afeta uma região limitada do cérebro, e os sintomas vão depender de onde exatamente isso aconteceu.² Por exemplo, se a crise epiléptica começa numa área do cérebro que controla o movimento das mãos, a pessoa poderá sentir contrações involuntárias apenas nas mãos.
Crises generalizadas, por outro lado, são como um blecaute que afeta toda a cidade ao mesmo tempo. Elas começam simultaneamente nos dois lados do cérebro e costumam causar perda de consciência, quedas, espasmos ou movimentos bruscos dos músculos.²
Seus sintomas variam dependendo do tipo de crise:2
Assim como existem muitos tipos de crises, há também muitos tipos distintos de epilepsia. As mais incidentes são:
Embora essas sejam as mais usuais, é importante ressaltar que existem muitas outras variações de síndromes epilépticas, cada uma com causas, sintomas e manifestações diferentes.²
Momentos antes de uma crise focal, a pessoa pode permanecer consciente, mas sente sensações estranhas, como um cheiro que não existe, um déjà vu ou emoções inesperadas.3
Em alguns casos, ocorrem também movimentos involuntários em uma parte do corpo, ou comportamentos repetitivos, como piscar ou mastigar, chamados de automatismos.²
Há também crises focais com alteração da consciência, nas quais a pessoa parece estar em transe. Ela pode continuar fazendo o que estava fazendo antes da crise, como lavar louça, mas de forma repetitiva e desorganizada.2
Essas crises geralmente duram até dois minutos e muitas vezes são confundidas com desatenção ou com um comportamento “excêntrico”.²
Algumas pessoas relatam sensações conhecidas como “auras”, que funcionam como um sinal de que a crise está por vir. Outros notam sinais como mudanças perceptíveis no humor ou no corpo horas antes da crise.2-3
Após o episódio, podem surgir dores de cabeça, musculares e confusão mental.²
Epilepsia é uma doença multifatorial, com componentes genéticos, infecciosos, metabólicos ou imunológicos. Em cerca de 50% dos casos, a causa é desconhecida. Mas sabemos que dentre as principais causas conhecidas da doenças estão estas:1
Há também fatores que aumentam a incidência de convulsões entre os indivíduos que convivem com a epilepsia.
Em adultos, o estresse emocional e desequilíbrios metabólicos, como baixo nível de açúcar no sangue ou baixa oxigenação, são estressores que podem levar à crises. Em crianças, a febre alta pode desencadear convulsões.4
A maioria das pessoas com epilepsia pode levar uma vida plena e ativa, especialmente se o tratamento for adequado. Mesmo assim, três em cada quatro pessoas que vivem com epilepsia em países de baixa renda ainda não têm acesso aos cuidados de que precisam.¹
“Pessoas com epilepsia podem ter uma vida completamente normal, mas isso requer diagnóstico correto, para entender o tipo de crise mais frequente e qual é o tratamento mais adequado. Acontece que isso não é simples. A doença ainda carrega uma conotação muito negativa e muitas pessoas não entendem seus sintomas, não buscam ajuda médica, ou quando buscam não encontram na rede pública, e muitos também não contam com o apoio familiar para seguir com o tratamento adequado”, afirma o neurologista Dr. Antônio Eduardo Damin (CRM 104274).
O estigma social em volta da doença pode causar isolamento, insegurança e dificuldade de inclusão em ambientes de trabalho, na escola e na vida social em geral.² Por conta disso, a epilepsia acaba frequentemente associada a condições como depressão e ansiedade.
Essas comorbidades afetam significativamente a qualidade de vida e precisam ser acompanhadas com a mesma atenção que a própria epilepsia.²
Em crianças, há maior risco também de desenvolvimento do transtorno do déficit de atenção (TDA/TDAH). Alguns problemas de comportamento ou emocionais podem surgir até mesmo antes das primeiras crises.²
Tanto crianças quanto adultos devem ter acesso a apoio psicológico, aconselhamento e, quando necessário, medicações específicas.²
Manter a calma é o primeiro passo. No caso de convulsões mais violentas, a pessoa em crise deve ser colocada em um local seguro, deitada, com a cabeça protegida para evitar choques contra o chão. O rosto deve ser virado de lado para permitir a drenagem de saliva ou vômito.4
Jamais coloque objetos na boca da pessoa ou tente contê-la à força. Também não é recomendável tentar acordá-la (por exemplo, jogando água em seu rosto).4
Depois da crise, é importante falar com a pessoa de forma calma, explicar o que aconteceu e observar sua recuperação. Se a crise durar mais de cinco minutos, ou se houver episódios repetidos sem retomada da consciência, é necessário acionar o serviço de emergência.4
Por fim, caso seja a primeira crise do paciente, deve-se procurar atendimento médico especializado após a recuperação para um diagnóstico assertivo e início do tratamento adequado.4
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