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O transtorno depressivo maior (depressão) é a principal causa de incapacidade em todo o mundo.1 As pessoas que lidam com essa doença podem apresentar sentimentos de tristeza, culpa e autodesvalorização, acreditando que nunca mais conseguirão sentir prazer ou alegria.2 O tratamento da depressão se baseia na prescrição de psicoterapia e medicamentos antidepressivos.3

A administração adequada dessas medicações é essencial para reduzir o impacto da doença. Nesse sentido, uma das questões mais complexas é encontrar a dose ideal.1 É preciso ajustá-la de acordo com as necessidades específicas de cada indivíduo.4 Quer saber mais sobre o assunto? Neste post, vamos abordar como esse processo é feito e qual a sua importância. Confira!

O que é a dose alvo no tratamento da depressão?

O tratamento tem como objetivo principal alcançar a remissão dos sintomas.5 Por isso, é fundamental ajustar adequadamente a dose do antidepressivo e a duração do tratamento, visando atingir e manter a remissão a longo prazo.4

Geralmente, os antidepressivos são tomados seguindo um cronograma, que parte da ideia de que o benefício do medicamento depende de manutenção dos níveis da substância no sangue acima de um determinado patamar terapêutico.5

Pacientes que não apresentam melhora dos sintomas no período de duas a quatro semanas depois de iniciar a terapia com antidepressivo, por exemplo, devem ter a dose aumentada, exceto quando o seu organismo não puder tolerá-lo. Caso não haja tolerabilidade para o aumento da dose, é necessário recorrer a outro medicamento.4

Por que ajustar as doses gradualmente é importante?

Ajustar gradualmente as doses dos antidepressivos é fundamental para minimizar possíveis efeitos adversos, permitir que o organismo se adapte ao medicamento e garantir maior segurança e eficácia do tratamento da depressão a longo prazo.6

Esse processo é dividido em três fases principais:6

  • fase aguda
  • fase de continuação
  • fase de manutenção. 

Cada uma delas tem um papel essencial na recuperação do paciente e na prevenção de recaídas.6

A fase aguda corresponde aos primeiros dois ou três meses de tratamento e tem como principal finalidade reduzir os sintomas depressivos. O ideal é que, nesse período, o paciente alcance a remissão completa, ou seja, um retorno ao seu estado normal de funcionamento antes do transtorno depressivo.6 

Essa etapa exige um acompanhamento próximo do médico para avaliar a resposta ao medicamento e, se necessário, ajustar a dose para obter melhores resultados.6

Após essa fase inicial, vem a fase da continuação, que dura cerca de quatro a seis meses.6 Aqui, o foco é manter a melhora conquistada e evitar recaídas dentro do mesmo episódio depressivo.6

Muitas vezes, os sintomas começam a desaparecer antes desse período terminar, mas interromper o tratamento precocemente pode aumentar o risco de recaída.6 Por isso, é indispensável seguir o plano até o final da etapa.6

Por fim, ocorre a fase de manutenção, indicada principalmente para pacientes com histórico de episódios depressivos recorrentes. A sua finalidade é prevenir novas crises, garantindo a estabilidade a longo prazo.6

A duração dessa fase varia de acordo com o quadro clínico e pode ser prolongada caso o risco de recorrência seja alto. O acompanhamento médico contínuo é fundamental para avaliar a necessidade de continuar ou ajustar a medicação.6

Nesse contexto, aumentar a dose do antidepressivo gradualmente pode ajuda a reduzir os efeitos colaterais, especialmente em idosos.7 Antes de iniciar a terapia, também é importante verificar a presença de distúrbios causados pelo uso de substância e outras condições médicas tratadas simultaneamente, a fim de evitar interações medicamentosas indesejadas.8

Efeitos colaterais dos antidepressivos

O uso de antidepressivos pode gerar alguns efeitos colaterais, aos quais é importante prestar atenção. Um efeito adverso possível é a hipomania, condição caracterizada por sintomas semelhantes aos da mania, como agitação psicomotora, humor elevado (eufórico ou irritado) e aumento de energia. Esse quadro costuma ocorrer especialmente em pacientes predispostos, como aqueles com transtorno bipolar.8

Reações adversas como tontura, sedação, dificuldades cognitivas e comprometimento leve da memória também podem ocorrer. Alguns pacientes podem sentir boca seca, visão turva, constipação ou dificuldade para urinar.8

Outros efeitos secundários podem incluir ganho de peso, principalmente durante o uso de antidepressivos tricíclicos e inibidores da monoaminoxidase (IMAO), por exemplo. 8

Já os medicamentos da classe dos inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRSs) podem afetar a função sexual, causando problemas como a disfunção erétil, perda de libido, tanto em homens quanto em mulheres. 8

Embora o risco de convulsões seja baixo, alguns medicamentos podem aumentar as chances desse problema acontecer, principalmente quando usados em doses altas. No campo cardiovascular, fármacos como os tricíclicos e IMAOs podem provocar hipotensão ortostática (queda na pressão ao levantar), que pode ser minimizada com o aumento gradual da dose. 8

Em relação ao sono e à ansiedade, algumas medicações podem agravar esse problema. Essas situações podem ser gerenciadas com o ajuste da dose ou a escolha de outro medicamento mais adequado para o paciente. 8

Quais os benefícios de alcançar a dose terapêutica ideal?

A depressão é uma condição que tende a retornar com frequência. É comum que as pessoas que lidam com a condição passem por períodos de melhora e piora.9

Quanto mais difícil for o tratamento em um primeiro momento, maior pode ser o risco de recaídas. Para reduzir as chances e a gravidade das recaídas, é importante ter uma prevenção adequada para os pacientes que tiverem uma boa ou parcial resposta ao tratamento.9

A dosagem certa e a consideração dos efeitos colaterais dos medicamentos também têm um papel relevante nesse sentido. É importante estar ciente de que interromper a terapia pode estar relacionado à volta dos sintomas.9

Quais são os riscos de ajustes inadequados ou interrupção do tratamento?

A adoção de dosagens inadequadas está entre as causas mais recorrentes de falha na resposta no tratamento da depressão. Estudos científicos demonstram que a realização da etapa de manutenção com uma dose menor do que a utilizada na etapa aguda, por exemplo, pode estar associado a uma recorrência maior da doença.6

Dividir a dose dos antidepressivos ao longo do dia também pode parecer uma boa estratégia para reduzir os efeitos colaterais, mas na prática, não há evidência de que isso seja necessário. Pelo contrário, tomar o medicamento várias vezes ao dia pode dificultar a adesão ao tratamento e tornar alguns medicamentos menos toleráveis.5

Isso acontece especialmente quando os efeitos colaterais estão ligados aos picos de concentração no sangue. Em vez de um único pico durante o sono, o paciente pode enfrentar vários no decorrer do dia, o que pode ser mais incômodo.5

Troca de antidepressivo

Quando o tratamento da depressão não está funcionando bem ou causa efeitos colaterais indesejados, é comum que seja feita a troca de um antidepressivo por outro. No entanto, essa troca precisa ser feita com cuidado e acompanhamento médico. 10

Uma abordagem mais conservadora envolve reduzir a dose do primeiro medicamento aos poucos, esperar um “período de limpeza” (tempo até ele sair do organismo) e só então iniciar o novo antidepressivo.10

Porém, esse processo pode ser demorado, levando cerca de quatro semanas ou mais, conforme as necessidades do paciente, para ser concluído. Durante esse intervalo, a pessoa fica sem medicação, o que aumenta o risco de piora da doença.10

Outra alternativa é a troca moderada, na qual o tempo de “limpeza’’ é reduzido para aproximadamente dois dias. Embora essa estratégia aumente o risco de interação entre remédios, ainda é considerada segura.10

Descontinuação do medicamento

Não é aconselhável parar de tomar o antidepressivo abruptamente, pois isso pode desencadear a síndrome da descontinuação. Cerca de 20% das pessoas podem apresentar sintomas quando param de usar o medicamento de repente ou reduzem a dose rapidamente, depois de usá-lo por pelo menos um mês.11

Os sintomas costumam ser leves e podem surgir com qualquer tipo de antidepressivo. Eles aparecem entre dois e quatro dias após a interrupção da substância e geralmente duram de uma a duas semanas, mas em alguns casos raros, podem persistir por até um ano.  Se o mesmo medicamento, ou um semelhante, for retomado, os sintomas podem desaparecer em um a três dias.11

Vale ressaltar que a descontinuação pode elevar o risco de recaída da depressão ou ansiedade. No entanto, a recaída é diferente da síndrome da descontinuação dos antidepressivos.11

Enquanto as manifestações da síndrome surgem poucos dias após parar o remédio e somem rapidamente ao retomá-lo, os sintomas de recaída demoram mais para aparecer e demandam mais tempo para melhorar, mesmo com o retorno da substância.11

Não existe um tratamento específico para a síndrome da descontinuação. Os cuidados devem ser feitos de forma individualizada, considerando as necessidades e características de cada indivíduo.11

Para evitá-la, é fundamental consultar o médico antes de parar de tomar o antidepressivo, a fim de encontrar uma estratégia adequada, como a redução da dose de forma gradual.11

Qual é o papel do médico no manejo da progressão de doses?

Em determinadas condições, quando o paciente apresenta riscos adicionais, como ideias suicidas, episódios de bipolaridade, dependência de álcool ou de outras substâncias, a abordagem terapêutica da depressão pode ser mais desafiadora.8

Antes de iniciar o uso de antidepressivos, é preciso que a equipe médica investigue eventuais condições de saúde ou problemas relacionados ao uso de substâncias, para assegurar que a terapia seja segura e eficaz, evitando possíveis interações entre medicamentos.8

A prescrição de medicamentos costuma ser a primeira opção terapêutica no tratamento da depressão, tendo como finalidade a remissão dos sintomas.3,5 Alcançar a dose certa é imprescindível para que seja possível alcançar e manter a melhora do paciente.4

Dosagens inadequadas podem afetar a eficácia do tratamento. 6 Alterações na dose, troca ou descontinuação do medicamento devem ser feitas sempre com supervisão médica, buscando estratégias que ajudem evitar efeitos colaterais indesejados.6,10,11

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Referências

1. Furukawa TA, Cipriani A, Cowen PJ, Leucht S, Egger M, Salanti G. Optimal dose of selective serotonin reuptake inhibitors, venlafaxine, and mirtazapine in major depression: a systematic review and dose-response meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2019;6(7):601-609.

2. Ministério da Saúde. Depressão. [Internet]. [Acesso 20Fev2025]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/depressao.

3. Simon GE, Moise N, Mohr DC. Management of depression in adults: a review. JAMA. 2024;332(2):141-152.

4. Parish AL, Gillis B, Anthamatten A. Pharmacotherapy for Depression and Anxiety in the Primary Care Setting. J Nurse Pract. 2023;19(4):104556.

5. Yıldız Y, Sachs GS. Administration of antidepressants: Single versus split dosing: a meta-analysis. J Affect Disord. 2001;66(2-3):199-206.

6. Berlim M. Revisão das diretrizes da Associação Médica Brasileira para o tratamento da depressão (versão integral). Rev Bras Psiquiatr. 2009;31(1):7–17.

7. Soleimani L, Lapidus KAB, Iosifescu DV. Diagnosis and treatment of major depressive disorder. Neurol Clin. 2011;29(1):177–93.

8. Souza FGM. Tratamento da depressão. Braz J Psychiatry. 1999;21(1):18-23.

9. McAllister-Williams RH, Arango C, Blier P, Demyttenaere K, Falkai P, Gorwood P, et al. The identification, assessment and management of difficult-to-treat depression: An international consensus statement. J Affect Disord. 2020;267:264-82.

10. Keks N, Hope J, Keogh S. Switching and stopping antidepressants. Aust Prescr. 2016;39(3):76-83.

11. Gabriel M, Sharma V. Antidepressant discontinuation syndrome. CMAJ. 2017;189(21):E747.

Artigo elaborado em 20 de fevereiro de 2025