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Mês da Cefaleia em Salvas: saiba mais sobre a condição!

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Você já ouviu falar sobre a cefaleia em salvas? Ainda que o primeiro termo seja bastante popular, o nome completo dessa condição não costuma ser muito falado por aí.

Então, o que isso significa? De modo geral, a cefaleia em salvas é um tipo de dor de cabeça considerada grave, ou seja, que traz sintomas incapacitantes e prejudiciais para a qualidade de vida dos pacientes.1

A data de 21 de março é o Dia Internacional da Cefaleia em Salvas, que visa contribuir para a conscientização sobre a condição.2 Para ajudar você a saber mais sobre a cefaleia em salvas e entender como ela pode ser tratada, convidamos o Dr. Antônio Damin, neurologista e consultor da Libbs, para um bate-papo.

Continue a leitura e descubra mais detalhes!

O que é a cefaleia em salvas?

A cefaleia em salvas é um tipo de dor de cabeça primária, ou seja, não é causada por outra doença.1 Ela faz parte de um grupo chamado cefaleias autonômicas trigeminais, que são caracterizadas por dores muito fortes em um lado da cabeça, acompanhadas de sintomas como olho lacrimejante, nariz entupido e pálpebra caída.2

A primeira descrição dessa dor de cabeça foi feita em 1641 por um médico holandês chamado Nicolaes Tulp (aquele mesmo do quadro de Rembrandt, “A Lição de Anatomia”). Ele descreveu uma dor de cabeça intensa e unilateral que durava menos de 2 horas.1

Em 1926, o neurologista Wilfred Harris descreveu os sintomas autonômicos associados, diferenciando a cefaleia em salvas da enxaqueca e da neuralgia do trigêmeo.1

Por fim, em 1936, Harris deu o nome de “neuralgia migranosa” ou “neuralgia ciliar” a essa condição, destacando a dor unilateral, a gravidade, os sintomas autonômicos e a frequência das crises.1

A cefaleia em salvas é conhecida como uma das dores mais intensas que um ser humano pode sentir. É tão forte que ganhou o apelido de “dor de cabeça suicida”, porque muitos pacientes chegam a pensar em suicídio durante as crises.1

A dor é tão incapacitante que muitos pacientes precisam se afastar do trabalho, o que gera custos significativos para a sociedade. Além disso, a qualidade de vida dos pacientes é gravemente afetada, já que as crises podem ocorrer várias vezes ao dia e à noite, prejudicando o sono.1

Quais são os sintomas da cefaleia em salvas?

Já apresentamos alguns sintomas, mas chegou o momento de listarmos os principais sinais que indicam que alguém está sofrendo com a cefaleia em salvas. São eles:2,3

  • dor de cabeça muito forte, normalmente localizada em um lado da cabeça;
  • queda da pálpebra do lado afetado;
  • nariz entupido, também no lado afetado pela dor;
  • lacrimejamento.

Outra característica é que a dor pode ocorrer várias vezes ao dia durante alguns meses, sumir por um certo tempo (geralmente 1 a 2 anos) e voltar, formando ciclos que se repetem.2

Há fatores de risco para a cefaleia em salvas?

Mês da Cefaleia em Salvas: saiba mais sobre a condição!

Sim. De acordo com o Dr. Damin, alguns grupos de pessoas têm uma suscetibilidade maior a desenvolver os episódios de cefaleia em salvas do que outros. Confira mais detalhes a seguir!

Fatores familiares

A cefaleia em salvas é considerada uma doença multifatorial, ou seja, resulta de uma combinação de fatores genéticos e ambientais.1

Pessoas com parentes de primeiro grau (pais, irmãos) com a condição têm de 5 a 18 vezes mais chances de desenvolver a doença. Se o parente for de segundo grau (tios, avós), o risco é de 1 a 3 vezes maior.1

Sexo

A cefaleia em salvas é mais comum em homens, com uma proporção de 6:1 (6 homens para cada mulher). Em formas crônicas e na faixa etária de 20 a 49 anos, essa proporção pode chegar a 11:1.1

Nos últimos anos, o número de mulheres diagnosticadas com cefaleia em salvas tem aumentado, possivelmente devido a diagnósticos mais precisos e mudanças no estilo de vida (como aumento do tabagismo e consumo de álcool entre mulheres).1

Idade de início

A cefaleia em salvas geralmente começa por volta dos 30 anos, tanto em homens quanto em mulheres.1 Outros estudos falam que a maior prevalência gira em torno dos 20 aos 40 anos.3

Tabagismo

O histórico de tabagismo está associado em cerca de 60% a um início mais precoce da cefaleia em salvas.1

Traumatismo craniano 

Alguns pacientes com cefaleia em salvas têm histórico de traumatismo craniano, mas nem sempre há uma relação direta entre o trauma e o início das crises.1

Como é feito o diagnóstico da cefaleia em salvas?

O diagnóstico da cefaleia em salvas é feito principalmente com base nos sintomas relatados pelo paciente e no exame físico.1

Infelizmente, há um atraso significativo no diagnóstico, em média de 5 anos após o início dos sintomas. Isso ocorre porque a doença é frequentemente confundida com outras condições, como enxaqueca, neuralgia do trigêmeo, sinusite ou problemas dentários.1

A seguir, apresentamos alguns exames que auxiliam no diagnóstico.

Teste de Erwin

É uma ferramenta simples e útil para identificar pacientes com esse tipo de cefaleia. Consiste em três perguntas, que elencamos abaixo.1

  • “Esta é a pior dor que você já sentiu?”
  • “Sua dor dura menos de 4 horas?”
  • “Durante a dor de cabeça, você apresenta um ou mais dos seguintes sintomas: olho vermelho, lacrimejamento, nariz escorrendo ou entupido (todos do mesmo lado da dor)?”

Se o paciente responder “sim” a todas as perguntas, há uma alta probabilidade de ele ser diagnosticado com cefaleia em salvas.1

Exames de imagem

Alguns testes de imagem podem ser muito úteis, como é o caso da ressonância magnética.1 Ela é recomendada para todos os pacientes com suspeita de cefaleia em salvas, principalmente para descartar causas secundárias, como tumores, aneurismas ou inflamações.1

“Em boa parte dos casos, o diagnóstico da cefaleia em salvas é de exclusão. Ou seja, é necessário eliminar algumas causas para garantir que estejamos falando de uma cefaleia em salvas”, explica o Dr. Damin.

Outras condições associadas aos sintomas podem incluir:1

  • distúrbios metabólicos, como alterações nos níveis de eletrólitos no sangue;
  • infecções, como meningite ou encefalite, que podem exigir uma punção lombar;
  • lesões estruturais, como tumores, aneurismas ou malformações vasculares, detectáveis por exames de imagem.

Quais são as opções de tratamento para a condição?

Agora, vamos abordar o tratamento para a cefaleia em salvas! Confira algumas estratégias que podem ajudar nas crises.

Triptanos

Os triptanos são descritos como os medicamentos mais usados para tratar as crises de cefaleia em salvas. Eles podem ser administrados de três formas: por via oral (comprimidos), por injeção ou como spray nasal.3

Dessas, um estudo mostrou que a injeção subcutânea apresentou o melhor efeito terapêutico, proporcionando alívio rápido da dor, em cerca de 20 minutos em 75% dos pacientes.3

Oxigenoterapia

Para quem não pode usar os triptanos, especialmente pessoas com problemas cardíacos, uma alternativa é a oxigenoterapia, que envolve respirar oxigênio a uma taxa alta.3

O mecanismo exato de como o oxigênio alivia a dor não é completamente entendido, mas uma teoria é que ele ajuda a bloquear certos sinais no cérebro relacionados à dor. Para um efeito completo, a recomendação é usar pelo menos 12 litros de oxigênio por minuto, por 20 minutos.3

Neuromodulação

A neuromodulação é mais utilizada para os casos mais difíceis de tratar. Existem várias opções dentro dessa categoria.3

Uma delas é a estimulação do nervo vago: um dispositivo é implantado no corpo para estimular o nervo vago. Com essa abordagem, a maioria dos pacientes sente alívio em cerca de 15 minutos, mas efeitos colaterais podem ocorrer, os mais comuns sendo dor de cabeça, tontura e dor na garganta.3

Anticorpos monoclonais contra CGRP

Além dos citados acima, novos tratamentos estão sendo desenvolvidos para reduzir as crises. Um exemplo é o uso dos anticorpos monoclonais, que têm mostrado bons resultados para prevenir as crises de cefaleia em salvas episódicas (quando as crises ocorrem de forma intermitente).3

“No Brasil, atualmente, há um anticorpo monoclonal aprovado disponível para tratar essas crises.”, explica o dr. Damin.

Já deu para perceber que a cefaleia em salvas é uma condição que pode atrapalhar a sua qualidade de vida, certo?1 Então, caso apresente sintomas, não deixe a condição se agravar e procure o seu médico para realizar um diagnóstico e receber orientações!

Entender os sintomas das doenças é o melhor caminho para saber mais sobre a sua saúde. Para continuar se informando sobre o assunto, acompanhe as postagens do blog A Vida Plena!

Aproveite e confira nosso e-book sobre Cefaleia em Salvas para se aprofundar no assunto!

E se você sofre com a doença e procura um jeito prático de organizar seu tratamento e registrar os episódios de crise, vale a pena baixar o app Diário da Cefaleia, disponível para Android ou iOS.

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Artigo elaborado em: 8 fev. 2025.

Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor.

As opiniões emitidas pelo(a) especialista são independentes e, necessariamente, não refletem a opinião da Libbs.

Referências:

1. San-Juan D, Velez-Jimenez K, Hoffmann J, Martínez-Mayorga AP, Melo-Carrillo A, Rodríguez-Leyva I, et al. Cluster headache: an update on clinical features, epidemiology, pathophysiology, diagnosis, and treatment. Front Pain Res (Lausanne). 2024;5:1373528.  

2. Academia Brasileira de Neurologia. Dia Mundial de Conscientização da Cefaleia em Salvas. 2024 [Internet]. [Acesso em Jan 2025]. Disponível em:  https://abneuro.org.br/2024/03/18/dia-mundial-de-conscientizacao-da-cefaleia-em-salvas/. Acesso em: 8 fev. 2025.

3. Xu XH, Li YM, Ren LN, Xu XF, Dai YL, Jin CQ, et al. Cluster headache: understandings of current knowledge and directions for whole process management. Front Neurol. 2024;15:1456517.