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Publicado em: 27 de julho de 2026
A epilepsia é uma condição neurológica que atinge cerca de 2% da população brasileira¹ e 50 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)1-2. Ainda assim, é cercada por preconceitos e desinformação que, além de dificultarem o tratamento, podem retardar o diagnóstico e agravar o quadro do paciente.²
“Existem muitas ideias equivocadas sobre o que é epilepsia, e isso impacta diretamente na forma como as pessoas percebem seus sintomas e buscam ajuda. Quanto antes vier o diagnóstico, maiores as chances de controle das crises”, explica o médico neurologista Dr. Luiz Betting (CRM-SP 94965 / RQE 25938).
A epilepsia é uma condição neurológica crônica que afeta o funcionamento do cérebro e se manifesta por meio de crises epilépticas, episódios breves de atividade elétrica cerebral anormal. Essas crises podem afetar apenas uma parte do cérebro (crises focais) ou inteiro (crises generalizadas) 1-2. Por isso, segundo o neurologista, nem sempre as crises são tônico-clônicas, ou seja, envolvem a perda de consciência e a contrações musculares intensas, “também conhecidas como convulsões”, diz.
As crises ocorrem quando há uma alteração temporária na comunicação entre as células cerebrais, provocando sintomas variados: desde espasmos e perda de consciência até lapsos de atenção, comportamentos automáticos e sensações estranhas que a pessoa não consegue explicar.1-³
Além dos impactos na saúde, a epilepsia também pode afetar a vida emocional e social de quem convive com a doença, diz o neurologista. Segundo ele, o preconceito e a desinformação ainda são barreiras importantes. “O estigma e a discriminação que cercam a epilepsia, muitas vezes, são mais difíceis de enfrentar do que as próprias crises.”
Para combater esse preconceito, conheça 5 mitos que atrasam o diagnóstico da epilepsia.
Não. De acordo com a OMS, a epilepsia é uma doença neurológica crônica e não transmissível, ou seja, não há qualquer risco de transmissão por proximidade com quem tem a doença.²
“Essa crença afasta muitas pessoas que poderiam oferecer apoio e cria barreiras sociais para quem convive com a condição”, alerta Dr. Luiz.
Ter uma única crise epiléptica (ou, no jargão técnico, “crise tônico-clônica”) acontece com até 10% da população mundial. Ter uma crise, portanto, não significa que o indivíduo necessariamente tenha epilepsia. A epilepsia é diagnosticada quando ocorrem duas ou mais crises não provocadas.²
Além disso, a convulsão não é o único sintoma da doença e, com o diagnóstico correto e o tratamento adequado, estima-se que 70% das pessoas com epilepsia podem viver sem crises.²
Não necessariamente. Durante uma crise epiléptica, diversos neurônios disparam sinais simultaneamente, em um ritmo muito mais rápido que o normal. Essa atividade elétrica intensa pode causar convulsões, mas também ocasionam movimentos involuntários, alterações sensoriais e emocionais e até perda de consciência.³
Muitas crises podem passar despercebidas ou são confundidas com distrações, lapsos de atenção, espasmos musculares e até mudanças repentinas de humor.¹
“Por não ter convulsões e não reconhecer esses sinais como sintomas da epilepsia, a pessoa pode passar anos sem procurar um neurologista”, acrescenta o médico.
A epilepsia é uma condição neurológica, relacionada à atividade elétrica anormal no cérebro¹. Ainda que suas manifestações preencham diversos critérios que fazem doenças serem inclusas no conjunto dos “transtornos mentais”, ela não é o mesmo. (4)
O neurologista ressalta, no entanto, que esse equívoco reforça estigmas e pode levar ao preconceito, especialmente em ambientes como escolas ou locais de trabalho. “Muita gente acredita que a epilepsia compromete automaticamente a capacidade intelectual da pessoa. Isso não é verdade. Quando bem controlada, a doença não afeta a cognição da maioria dos pacientes.”
Embora a epilepsia não seja tratada como um transtorno psiquiátrico, eles não são diagnósticos mutuamente exclusivos, ou seja, podem coexistir facilmente, o que pode dificultar o diagnóstico. A semelhança de sintomas de transtornos mentais com síndromes epilépticas pode ser tão convincente que a possibilidade de uma crise sequer é considerada. (4)
“Muitos acreditam que ter epilepsia significa desistir de estudar, trabalhar, ter filhos ou fazer atividades simples do dia a dia. Isso não é verdade”, reforça Dr. Luiz.
Com diagnóstico correto e o tratamento adequado, cerca de 70% dos pacientes vivem sem crises.¹ Mas infelizmente, de acordo com o médico, muitos ainda enfrentam barreiras sociais e falta de acesso a cuidados médicos.
“Pessoas com epilepsia podem ter uma vida completamente normal, mas isso exige conhecimento, acolhimento e um sistema de saúde acessível. Muita gente demora para buscar ajuda porque tem vergonha, ou porque familiares e até médicos não levam os sintomas a sério”, afirma.
Por fim, o médico ressalta que falar sobre a epilepsia de forma aberta é fundamental para que cada vez mais pessoas possam identificar os sinais e buscar o apoio que precisam.
Conteúdo elaborado em junho/2026
Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.
Médico consultor: Dr. Luiz Eduardo Gomes Garcia Betting (CRM-SP 94965 / RQE 25938), médico neurologista e professor associado da Unesp.
World. Epilepsy [Internet]. Who.int. World Health Organization: WHO; 2024 [cited 2025 Nov 17]. Available from: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/epilepsy?_x_tr_sl=en&
Epilepsia: conheça a doença e os tratamentos disponíveis no SUS [Internet]. Ministério da Saúde. Available from: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/marco/epilepsia-conheca-a-doenca-e-os-tratamentos-disponiveis-no-sus
Epilepsy and Seizures [Internet]. National Institute of Neurological Disorders and Stroke. 2025. Available from: https://www.ninds.nih.gov/health-information/disorders/epilepsy-and-seizures#toc-what-are-epilepsy-and-seizures
Beletsky V, Mirsattari SM. Epilepsy, Mental Health Disorder, or Both? Epilepsy Research and Treatment [Internet]. 2012 [cited 2020 Jul 3];2012. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3420407/
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