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Publicado em: 9 de maio de 2025
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Os transtornos psiquiátricos e dor crônica são condições bastante comuns na população em geral. No entanto, alguma desordens psiquiátricas podem ser mais frequentes em pessoas com dor crônica, como dores de cabeça e nas costas, do que naquelas que não têm esse problema.1
A relação entre essas duas condições de saúde ainda não é totalmente compreendida.1 Estudos científicos nessa área sugerem que os transtornos como a depressão podem aumentar tanto o risco de desenvolver dor crônica quanto de se tornar persistente.1 Inclusive, a dor também pode agravar os transtornos mentais.1
Quer saber mais sobre o assunto? Neste post vamos abordar como as duas condições se relacionam e quais as formas de tratar os pacientes que apresentam esse quadro. Confira!
A dor crônica é um transtorno neuropsiquiátrico complexo, que se caracteriza por sintomas sensoriais, cognitivos e afetivos.2 Uma dor pode ser considerada crônica quando persiste pelo período de três meses, ocorrendo como um sintoma de diversas doenças ou uma condição primária por si só.3
A comunidade científica ainda não entende por completo como essa condição se desenvolve nem quais são os fatores que aumentam seu risco, o que torna o seu tratamento mais complexo. Contudo, sabe-se que ela frequentemente ocorre junto com transtornos mentais, sendo a depressão um dos mais estudados nessa relação.3
Quando esses quadros são desenvolvidos simultaneamente, os impactos na saúde podem ser ainda mais graves do que quando aparecem separadamente. A presença de ambos pode indicar que eles compartilham mecanismos neurobiológicos semelhantes.3
O cérebro, responsável por processar tanto estímulos sensoriais quanto emoções, desempenha um papel central na relação entre dor crônica e distúrbios mentais. Regiões como o córtex pré-frontal, a amígdala e o hipocampo estão envolvidas tanto na percepção da dor quanto em sentimentos como ansiedade e depressão.4
Além disso, quando a dor se torna persistente, pode provocar mudanças estruturais nessas áreas cerebrais, afetando o humor e a cognição. Por outro lado, problemas emocionais também podem intensificar a percepção da dor ao alterar certas estruturas do cérebro.4
No nível molecular, a dor e transtornos mentais compartilham desequilíbrios nos mesmos neurotransmissores, como serotonina, dopamina e norepinefrina. Os processos inflamatórios no cérebro também parecem contribuir para essa conexão, levando a um ciclo em que a dor pode intensificar o sofrimento mental e vice-versa.4
Pacientes com dor crônica podem enfrentar dificuldades emocionais que, muitas vezes, podem se transformar em condições psiquiátricas. Os transtornos mais prevalentes incluem depressão, ansiedade, transtornos de personalidade e abuso de substâncias.5
Uma pesquisa realizada no Reino Unido revelou que quase um terço dos pacientes atendidos em clínicas de dor apresentava sintomas suficientes para um diagnóstico psiquiátrico definitivo. Desses indivíduos com problemas psiquiátricos, dois terços tinham quadros depressivos.5
Portanto, conviver com a dor crônica não afeta somente a parte física, mas também o bem-estar mental do indivíduo. Isso porque ela pode piorar a depressão, enquanto esta pode tornar a dor mais intensa.Inclusive, estudos evidenciaram um aumento de suicídio entre pacientes com dor crônica e depressão comórbida.6
Esses pacientes também podem relatar níveis mais altos de dor, e quando a depressão melhora, os desconfortos físicos e o número de áreas doloridas tendem a diminuir.6
Do ponto de vista físico, a dor contínua impacta na capacidade de realizar atividades diárias, levando a mais limitações ocupacionais. Os pacientes frequentemente compartilham que a dor crônica interfere no trabalho, nas interações sociais e familiares.6
Ao gerar impactos psicológicos e trazer limitações físicas, ela pode prejudicar significativamente a qualidade de vida dos pacientes.6
Considerada complexa, a dor crônica envolve uma combinação de fatores biológicos, emocionais e sociais que contribuem para esse quadro doloroso. Quem lida com essa questão pode enfrentar incompreensão e estigma, o que traz uma série de dificuldades para o seu dia a dia.7
Nesse sentido, o tratamento multidisciplinar no cuidado desse tipo de dor é essencial para melhorar os resultados no tratamento.7 Essa abordagem integra diferentes especialidades, como medicina, fisioterapia, enfermagem e psicologia, a fim de proporcionar cuidados centralizados no paciente.8
O objetivo da estratégia é trazer melhorias para todas as funcionalidades do indivíduo, tratando as manifestações físicas da dor e, ao mesmo tempo, os impactos sociais e emocionais.8
Há evidências clínicas que sugerem que a adoção de métodos multidisciplinares pode ser mais eficaz do que estratégias isoladas, ajudando na diminuição da dor, na prevenção de incapacidades prolongadas e, consequentemente, na melhora da qualidade de vida dos pacientes.8
Um dos principais benefícios que podem ser obtidos a partir dessa iniciativa é a redução do uso de medicamentos. Sendo assim, além de aliviar a dor, ela pode colaborar para uma menor dependência medicamentosa, minimizando os riscos de efeitos colaterais e complicações decorrentes do uso contínuo de medicamentos.8
O tratamento para dor crônica deve levar em consideração diversos fatores, como a origem da dor, a intensidade dos sintomas, a forma como cada pessoa responde às terapias e os possíveis efeitos colaterais de cada opção.9 Veja, abaixo, algumas alternativas terapêuticas disponíveis para gerenciar essa condição.
Os medicamentos desempenham papel essencial na redução do desconforto provocado pela dor, e o quadro específico de cada indivíduo deve ser considerado. Entre as opções mais comuns estão os opióides, que costumam ser indicados para dores intensas, como as que ocorrem pós cirurgia ou em pacientes oncológicos. Embora eficazes, o seu uso prolongado pode gerar dependências e efeitos adversos, como problemas gastrointestinais.9
Outra classe de fármacos amplamente utilizados são os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), sobretudo para dores associadas a inflamações, como na osteoartrite.9
Medicamentos como antidepressivos e anticonvulsivantes também têm ganhado destaque no tratamento de dor neuropática. Eles agem no sistema nervoso, reduzindo a percepção da dor.9
Como cada paciente responde de maneira distinta ao tratamento, pode ser necessário combinar diferentes classes medicamentosas para suprir as suas necessidades.9
A fisioterapia é uma aliada fundamental no gerenciamento da dor crônica, oferecendo uma variedade de técnicas, como os exercícios terapêuticos, que visam aumentar a força, flexibilidade e resistência muscular, bem como promover a estabilidade e a coordenação.9
Essas atividades podem ser adaptadas ao paciente, tornando o tratamento altamente personalizado. O alongamento, por exemplo, pode ser utilizado para aliviar a tensão muscular e estimular a amplitude do movimento das articulações afetadas pela dor. 9
O fortalecimento muscular também é um componente importante da fisioterapia no manejo da dor, uma vez que ajuda a estabilizar as estruturas musculoesqueléticas e reduzir a sobrecarga nas articulações.9
É necessário destacar que o tratamento da dor crônica não se limita apenas aos medicamentos tradicionais. Muitas pessoas têm buscado terapias alternativas como uma forma de complementar os métodos convencionais.9
Essas terapias englobam uma variedade de abordagens, como acupuntura, quiropraxia, massagem, meditação e yoga. Cada uma dessas práticas foca no bem-estar de uma maneira diferente, mas todas têm o objetivo comum de aliviar a dor e melhorar a qualidade de vida. 9
Por exemplo, a acupuntura, originária da medicina tradicional chinesa, utiliza agulhas finas em pontos específicos do corpo para equilibrar a energia vital e pode apresentar resultados positivos em casos de dor lombar e enxaquecas. 9
A massagem terapêutica pode ser adotada para relaxar os músculos tensos e melhorar a circulação em casos de dores musculares crônicas. Já a meditação, como por exemplo a mindfulness, combina o foco mental com o controle da respiração e pode contribuir para a percepção da dor, além de auxiliar o paciente a lidar com o estresse que o acompanha.9
A dor crônica está relacionada a disfunções nos circuitos neurais e estas, contribuem para atenuação de respostas prazerosas e/ou aumento de respostas depressivas que acompanham a dor.A Terapia Cognitivo-Comportamental parte do princípio de que pensamentos negativos contribuem para o sofrimento emocional e problemas de comportamento.10
Nesse contexto, alguns estudos têm sugerido que a TCC pode ser eficaz em contribuir para o tratamento da depressão, ansiedade, estresse e dor crônica, bem como para a qualidade de atividades diárias e no alívio de dores como dor de cabeça, dor facial, artralgia e fibromialgia.10
Para tanto, ela foca nas sensações físicas, pensamentos catastróficos e comportamentos prejudiciais manifestados pelo paciente.10
O bem-estar do paciente com dor crônica requer um conjunto de medidas, começando pela colaboração de diferentes áreas da saúde e do monitoramento contínuo da eficácia da terapia.7
O tratamento dessa condição se baseia na análise de fatores biológicos, psicológicos e sociais de cada indivíduo.7 O apoio social é um fator imprescindível para a sua melhora, pois pode reduzir a percepção de eventos estressantes e prejudicais.7
Contar com o suporte da família, amigos e dos médicos pode trazer mais motivação, pode elevar a tolerância à dor e diminuir a sua intensidade. Como o resultado da abordagem terapêutica na dor crônica é influenciado por questões biopsicossociais além dos médicos, ela deve ser adaptada a essas diferenças.7
A coexistência dos transtornos psiquiátricos e dor crônica é algo frequente, uma vez que condições emocionais podem intensificar a percepção da dor, enquanto a dor persistente pode agravar os sintomas psiquiátricos, criando um ciclo vicioso.4 Diante disso, o tratamento multidisciplinar se faz necessário para promover a melhora física, emocional e psicológica do paciente.8
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Referências
1. Velly AM, Mohit S. Epidemiology of pain and relation to psychiatric disorders. Progress in Neuro-Psychopharmacology and Biological Psychiatry. 2018;87:159-167.
2. Serafini RA, Pryce KD, Zachariou V. The Mesolimbic Dopamine System in Chronic Pain and Associated Affective Comorbidities. Biol Psychiatry. 2020;87(1):64-73.
3. Johnston KJ, Huckins LM. Chronic pain and psychiatric conditions. Complex Psychiatry. 2023;9(1-4):24-43.
4. Yao C, Zhang Y, Lu P, Xiao B, Sun P, Tao J, et al. Exploring the bidirectional relationship between pain and mental disorders: a comprehensive Mendelian randomization study. J Headache Pain. 2023;24(1):82.
5. Tyrer S, Wigham A. Psychiatric disorders and pain. In: Holdcroft A, Jaggar S, eds. Core Topics in Pain. Cambridge University Press; 2005:299-304.
6. Hadi MA, McHugh GA, Closs SJ. Impact of Chronic Pain on Patients’ Quality of Life: A Comparative Mixed-Methods Study. J Patient Exp. 2019;6(2):133-141.
7. Kovačević I, Pavić J, Filipović B, Ozimec Vulinec Š, Ilić B, Petek D. Integrated Approach to Chronic Pain-The Role of Psychosocial Factors and Multidisciplinary Treatment: A Narrative Review. Int J Environ Res Public Health. 2024;21(9):1135.
8. Reis BF, Santos JPB, Oliveira GL, Andrade CP. Abordagens multidisciplinares no tratamento da dor crônica: revisão integrativa de evidências clínicas. Rev Ibero-Americana Humanidades, Ciências e Educação. 2024;10(9):2299–2309.
9. Mendonça JC, Martins VS, Rodrigues MPD, Fernandes CHF, Fernandes IF. Abordagens multidisciplinares para o tratamento da dor crônica: uma revisão das terapias integrativas e estratégias de manejo da dor crônica, incluindo medicamentos, fisioterapia e terapias alternativas. Braz J Implantol Health Sci. 2023;5(5):129-144.
10. Lim JA, Choi SH, Lee WJ, Jang JH, Moon JY, Kim YC, et al. Cognitive-behavioral therapy for patients with chronic pain: Implications of gender differences in empathy. Medicine (Baltimore). 2018;97(23):e10867.
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