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No mundo, cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva possuem endometriose. Essa porcentagem equivale a 190 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).1,2

Neste artigo, você irá entender o que é endometriose, quais os sintomas e como ela pode interferir na fertilidade feminina.

O que é endometriose?

A endometriose é uma doença inflamatória crônica. Ela se caracteriza pelo crescimento de tecidos parecidos com os que revestem o útero internamente (endométrio) para fora da cavidade uterina.3

A pelve é o local em que a endometriose mais ocorre. No entanto, em algumas mulheres, a doença pode aparecer em outras partes do corpo, incluindo o abdômen e o tórax.1 Além disso, também pode afetar estruturas como parte do intestino grosso, a bexiga, o apêndice e a vagina.4

Assim como tantas doenças, ainda não se sabe qual a causa exata da endometriose, mas pesquisas recentes sugerem que ela está associada à desregulação do sistema imunológico.Foi constatado que as pacientes com endometriose apresentam, além de histórico da doença na família, taxas mais altas de outras condições ligadas à imunidade, como lúpus, esclerose múltipla e doença inflamatória intestinal.1

Quais os estágios da endometriose?

A forma mais usada para classificar a endometriose é aclassificação revisada da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM, na sigla em inglês). Ela avalia o tamanho, a profundidade e o local dos “focos” de crescimento do tecido similar ao do endométrio, além da presença e gravidade das aderências.5

Seguindo essa classificação, os estágios da endometriose são5:

  • Estágio 1 (endometriose mínima): presença de poucos implantes (focos de tecido semelhante ao endométrio que crescem fora do útero) isolados e sem aderências relevantes.
  • Estágio 2 (endometriose leve): implantes superficiais, geralmente menores que cinco centímetros, sem aderências significativas.
  • Estágio 3 (endometriose moderada): múltiplos implantes endometrióticos, com aderências visíveis ao redor das trompas (que possibilitam o transporte dos espermatozoides até o óvulo) e dos ovários (periovarianas). Essas aderências são tecidos que funcionam como uma “cola”, fazendo com que os órgãos pélvicos fiquem grudados uns aos outros, dificultando a gravidez.
  • Estágio 4 (endometriose grave): múltiplos implantes superficiais e profundos, presença de endometriomas (cistos de endometriose) e aderências densas e firmes.

O estágio da endometriose não indica, necessariamente, quanta dor a pessoa vai sentir nem como será o prognóstico da doença. Ou seja, uma mulher com estágio 1 pode sentir muita dor, e outra com estágio 4 pode sentir pouca dor. 5

Isso acontece porque a intensidade da dor depende mais da profundidade das lesões e do local onde elas estão, especialmente quando atingem regiões com maior quantidade de nervos, que são mais sensíveis.5

A endometriose também pode ser classificada em: endometriose peritoneal superficial, endometriose ovariana (endometrioma) e endometriose infiltrativa profunda, de acordo com a localização e a profundidade do tecido endometrial fora do útero.3

Quais os sintomas da endometriose?

Os principais sintomas associados à endometriose são³:

  • Cólica menstrual intensa;
  • Dor pélvica crônica;
  • Dor durante a relação sexual com penetração;
  • Infertilidade;
  • Queixas intestinais e urinárias.

Os sinais da doença podem se manifestar de forma variada, sendo que há mulheres que são assintomáticas: ou seja, não apresentam sintomas. A endometriose é considerada de difícil diagnóstico em muitos casos1. 

A detecção da doença pode ser feita a partir de exames de imagem (como ultrassonografia ou ressonância magnética), cirurgia laparoscópica (procedimento feito a partir de pequenos cortes na região do abdômen) e análise de sintomas¹.

Novos testes, que funcionam por meio de exames de sangue e autoestes utilizando saliva e sangue menstrual, também têm sido utilizados1.

Qual a relação entre endometriose e infertilidade?

Entre as mulheres com infertilidade, cerca de 25% a 50% possuem endometriose.¹
Mas, afinal, qual é a relação entre as duas condições?

Confira, abaixo, três mecanismos envolvidos:6

Endometrioma
Quando a endometriose acomete os ovários, pode levar à formação de cistos chamados endometriomas. Essas lesões podem crescer, comprometer a função ovariana e impactar negativamente a fertilidade feminina.

Inflamação crônica

A doença desencadeia uma resposta inflamatória, com aumento nos níveis da proteína citocina e de uma substância chamada prostaglandina. Esse processo cria um ambiente reprodutivo desfavorável, que pode atrapalhar a fecundação e a implantação do embrião.

Alterações na anatomia da pelve

Em graus mais avançados da doença, podem ocorrer alterações estruturais na anatomia pélvica, dificultando o encontro entre o óvulo e o espermatozoide.

Síndrome do folículo luteinizado não roto

Mulheres  com  endometriose possuem mais chances de ter a Síndrome do folículo luteinizado não roto (LUF). Nela, a estrutura de nome folículo dominante falha no  processo  de  ruptura  e  não promove a liberação do oócito (célula reprodutiva feminina).

É possível engravidar tendo endometriose?

Apesar de ser mais difícil engravidar tendo endometriose, o diagnóstico não quer dizer que a mulher será incapaz de ter filhos naturalmente. Além disso, há uma série de tratamentos que incluem medidas para preservar a fertilidade ou aumentar as chances de gravidez, como acompanhamento médico especializado, indução da ovulação e, em determinados casos, cirurgia para retirada das lesões da doença.3

Um ponto a ser considerado é que repetidas cirurgias para tratar o endometrioma podem danificar o tecido ovariano saudável, reduzindo o número de óvulos disponíveis e até aumentando o risco de falência ovariana precoce. Dessa forma, o congelamento de óvulos (uma forma de preservação da fertilidade) é visto como uma alternativa para mulheres com endometriose.7

Os tratamentos de reprodução assistida, como a inseminação intrauterina (IIU) e a fertilização in vitro (FIV), podem ser indicados para mulheres com endometriose. A escolha da técnica deve considerar fatores como o estágio da doença, o comprometimento das trompas, a idade da paciente, o tempo de tentativa para engravidar e a presença de outros fatores de infertilidade.8

A IIU associada à indução da ovulação é uma opção eficaz nos casos de endometriose mínima ou leve, desde que alguns requisitos sejam atendidos. Para mulheres com mais de 35 anos, pode ser avaliada a FIV, que é o tratamento mais indicado nos casos de endometriose de estágio três ou quatro, especialmente quando há comprometimento das trompas ou falha em tratamentos anteriores.8

É fundamental alinhar expectativas com o médico de confiança da paciente, entender as possibilidades reais e tomar decisões baseadas em acompanhamento individualizado. Embora a endometriose possa tornar o processo mais desafiador, as diversas abordagens terapêuticas existentes hoje permitem que muitas mulheres realizem o desejo de engravidar mantendo uma boa qualidade de vida.

Conteúdo produzido em maio/2026

Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.

Referências

1. World Health Organization. Endometriosis [Internet]. Geneva: WHO; 2021 [Acesso em 23 fev 2026] . Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/endometriosis.

2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. População estimada do país chega a 213,4 milhões de habitantes em 2025 [Internet]. 2025 [Acesso em 23 fev 2026]. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44305-populacao-estimada-do-pais-chega-a-213-4-milhoes-de-habitantes-em-2025.

3. Ministério da Saúde (BR). Endometriose [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2024 [Acesso em 23 fev 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/e/endometriose.

4. Biblioteca Virtual em Saúde. Endometriose [Internet]. Brasília: BVS; [Acesso em 23 fev 2026]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/endometriose/.

5. Ministério da Saúde (BR), Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas – Endometriose [Internet]. Brasília: CONITEC; 2016 [Acesso em 23 fev]. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/pcdt_endometriose_2016-1.pdf;

6. Duarte ME, Righi MB. Associação entre endometriose e infertilidade feminina: uma revisão de literatura. Acta Elit Salutis [Internet]. 2021 [Acesso em 23 fev 2026];4(1). Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/salutis/article/view/26895/17400.

7. Carneiro MM, Filho JSLDC, Petta CA, Lino CAPC, Castro CLA, Schor E, et al. Fertility preservation in women with endometriosis. Rev Bras Ginecol Obstet. 2021 Oct;43(10):796-802.

8. Nácul AP, Spritzer PM. Aspectos atuais do diagnóstico e tratamento da endometriose. Rev Bras Ginecol Obstet. [Internet]  2010;32(6):298-307. [Acesso em 23 fevereiro 2026] Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbgo/a/8CN65yYx6sNVhjTbNQMrB5K/?format=html&lang=pt