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Close-up de um homem jovem musculoso sem camisa segurando uma injeção de esteroides no vestiário da academia.

por Dr. Jairo Lins Borges

Anabolizantes são hormônios esteroides naturais e sintéticos que promovem o crescimento celular, resultando no desenvolvimento de diversos tipos de tecidos, como o muscular e o ósseo.1 Essas substâncias são geralmente derivadas da testosterona, o hormônio sexual masculino, e reproduzem, portanto, seus efeitos anabólicos – isto é, sua capacidade de estimular a síntese de proteínas e favorecer o aumento da massa muscular e da força.2 Por isso, embora os esteroides tenham aplicações médicas legítimas, eles acabam usados também por quem pretende ganhar músculos de maneira rápida, melhorando a aparência física e aumentando o desempenho em atividades esportivas. É esse uso indevido, em doses suprafisiológicas (ou seja, que superam em muito as quantidades produzidas naturalmente pelo corpo) que pode acarretar uma série de problemas de saúde, a começar pela saúde do coração.

O efeito nocivo dos esteroides anabolizantes androgênicos (anabolic-androgenic steroids, ou AAS, na sigla em inglês) sobre o sistema cardiovascular é um fato bem documentado pela literatura científica. Um estudo recente, publicado em uma revista da American Heart Association, acompanhou por aproximadamente 11 anos mais de mil usuários de AAS e concluiu que eles têm risco significativamente maior de tromboembolismo venoso, arritmias, cardiomiopatia, insuficiência cardíaca e de necessidade de intervenção coronária (angioplastia ou cirurgia). No caso do infarto agudo do miocárdio, o risco ajustado para usuários de anabolizantes é 3 vezes maior que o da população geral.3 Vale destacar que a idade média dos participantes desse estudo era de 27,4 anos; ou seja, trata-se de um grupo bastante jovem, para o qual, a princípio, a taxa de incidência de doenças cardiovasculares é considerada baixa.

A cardiomiopatia merece menção especial: o estudo concluiu que usuários de anabolizantes apresentaram risco quase 9 vezes maior de desenvolver a doença.3 Outra publicação apontou que, nos casos de cardiomiopatia associada ao uso de esteroides, comumente ocorre dilatação e redução da fração de ejeção do ventrículo esquerdo. Em parte dos casos, observou-se também melhora da função cardíaca quando o uso de anabolizantes foi interrompido.4

Tronco e braço de um homem musculoso, destacando a definição dos músculos do bíceps, do peitoral e do abdômen contra um fundo escuro para ilustrar efeitos do uso de esteroides anabolizantes

Mas os danos causados pelos anabolizantes não se restringem ao coração. Há danos comprovados, por exemplo, à fertilidade e à saúde sexual dos usuários, com redução dos hormônios folículo-estimulante (FSH) e luteinizante (LH), que contribuem para a regulação do sistema reprodutor, menor motilidade dos espermatozoides, redução do tamanho dos testículos, alterações da testosterona, redução da libido e disfunção erétil.6

Doses suprafisiológicas de anabolizantes podem alterar também a própria estrutura e o funcionamento do músculo cardíaco: usuários apresentam aumento da espessura da parede, da massa ventricular e do diâmetro diastólico do ventrículo esquerdo, além de redução da fração de ejeção e do strain longitudinal global (indicador de função miocárdica).5 Em suma, o uso de anabolizantes pode sobrecarregar o coração e provocar alterações estruturais e funcionais, aumentando significativamente o risco de doenças cardiovasculares, inclusive em pessoas que, por serem jovens e fisicamente ativas, não se consideram vulneráveis a esses problemas.

Outros problemas, como atrofia testicular, azoospermia (ausência de espermatozoides no sêmen), hipogonadismo (diminuição da função das gônadas, isto é, dos testículos ou ovários) e infertilidade também estão associadas ao uso de anabolizantes, sendo que algumas dessas condições podem persistir por até três anos após a interrupção dos AAS.7 No caso das mulheres, a literatura científica documenta, além de alterações hormonais, problemas como irregularidade menstrual, subfertilidade e clitoromegalia (aumento anormal do clitóris). Alguns desses efeitos podem ser irreversíveis, especialmente quando o uso é prolongado.8

Por fim, é preciso destacar o efeito negativo dos anabolizantes sobre a saúde mental e o comportamento. Agressividade, alterações de humor, irritabilidade, sintomas depressivos, ansiedade e, em alguns casos, episódios de mania ou hipomania são todos problemas associados aos esteroides. O uso prolongado também pode estar associado à dependência, enquanto a interrupção após uso continuado pode desencadear uma síndrome de abstinência caracterizada por depressão, fadiga, ansiedade e alterações de humor. Em situações mais graves, podem ocorrer sintomas psicóticos, como paranoia e delírios, além de comportamentos impulsivos ou de maior risco.2,9,10 Em outras palavras, os anabolizantes não afetam apenas o desenvolvimento muscular e o desempenho físico: seu uso também pode interferir no funcionamento psicológico e provocar alterações importantes de humor, comportamento e saúde mental.

O ponto de convergência é bastante claro: o uso de anabolizantes está associado a riscos que ultrapassam o sistema muscular e hormonal, atingindo o coração, o sistema reprodutivo e a saúde mental. São associações consistentes, ainda que nem todas permitam confirmar uma relação de causalidade de forma definitiva.

Se o ganho estético buscado com os anabolizantes é, por definição, reversível – um corpo mais musculoso pode ser desfeito, refeito ou simplesmente deixar de ser prioridade ao longo do tempo –, os danos à saúde podem ser permanentes. Por isso, qualquer decisão sobre o uso dessas substâncias deve ser discutida previamente com um médico, e quem já faz uso deve buscar acompanhamento clínico especializado.

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Conteúdo elaborado em setembro/2026

Dr. Jairo Lins Borges (CRM-SP 46977; RQE 132337) é cardiologista clínico, professor e pesquisador da disciplina de Cardiologia na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

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Referências

1. Brasil. Ministério do Esporte. Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem. O que são anabolizantes? [Internet]. Brasília, DF: Ministério do Esporte; 2022 [acesso em 5 set 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/abcd/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas-frequentes/prejuizos-para-a-saude-do-atleta/o-que-sao-anabolizantes

2. Pope HG Jr, Wood RI, Rogol A, Nyberg F, Bowers L, Bhasin S. Adverse health consequences of performance-enhancing drugs: an Endocrine Society scientific statement. Endocr Rev. 2014 Jun;35(3):341-75.

3. Windfeld-Mathiasen J, Heerfordt IM, Dalhoff KP, Andersen JT, Andersen MA, Johansson KS, Biering-Sørensen T, Olsen FJ, Horwitz H. Cardiovascular Disease in Anabolic Androgenic Steroid Users. Circulation. 2025 Mar 25;151(12):828-834.

4. Alhusban Z, Alaaraj MM, Saimeh AR, Nassar W, Awad A, Ghanima K, Abouelkheir M, Hamed AM, Afsa A, Morra ME. Steroid-Induced Cardiomyopathy: Insights From a Systematic Literature Review and a Case Report. Clin Case Rep. 2025 Feb 26;13(3):e70171.

5. Cavalcante DN, Romariz L, Neto A, Fante GE, Júnior SMP, Bacca CF. Anabolic-androgenic steroids on cardiac structure and function in resistance-trained athletes: A systematic review and meta-analysis. Int J Cardiol. 2026 Jan 1;442:133896.

6. Mulawkar PM, Maheshwari PN, Gauhar V, Agrawal SG, Mohammed TO, Singh AG, Tak GR, Shah US, Shukla DP, Mamankar D. Use of Anabolic-Androgenic Steroids and Male Fertility: A Systematic Review and Meta-analysis. J Hum Reprod Sci. 2023 Oct-Dec;16(4):268-285.

7. Esposito M, Salerno M, Calvano G, Agliozzo R, Ficarra V, Sessa F, Favilla V, Cimino S, Pomara C. Impact of anabolic androgenic steroids on male sexual and reproductive function: a systematic review. Panminerva Med. 2023 Mar;65(1):43-50.

8. Christou MA, Christou PA, Markozannes G, Tsatsoulis A, Mastorakos G, Tigas S. Effects of Anabolic Androgenic Steroids on the Reproductive System of Athletes and Recreational Users: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Med. 2017 Sep;47(9):1869-1883.

9. Brasil. Ministério do Esporte. Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem. Que outros problemas o uso de anabolizantes pode gerar? [Internet]. Brasília, DF: Ministério do Esporte; 2022 [acesso em 5 set 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/abcd/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas-frequentes/prejuizos-para-a-saude-do-atleta/que-outros-problemas-o-uso

10. Piacentino D, Kotzalidis GD, Del Casale A, Aromatario MR, Pomara C, Girardi P, Sani G. Anabolic-androgenic steroid use and psychopathology in athletes. A systematic review. Curr Neuropharmacol. 2015 Jan;13(1):101-21.