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Publicado em: 22 de outubro de 2025
Assuntos abordados
Se você já foi a uma consulta médica, provavelmente passou por uma anamnese, mesmo sem saber do que se trata. “É uma das etapas mais importantes da prática médica, usada para compreender as queixas do paciente e orientar o plano de tratamento”, explica o médico psiquiatra Dr. Rogério Onofre (CRM-SP 192.427).
Embora presente em todas as áreas da saúde, a anamnese psiquiátrica tem um peso ainda mais delicado quando o assunto é saúde mental. Segundo Onofre, é por meio dela que o médico pode identificar sintomas, fatores de risco e definir, com segurança, se medicamentos como antidepressivos ou ansiolíticos são de fato necessários e não trarão mais malefícios do que benefícios ao paciente.
De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados em 2017, o Brasil está entre os países com maiores índices de depressão e ansiedade no mundo. Cerca de 5,8% da população sofre com depressão e 9,3% lida com transtornos de ansiedade.¹
Diante desses casos, nem sempre o tratamento medicamentoso é a primeira escolha. É preciso uma avaliação de cada paciente que considere fatores como o acesso à tratamento psicossocial, o estado geral de saúde e a coexistência de transtornos mentais8
Além disso, o Dr. Rogério Onofre aponta que a automedicação representa um risco sério. “O cuidado com a saúde mental é um desafio no Brasil. Muitos não procuram ajuda especializada e acabam recorrendo a válvulas de escape, como o álcool, drogas ou o uso indiscriminado de remédios.”
Essa dificuldade em buscar ajuda aparece também em pesquisas: o relatório Panorama de Saúde Mental referente ao segundo semestre de 2023, do Instituto Cactus, mostrou que 55,8% dos brasileiros nunca procuraram um profissional de saúde para lidar com transtornos de ansiedade. Entre os homens, esse número sobe para 65,4%.²
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Na opinião do especialista consultado, quem dispensa a avaliação médica para o cuidado com a saúde mental pula um dos aspectos mais importantes de qualquer tratamento. “Uma avaliação profunda e individualizada vai além dos sintomas, buscando entender o panorama completo da vida do paciente antes de prescrever qualquer tratamento medicamentoso”.
A anamnese nada mais é do que a coleta da história clínica do paciente. Durante a consulta, o médico faz perguntas sobre sintomas atuais, histórico de doenças anteriores, uso de substâncias, rotina, hábitos de sono, antecedentes familiares e outros aspectos relevantes.³
No caso da anamnese psiquiátrica, esse processo é ainda mais detalhado: busca compreender não só o estado físico, mas também o funcionamento mental e emocional do paciente. Essa etapa é a base para criar uma relação de confiança entre médico e paciente, estabelecer hipóteses diagnósticas e planejar tanto tratamentos farmacológicos quanto estratégias não medicamentosas.⁴
Na psiquiatria, a anamnese, também chamada de entrevista psiquiátrica, serve para reunir dados clínicos, mas também para criar uma aliança terapêutica, levantar hipóteses diagnósticas, estimar o prognóstico e planejar tanto o tratamento medicamentoso quanto o não medicamentoso.⁴
Para que essa conversa seja produtiva, o especialista precisa criar um ambiente seguro e acolhedor, onde o paciente possa expor suas queixas sem medo de julgamentos. Escuta ativa, empatia e respeito são pontos fundamentais para que a entrevista cumpra seu papel.⁴
Depois da anamnese, o próximo passo para que seja possível definir o melhor tratamento para o paciente é o exame de estado mental. Ele é feito a partir da observação direta do paciente e pode incluir aspectos como aparência, comportamento, fala, humor, afeto, pensamento, percepção, cognição e julgamento.⁵
Esse exame ajuda o médico a compreender não apenas os sintomas relatados, mas também como eles se expressam no momento da consulta médica. É uma ferramenta essencial tanto no primeiro contato quanto nos retornos, permitindo comparar evoluções e ajustar o tratamento. Em alguns casos, até a forma como o paciente se movimenta pode trazer informações relevantes sobre sintomas e efeitos adversos de medicamentos.⁵
A avaliação psiquiátrica é essencial antes de usar antidepressivos. Segundo o Dr. Rogério, essa etapa garante o diagnóstico correto, orienta escolhas seguras e possibilita a diferenciação entre a depressão e outras condições mentais que podem ter diferentes tratamentos, como o transtorno bipolar, luto prolongado, ansiedade primária, uso de substâncias ou causas médicas. Além disso, a anamnese também avalia risco de suicídio, considera quadros de insônia, ansiedade, dor, apetite, comorbidades, a faixa etária e outras condições, como uma gravidez, por exemplo, revisa medicamentos em uso para evitar interações e define metas terapêuticas realistas. “Com base no perfil clínico do paciente, o psiquiatra seleciona a molécula (medicamento), planeja a dosagem e explica os efeitos adversos possíveis, explica sobre a combinação da psicoterapia e medidas de estilo de vida e organiza o seguimento para monitorar resposta e ajustar o tratamento. Esse cuidado aumenta segurança, adesão e a chance de bom desfecho”, diz o psiquiatra.O especialista explica que os efeitos adversos mais comuns dos antidepressivos são: náuseas, falta de apetite, sonolência, sudorese, redução de libido, insônia, prisão de ventre, entre outros nas primeiras semanas após iniciar a medicação9 “Efeitos colaterais são relativamente comuns, principalmente no início do tratamento. Com um acompanhamento médico adequado, a escolha do medicamento considera todas essas possibilidades para que o paciente tenha a melhor adaptação possível e, se necessário, apontar ajustes de medicação ou dosagem para o sucesso do tratamento.”
Apesar da importância do acompanhamento profissional, a automedicação ainda é um problema crescente no Brasil. O uso indiscriminado de antidepressivos e ansiolíticos sem prescrição médica pode acarretar quadros de dependência física e psíquica, além de prejuízos de memória, sedação excessiva, crises de abstinência e até mesmo síndrome serotoninérgica, uma reação adversa grave e potencialmente fatal.⁶,7
Diversos fatores de estilo de vida contribuem para este cenário, como a pressão da vida moderna, a dupla jornada de trabalho e a privação de sono. Diante dessas circunstâncias, a busca por alívio rápido pode levar ao uso de medicamentos. Entre as classes farmacológicas mais utilizadas de forma inadequada estão os benzodiazepínicos, frequentemente consumidos sem adesão à dose e posologia prescritas6
Por isso, procurar um médico psiquiatra é importante para que a avaliação seja feita com cuidado, levando em conta a individualidade de cada pessoa4. O uso racional de antidepressivos e ansiolíticos só é possível com a anamnese e avaliação psiquiátrica, pois cada organismo responde de forma diferente ao tratamento6. É essa escuta atenta e especializada que garante um cuidado efetivo da saúde mental.4,6
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