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Publicado em: 31 de julho de 2026
O mercado está cheio de promessas rodeando suplementos vitamínicos: comprimidos, gomas e efervescentes que prometem mais energia, imunidade fortalecida e até prevenção de doenças. Mas será que todos precisam incluir suplementos na rotina?1
Especialistas reforçam que o consumo indiscriminado, em vez de ajudar, pode trazer riscos.² Saiba mais sobre o que são suplementos de vitaminas e se você realmente precisa deles para um corpo mais saudável.
As vitaminas são micronutrientes essenciais, fundamentais para o metabolismo e para o bom funcionamento do corpo. Como não são produzidas pelo organismo em quantidades adequadas, precisam ser obtidas principalmente pela alimentação. Uma dieta variada, rica em frutas, verduras, legumes, grãos e proteínas, é a forma mais segura de garantir esses nutrientes.²
Há, no entanto, exceções. A vitamina D, por exemplo, é obtida em grande parte pela exposição solar, já que a quantidade presente nos alimentos não é suficiente.²
Nos últimos anos, o consumo diário de suplementos e polivitamínicos segue uma trajetória de aumento. De acordo com a segunda edição da pesquisa “Hábitos de Consumo de Suplementos Alimentares no Brasil”, elaborada pela Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (ABIAD) com dados de 2020, os produtos estão presentes em 59% dos lares brasileiros³.
Ainda que a busca por saúde seja o principal motivo para a busca de suplementos³, o acesso à informações por redes sociais também influência, segundo o gastroenterologista Dr. Décio Chinzon (CRM-SP: 49552; RQE 11890). “Podemos ver uma tendência de procura por suplementos muito influenciada por criadores de conteúdo de saúde e nutrição, que podem ou não ser profissionais qualificados”, alerta.
Outro ponto é que muitas pessoas acreditam que, se não fizer bem, pelo menos não fará mal. Mas não é bem assim: os efeitos do uso contínuo e sem indicação médica ainda não são totalmente conhecidos.4
Os suplementos são produtos criados para complementar a alimentação5.
Estão disponíveis em diversas formas, desde cápsulas, comprimidos, pós, líquidos, gomas ou até barrinhas. Apesar dessa facilidade para comprá-los, seu consumo só deve ser feito quando existe real necessidade5.
A recomendação costuma acontecer em situações de deficiência nutricional, doenças crônicas ou ingestão inadequada de nutrientes. Mas também pode ser usada para a prevenção de condições ligadas à falta desses nutrientes e na redução de risco de desenvolvimento de doenças crônicas6.
Na gravidez, por exemplo, o uso de suplementos de ácido fólico pode ser indicado para prevenir problemas no desenvolvimento do bebê, especialmente nas primeiras semanas de gestação. Durante esse período, também é comum a recomendação do uso de vitamina D. Em contrapartida, suplementos que contenham vitamina A devem ser evitados, já que seu excesso pode prejudicar o feto.7
Ou seja, “se a pessoa é saudável e não tem uma condição em que a suplementação é indicada, tomar mais vitaminas do que as adquiridas na alimentação pode significar gasto desnecessário de dinheiro ou até uma intoxicação”, reforça o Dr. Décio Chinzon.
Segundo o especialista, um exemplo do uso indiscriminado de suplementos está nos polivitamínicos. Ele explica que esses compostos reúnem várias vitaminas e minerais em uma mesma fórmula, o que se difere dos suplementos vitamínicos, que podem conter apenas uma vitamina ou um grupo específico, como vitamina D ou vitaminas do complexo B, com doses diferentes em cada produto.
Ainda de acordo com o Dr. Décio, os polivitamínicos podem ser prescritos em fases da vida que exigem maior demanda nutricional, em situações de prática esportiva intensa ou quando há doenças ou medicamentos que atrapalham a absorção das vitaminas. “A quantidade ideal varia de acordo com idade, sexo e estado de saúde. Por isso, é fundamental que o uso seja acompanhado por médico ou nutricionista”, ressalta.
No entanto, o consumo sem orientação pode causar efeitos adversos: de problemas no fígado e rins até alterações cardiovasculares, gastrointestinais e do sistema nervoso8. “Além disso, polivitamínicos podem interferir na ação de alguns medicamentos, reforçando a importância da avaliação profissional”, explica o Dr. Décio.
Entre os suplementos mais difundidos está a vitamina D. Esse nutriente tem papel central na saúde óssea, por ajudar na absorção de cálcio e fósforo. Sua principal fonte é a exposição ao sol, mas fatores como idade, doenças crônicas, dieta restrita ou cirurgias que afetam a absorção podem levar à deficiência9.
A impressão de que “quase” todos precisam de suplementação vem do entendimento que a exposição suficiente à luz solar pode ser difícil, especialmente porque a pele também precisa ser protegida contra os danos causados pelo sol. Além disso, alimentos naturais raramente contêm uma quantidade suficiente de vitamina D para compensar a falta de luz solar9.
Sem níveis adequados, há risco de fraqueza muscular, dor óssea e até doenças como raquitismo em crianças e osteomalácia em adultos9.
Por isso, em muitos casos, a suplementação é necessária. Idosos, pessoas que passaram por cirurgia bariátrica, pacientes com osteoporose, gestantes, lactantes e indivíduos com doenças que afetam a absorção estão entre os grupos que mais se beneficiam9.
“Ainda assim, o uso não pode ser generalizado: As vitaminas lipossolúveis, como a D, oferecem risco de intoxicação. É fundamental avaliar se o paciente realmente precisa e, quando possível, confirmar com exames laboratoriais”, reforça o médico consultado.
A vitamina C é outro nutriente popular para suplementação². “Ela é popularmente associada ao fortalecimento da imunidade, principalmente no inverno, em que muitas pessoas recorrem a efervescentes, cápsulas e gomas para tentar se proteger de resfriados”, explica o Dr. Décio Chinzon.
De fato, a vitamina C é essencial para o sistema imunológico². Mas, a ideia de que doses altas previnem gripes e resfriados não é comprovada. “Não há evidências científicas consistentes que apoiem a ideia de que a suplementação de vitamina C na prevenção no tratamento de gripes e resfriados seja eficaz”, explica.
Além disso, o especialista reforça que, ainda que a escassez deste componente possa causar problemas de saúde, como o escorbuto, altas concentrações de vitamina C podem provocar diarreia e cálculos urinários. “Sem a comprovação de uma deficiência, a suplementação pode significar riscos e perda de dinheiro, principalmente porque os níveis adequados da vitamina são facilmente atingidos incluindo vegetais e frutas, especialmente as cítricas, à alimentação.”
A vitamina B12, também chamada de cobalamina, é fundamental para funções vitais do organismo. Junto com o folato, participa da formação e amadurecimento dos glóbulos vermelhos e da síntese do DNA, o material genético das células. Além disso, é essencial para o funcionamento normal dos nervos10.
Boas fontes naturais de vitamina B12 se restringem a alimentos de origem animal, como carnes e ovos10.O médico também menciona opções como leite, cereais enriquecidos, frutos do mar como mariscos e ostras, e peixes como salmão e atum.
Quando há deficiência, o corpo pode desenvolver anemia, que causa palidez, fadiga, fraqueza e, em casos graves, falta de ar e tontura. Uma carência prolongada pode afetar o sistema nervoso, levando a sintomas como formigamento ou perda de sensibilidade nas mãos e pés, fraqueza muscular, perda de reflexos, dificuldade para andar, confusão mental e até demência10.
Diferente de outras vitaminas, a B12 é armazenada em quantidades significativas no fígado, podendo durar de três a cinco anos mesmo sem consumo adequado10. “Isso não significa que ela deva ser usada em megadoses. Embora não apresente toxicidade conhecida, o uso excessivo não é recomendado”, ressalta o Dr. Décio.
Ainda assim, muita gente recorre à suplementação de vitamina B12 em busca de mais energia, melhora da memória ou alívio de sintomas depressivos. No entanto, pesquisas indicam que, na ausência de deficiência comprovada ou de doenças neurológicas graves, não há evidências sólidas de benefícios nesses casos.11
A resposta é simples: apenas exames e avaliação médica podem confirmar5. “Em muitos casos, ajustes na alimentação são suficientes para corrigir deficiências. A suplementação só entra em cena quando a dieta não é capaz de suprir as necessidades do organismo”, reforça o/a especialista.
Segundo o Dr. Décio Chinzon, o diagnóstico de uma deficiência de nutrientes envolve avaliação dos sintomas e, principalmente, exames de sangue para checar níveis de vitamina D, vitamina B12, ferro, ácido fólico, zinco e outros minerais.
O excesso de vitaminas pode ser prejudicial. A vitamina A, por exemplo, acumula-se no fígado e na gordura corporal, podendo causar intoxicação. A vitamina E, quando ingerida em excesso, aumenta o risco de infarto. Já o ferro pode causar sobrecarga e riscos cardíacos em pessoas sem deficiência².
Outro problema é que alguns suplementos podem interagir entre si ou com medicamentos de forma a prejudicar o efeito dos produtos ou até causar problemas de saúde12. Alguns, em altas doses, podem até provocar alergias devido a corantes e aditivos presentes nos suplementos13. “Outro ponto de alerta é que confiar em suplementos como principal fonte de vitaminas pode levar ao descuido com a alimentação, que continua sendo a principal fonte de nutrientes essenciais”, enfatiza o Dr. Décio.
Sendo assim, os especialistas concordam que suplementos de vitaminas podem ser aliados importantes da saúde, mas não substituem uma dieta equilibrada6. “O uso deve sempre ser avaliado caso a caso, com acompanhamento médico ou nutricional”, finaliza.
Conteúdo elaborado em agosto/2026
Texto: Juliana Stern, jornalista pós-graduada em Jornalismo Científico pelo Labjor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com experiência em reportagens de saúde, especialmente nos setores de oncologia, cardiologia e odontologia, além de passagens pela National Geographic Brasil e UOL.
Médico consultor: Dr. Décio Chinzon (CRM-SP 49552 | RQE 11890), gastroenterologista e endoscopista, graduado em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Doutor em Gastroenterologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP). É professor da USP e atua na pós-graduação em Gastroenterologia da instituição. Ex-presidente da Sociedade de Gastroenterologia do Estado de São Paulo. Presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia no biênio 2021/22
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