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Solidão e isolamento social na demência: um desafio invisível

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Você já parou para pensar como a falta de companhia pode mexer com a nossa mente de formas que nem imaginamos? O isolamento social pode não somente afetar nossos sentimentos, mas também deixar marcas profundas no nosso bem-estar.1 A relação entre solidão e demência é algo que tem preocupado a comunidade científica, devido aos impactos que a falta de socialização pode ter no cérebro.1

Segundo um estudo publicado pelo The Journals of Gerontology: Séries B, feito com 12.030 participantes que relataram sobre solidão e isolamento social a cada 2 anos ao longo de um acompanhamento de 10 anos, viver de forma solitária estava associado a um risco 40% maior de desenvolvimento de demência em comparação com indivíduos menos solitários.1

Para entendermos melhor essa questão, nós conversamos com o Dr. Rodrigo Rizek Schultz, médico neurologista, a Dra. Carla Núbia Borges, médica geriatra, presidente e secretária da geriatria da Associação Brasileira de Neuropsiquiatria Geriátrica (ABNPG), e Douglas Moraes Junior, diretor de negócios e inovação em impacto social da ABRAz, que abordam esse assunto de forma aprofundada. Confira!

O que são demências?

Atualmente, existem cerca de 55 milhões de pessoas vivendo com demência no mundo.2 E a estimativa é que esse número suba para 78 milhões até 2030.2

Antes de qualquer coisa, é necessário entender o que são demências. Segundo a Dra. Carla, elas podem ser definidas como doenças neurológicas degenerativas caracterizadas por alterações na memória, comportamento e cognição. O diagnóstico ocorre quando há mudanças nessas áreas.3

‘’Essas condições envolvem neuroinflamação, sendo influenciadas por fatores de risco como diabetes, hipertensão, baixa escolaridade, déficit auditivo, tabagismo, alcoolismo e traumas cranianos. Cada um desses fatores contribui para a formação de placas amiloides e a desorganização da proteína tau no cérebro3,  principais processos observados nas demências’’, destaca.

Como a solidão e o isolamento social podem aumentar o risco de demência?

Diferentemente do que pode parecer, a relação entre solidão e demência não é algo puramente emocional.1 De acordo com o Dr. Rodrigo, a questão envolve uma base neurobiológica relacionada ao estresse e à neuroinflamação.1

‘’A solidão por si só não causa demência, mas contribui para a neuroinflamação crônica, que altera o tecido cerebral.1 A falta de convívio social e estímulos reduz a interação neuronal, afetando a comunicação entre os neurônios e, consequentemente, o funcionamento do cérebro’’, afirma.

A solidão é um fator de risco para o desenvolvimento de demência.1 ‘’Pessoas solitárias tendem a ter uma alimentação pior, estando mais suscetíveis a doenças como: hipertensão, diabetes e obesidade. O isolamento social também está associado a distúrbios do sono e depressão1,3, que pode ativar as células neurais que contribuem para a formação de placas amiloides no cérebro’’, complementa a médica geriatra.

Isso afeta diretamente a saúde cerebral1, prejudicando as conexões neurais e acelerando o processo de deterioração cognitiva.3

O isolamento social acarreta um risco de 5% para o desenvolvimento de demência, assim como a baixa escolaridade, ficando abaixo apenas da hipoacusia (perda auditiva) e colesterol ‘’ruim’’ alto, ambos com 7%.3 ‘’Portanto, tem um impacto maior do que a hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo e sedentarismo’’, pontua o médico neurologista.

Tipos de demência mais impactadas pela solidão

Conforme abordado pelo neurologista, existem diferentes tipos de demência, e cada uma delas pode trazer desafios únicos.3 ‘’Entre as que mais podem ser afetadas pela solidão está a Demência de Corpos de Lewy, que causa alucinações visuais e parkinsonismo, que inclui sintomas como tremores, rigidez muscular e dificuldades motoras’’, acrescenta.

Segundo ele, outra condição com impacto relevante é a Demência Frontotemporal, que compromete os lobos frontal e temporal do cérebro, desencadeando mudanças no comportamento, personalidade e nas habilidades de linguagem. E a demência vascular, que pode levar a déficits motores, além de sintomas cognitivos.

‘’Quando essas condições já desafiadoras se combinam com fatores como o estresse e a solidão, o impacto na saúde mental e física da pessoa pode ser ainda maior. O isolamento social pode agravar o quadro, fazendo com que indivíduo se afaste ainda mais dos outros, o que gera mais sofrimento emocional e físico’’, salienta.

Embora o Alzheimer seja a demência mais conhecida, outras demências também podem sofrer influência da solidão pela falta de estímulo.1 

Estima-se que o Alzheimer afete 10% das pessoas acima de 65 anos e 33% acima de 85 anos. Caracterizado pela perda de memória, confusão e comprometimento cognitivo, a doença também causa alterações comportamentais e psicológicas, como agressividade, apatia, ansiedade, oscilações de humor, alucinações e delírios, que contribuem para o afastamento social do paciente, piorando sua condição.4

“O paciente com Parkinson também é bastante impactado pela solidão. Apresenta depressão com frequência, constata a perda de suas habilidades motoras, e essa questão colabora para a piora do seu estado mental”, ressalta Dra. Carla.

Como combater a solidão?

Solidão e isolamento social na demência: um desafio invisível

Intervir na solidão é fundamental para reduzir os riscos de desenvolvimento de condições de demência.2 É necessário trabalhar para fortalecer a conexão social e o sentimento de pertencimento, indica o membro da diretoria, secretária de geriatria da ABNPG.

‘’É importante que as pessoas solitárias ou que já possuem uma demência, mas ainda estão conscientes, estejam em comunidade. Participar de grupos de apoio permite que elas recebam apoio emocional, troquem experiências e esclareçam dúvidas’’, complementa.

Apesar de os grupos de apoio virtuais ajudarem num primeiro momento, é preciso deixar claro que eles não substituem o contato e convivência presencial com outras pessoas, lembra Dr. Rodrigo.

Todos nós devemos nos sensibilizar para perceber quem está em solidão ao nosso lado e tomar medidas para ajudar esses indivíduos.

A importância de um estilo de vida saudável

Como tem sido o seu estilo de vida ultimamente?  Você tem cuidado da sua alimentação, está dormindo bem ou simplesmente come qualquer coisa e dorme pouco? O autocuidado é muito importante para a sua saúde em geral e para evitar fatores que influenciam no surgimento de demências.3

‘’Muitos estudos mostram que as pessoas com uma rotina mais saudável, que dormem bem, têm uma dieta equilibrada e gerenciam suas medicações adequadamente têm mais controle sobre suas doenças, como exemplo hipertensão, diabetes, dislipidemia, e consequentemente menos chances de ter descompensações clínicas e piora do seu estado mental, psicológico e cognitivo’’, afirma Dra. Carla.  

O cuidador também merece ser cuidado

Os cuidadores de pessoas com demência, muitas vezes sobrecarregados e isolados devido às demandas emocionais e físicas do cuidado que os leva à exaustão, podem experimentar solidão, o que aumenta o risco de problemas de saúde mental e demências.5

Estima-se que 8 em 10 cuidadores no Reino Unido apresentam solidão ou se isolam socialmente como resultado do cuidar.5 Essas pessoas não se sentem confortáveis para conversar sobre o cuidado com os amigos ou não têm tempo para participar de atividades sociais’’, enfatiza o especialista em Neurologia.

Segundo Douglas, que já atuou como cuidador, ainda existe muito estigma sobre demências, que acaba afetando os cuidadores dos pacientes com esta condição, o que pode levá-los ao isolamento social.

O cuidado da pessoa com demência é algo muito solitário. O cuidador tende a adoecer, podendo sofrer de ansiedade, depressão e demais enfermidades que fazem com que haja uma retroalimentação negativa.5

Estratégias para evitar a solidão

Quando a solidão é vivenciada de forma contínua, fazendo parte do dia a dia, acaba se tornando maléfica para o seu corpo e mente.1 A conexão social é o grande fator no combate à solidão.1

Todavia, a busca por se conectar socialmente é um assunto complexo para as pessoas que recebem um diagnóstico de demência, pois elas tendem a ficar paralisadas, sem saber o que fazer. Por isso, a educação sobre o assunto e o envolvimento familiar são imprescindíveis para ajudá-las, reforça Dr. Rodrigo.

Ao descobrir que a solidão e o isolamento social são fatores de risco para demência4, o paciente que está consciente deve procurar ajuda e falar sobre isso. A partir do momento em que ele é sensibilizado, é importante que se esforce para socializar, participando de grupos de apoio ou fazendo novos cursos que estimulem a interação social, recomenda o médico neurologista.

‘’Ele pode se inscrever na academia, se desafiar a começar um curso de idiomas. Com a disponibilidade da tecnologia, também pode resgatar amigos antigos por meio das redes sociais e convidá-los para encontros presenciais’’, acrescenta.

Contudo, Douglas alerta para a importância desse processo ocorrer passo a passo, pois as pessoas em solidão podem encontrar dificuldades em simplesmente começar a socializar de uma hora para a outra.

No que se refere aos cuidadores, eles devem praticar a ressocialização, compartilhando o cuidado do doente com outras pessoas, seja com familiares ou profissionais capacitados para isso.5

Terapia e medicação

Para o médico neurologista, as estratégias de combate à solidão devem iniciar de forma individual, como a realização da terapia cognitivo-comportamental (TCC), que é essencial para expor e entender o tema, e a situação pela qual a pessoa está passando.

Em seguida, começam as estratégias comunitárias, como participar de grupos de apoio.3 Ademais, os cuidados farmacológicos, ou seja, a prescrição de medicamentos, se houver necessidade, também são fundamentais para o equilíbrio da mente.3

 A solidão, quando se converte em um estado permanente, pode ter impactos na nossa saúde mental e cognitiva, o que pode aumentar o risco de doenças como demência.1

A conscientização sobre esse assunto é vital, pois nos permite adotar estratégias preventivas e buscar ajuda em tempo oportuno.3 Seja através de terapia ou simplesmente criando novas conexões sociais, cada esforço conta para preservar o bem-estar mental e físico3, destacam os especialistas com os quais conversamos.

Se você ou alguém que você conhece está vivenciando a solidão, não hesite em procurar apoio. A mudança começa com a ação, e reconhecer que necessita de suporte médico é o primeiro passo para uma vida mais longeva, saudável e feliz!

Que tal manter a sua mente mais ativa e bem cuidada? Leia outras publicações no blog A Vida Plena e confira dicas exclusivas sobre saúde mental!

Referências

1. Sutin AR, Stephan Y, Luchetti M, Terracciano A. Loneliness and Risk of Dementia. J Gerontol B Psychol Sci Soc Sci. 2020;75(7):1414-1422.

2.Guarnera J, Yuen E, Macpherson H. The Impact of Loneliness and Social Isolation on Cognitive Aging: a Narrative Review. Journal of Alzheimer’s Disease Reports. 2023;7(1):699–714.

3. Livingston G, Huntley J, Liu KY, Costafreda SG, Selbæk G, Alladi S, et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. Lancet. 2024;404(10452):572-628.

4. Ren Y, Savadlou A, Park S, Siska P, Epp JR, Sargin D. The impact of loneliness and social isolation on the development of cognitive decline and Alzheimer’s Disease. Front Neuroendocrinol. 2023;69:101061.

5. Vasileiou K, Barnett J, Barreto M, Vines J, Atkinson M, Lawson S, et al. Experiences of Loneliness Associated with Being an Informal Caregiver: A Qualitative Investigation. Front Psychol. 2017;8:585.

Artigo elaborado em 11 de dezembro de 2024