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Sentir dificuldade para evacuar durante a gravidez é mais comum do que se imagina. Estudos indicam que uma a cada quatro grávidas sofrem com prisão de ventre em algum momento da gestação ou após o parto¹.

Apesar disso, falar sobre esse problema ainda gera muito constrangimento e até medo entre as futuras mães. Muitas se perguntam, por exemplo, se a constipação seria indicativa de algo errado com a saúde do bebê.

Logo, o primeiro passo é desmistificar o problema: constipação durante a gravidez ou após o parto é, sim, algo comum. Cerca de 25% dos brasileiros em geral sofrem com esse problema.² Ou seja, essa situação está longe de ser exclusividade de quem passa por uma gestação.

Neste guia, tentaremos responder algumas das perguntas mais comuns a respeito desse problema, para que você entenda melhor o que é normal e o que merece atenção no caso de constipação durante a gravidez.

Quão comum é a prisão de ventre durante a gestação?

Vimos acima que cerca de um quarto (25%) da população do país relata sofrer com constipação. Entre as gestantes esse índice é bem mais alto: um estudo publicado em 2023, por exemplo, realizado com grávidas brasileiras, apontou que 63,8% delas apresentavam constipação.3

Outro estudo do mesmo ano, realizado na Universidade Estadual da Paraíba, revisou dez anos de pesquisas sobre o tema e encontrou uma taxa de 55,7% de incidência de constipação intestinal entre mulheres gestantes e 45,3% durante o puerpério.4

Esses números colhidos no Brasil são confirmados por dados globais: uma pesquisa de 2020 realizada por cientistas da Finlândia indicou que o risco de grávidas terem constipação em algum momento da gestação é duas a três vezes maior que o das não-gestantes.5

No estudo, 44% das mulheres tiveram constipação a partir do segundo trimestre de gravidez; 36% enfrentaram o problema no terceiro trimestre.5

A incidência de constipação aumenta após o nascimento do bebê: 47% das mamães que realizaram parto normal e até 57% das que fizeram cesárea enfrentaram o problema.5

Ou seja: dá pra dizer que a constipação é um problema bem comum entre as gestantes. Vale destacar ainda que a constipação é mais comum em mulheres que já apresentavam o problema antes da gestação.5

O que causa constipação na gravidez?

Na população em geral, constipação costuma estar associada a maus hábitos alimentares, como a baixa ingestão de água e de fibras.6 No caso das grávidas, porém, o quadro é mais multifatorial.

Durante a gestação, os hormônios da placenta reduzem a velocidade de movimento do intestino delgado.7

Os hormônios femininos desempenham papel essencial no funcionamento do trato gastrointestinal durante a gravidez. A progesterona, por exemplo, tem efeito relaxante sobre a musculatura lisa do intestino, reduzindo seus movimentos.7

Esse relaxamento compromete o ritmo natural do trânsito intestinal, fazendo com que os alimentos demorem mais para percorrer o tubo digestivo e favorecendo a reabsorção de água, o que deixa as fezes mais secas.5

Além disso, durante a gravidez, o útero se expande para abrigar o bebê em desenvolvimento. Isso faz com que o útero comprima órgãos e estruturas próximas, o que inclui o reto e a parte inferior do intestino, dificultando sua movimentação e funcionamento.7

O aumento dos níveis de progesterona, aliado ao crescimento do útero, pode resultar em constipação frequente entre gestantes.¹

Além disso, logo após o parto, efeitos colaterais de alguns medicamentos para a recuperação da mãe podem favorecer o surgimento ou agravamento da prisão de ventre.8

Como saber se estou constipada?

Embora a constipação na gravidez seja comum, o diagnóstico requer observação de dois ou mais sintomas persistentes, dentre eles:9

  • Menos de três evacuações por semana;
  • Fezes pequenas, secas, duras ou fragmentadas;
  • Esforço ou dor ao evacuar;
  • Sensação de esvaziamento incompleto;
  • Dor abdominal, inchaço ou náusea.

Esses sinais podem estar associados tanto aos fatores hormonais e fisiológicos já mencionados quanto a hábitos como sedentarismo, consumo insuficiente de fibras ou líquidos e o uso de certos medicamentos.5

É perigoso fazer força para evacuar na gravidez?

Fazer força ao evacuar durante a gravidez, embora desconfortável, não oferece riscos diretos ao bebê.8

Porém, o esforço repetido pode aumentar a pressão na região anal, favorecendo o surgimento de hemorroidas ou fissuras.8

Isso ocorre com mais frequência quando as fezes estão endurecidas ou o intestino permanece preso por longos períodos.10

Quantos dias sem evacuar é perigoso para uma grávida?

De forma geral, evacuar menos de três vezes por semana pode ser motivo de preocupação.11

Se a evacuação não normalizar por mais de três semanas, é fundamental procurar um médico para investigação e tratamento adequado.11

Como tratar a prisão de ventre na gravidez?

A prisão de ventre tende a diminuir após o nascimento do bebê. Estudos indicam que, um mês após o parto (seja parto normal, seja cesariana), as pacientes relatam menos episódios de constipação do que as mulheres do grupo controle, isto é, as não-gestantes.5

Ainda assim, 68% a 82% das puérperas continuam apresentando sintomas gastrointestinais como flatulência, sede excessiva e dor abdominal até 30 dias após o parto.5

Esses dados reforçam a importância de adotar medidas preventivas e buscar tratamento adequado desde o início da gestação. A boa notícia é que, na maioria dos casos, a constipação na gravidez pode ser aliviada com mudanças simples na dieta e no estilo de vida.9

Tudo começa por uma alimentação equilibrada. Incluir na dieta frutas, como maçãs, damascos, uvas, framboesas e morangos, pode ajudar a amolecer as fezes. É fundamental também manter uma boa hidratação e evitar bebidas alcoólicas. O aumento gradual do consumo de fibras, incluindo cereais integrais, verduras e legumes também é recomendado.9

Além da alimentação, algumas estratégias simples podem ajudar:9

  • Estabelecer um horário fixo para ir ao banheiro;
  • Não adiar quando sentir vontade;
  • Manter uma postura favorável à evacuação (com os pés elevados em um banquinho);
  • Praticar atividade física regular.

Grávidas podem tomar remédios para constipação?

Quando as mudanças alimentares e de hábitos de vida listadas acima não surtem efeito, médicos podem, sim, recomendar medicamentos complementares para tratar a constipação em grávidas.12

Entre as opções estão os probióticos, que são microrganismos vivos, popularmente conhecidos como “bactérias do bem”, pois ajudam no equilíbrio da flora intestinal, melhorando a frequência e consistência das evacuações.12

Laxantes também podem ser indicados para pacientes grávidas, mas seu uso deve ser controlado.12

Agentes formadores de volume, amolecedores de fezes e laxantes osmóticos (isto é, que atuam hidratando o bolo fecal) costumam ter menos efeitos colaterais. Esse tipo de laxante não é irritativo, é seguro para uso contínuo e não causam desconforto. Já os laxantes estimulantes, apesar de eficazes, podem causar cólicas e devem ser usados com mais cautela.12

É importante evitar a automedicação. Muitos mitos envolvem o uso de laxantes, como a falsa crença de que é necessário evacuar diariamente para evitar “intoxicação” do corpo. Essa ideia não tem respaldo científico e pode levar ao uso desnecessário de medicamentos.5

Todo tratamento deve ser feito com acompanhamento médico, que vai considerar o histórico da paciente, os sintomas e as melhores opções para o bem-estar da gestante e do bebê.

Referências

  1. Revista Brasileira de Coloproctologia. Constipação na gravidez. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbc/a/Z3tbW8fJrJX8RJxpVQQmkRP/?lang=pt Acesso em: 11.06.2025
  2. SCHMIDT, F. M. Q. et al. Prevalence of self-reported constipation in adults from the general population. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 49, n. 3, p. 440–449, jun. 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reeusp/a/dDm9NTtsJqhYfhYXrMyWxKm. Acesso em: 23.07.2025
  3. MAGRANI, Ana Beatriz Guelber; POVEDANO, Andrea; ROCCO, Regina. Incidência de constipação intestinal durante a gravidez. 61º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia. Rio de Janeiro, 2023. Disponível em: https://cbgo2023.com.br/evento/cbgo2023/trabalhosaprovados/naintegra/2979. Acesso em 07/08/2025.
  4. ANJOS, Lorenna Delfino Barbosa dos. Prevalência e tratamentos fisioterapêuticos da constipação intestinal na gestação e pós-parto: uma revisão integrativa. 2024. 13 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Fisioterapia) – Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande, 2023. Disponível em: http://dspace.bc.uepb.edu.br/jspui/handle/123456789/31378. Acesso em 07/08/2025
  5. M Kuronen, S Hantunen, L Alanne, H Kokki, C Saukko, S Sjövall, K Vesterinen, M Kokki. Pregnancy, puerperium and perinatal constipation – an observational hybrid survey on pregnant and postpartum women and their age-matched non-pregnant controls. Disponível em: https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1471-0528.16559 Acesso em: 11.06.2025
  6. Constipação – Portal da Coloproctologia da Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Disponível em: https://portaldacoloproctologia.com.br/constipacao Acesso em: 23.07.2025.
  7. Manual MSD. Alterações físicas durante a gravidez. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/problemas-de-saúde-feminina/gestação-normal/alterações-físicas-durante-a-gravidez Acesso em: 23.07.2025
  8. Manual MSD. Considerações gerais sobre cuidados pós-parto. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/problemas-de-saúde-feminina/cuidados-pós-parto/considerações-gerais-sobre-cuidados-pós-parto Acesso em: 23.07.2025
  9. NHS. Constipation. Disponível em: https://www.nhs.uk/conditions/constipation/ Acesso em: 11.06.2025
  10. Biblioteca Virtual em Saúde. Hemorróidas. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/hemorroidas/ Acesso em: 11.06.2025
  11. Mayo Clinic. Constipation. Disponível em: https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/constipation/symptoms-causes/syc-20354253?p=1 Acesso em: 23.07.2025
  12. TROTTIER, M.; EREBARA, A.; BOZZO, P. Treating constipation during pregnancy. Canadian Family Physician, v. 58, n. 8, p. 836, ago. 2012. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3418980/ Acesso em 23.07.2025