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Toda dor no peito é infarto?

A dor no peito é uma das razões mais comuns para as pessoas procurarem atendimento médico, e ela pode ter muitas causas diferentes. Essas causas vão desde algo mais simples, como problemas musculares; até condições graves e urgentes, como um ataque cardíaco.¹

O problema é que, ao sentir isso, as pessoas se desesperam — e com razão — e acabam se preocupando além do que deveriam. Em alguns casos, a condição pode ter um tratamento mais simples.

Neste artigo vamos esclarecer por que toda dor no peito nem sempre é infarto. Continue a leitura para se manter bem informado sobre o assunto!

Toda dor no peito é infarto?

Quando alguém sente dor no peito, é importante que o tratamento envolva profissionais de diferentes áreas da saúde, pois nem sempre o problema está ligado ao coração

Pacientes que sentem dor no peito sem origem no coração, chamada de dor torácica não cardíaca, costumam ter características bem específicas.²

Por exemplo, eles frequentemente sofrem de problemas como:²

  • refluxo ácido;
  • dor de garganta; 
  • dificuldade para engolir;
  • regurgitação.

Curiosamente, essas pessoas não são muito diferentes, em termos de idade, gênero ou acompanhamento a longo prazo, de quem tem dores no peito causadas por problemas cardíacos. 

No entanto, há alguns fatores que aumentam o risco de dor torácica não cardíaca, como:²

  • estar acima do peso;
  • refluxo;
  • tabagismo;
  • uso de aspirina ou anti-inflamatórios;
  • ansiedade;
  • traços de personalidade mais sensíveis, como o neuroticismo.

O problema no diagnóstico é que os sintomas de dor torácica não cardíaca e dor cardíaca podem ser muito parecidos, como a localização da dor ou como ela responde a medicamentos.²

Isso acontece porque os nervos que levam as sensações do coração e de outros órgãos próximos, como o esôfago, usam os mesmos “caminhos” no sistema nervoso para chegar ao cérebro.²

O esôfago, por exemplo, envia muitos sinais ao cérebro, tanto quando há refluxo ácido quanto quando há alterações no movimento normal do órgão.²

Por isso, só é possível confirmar que a dor no peito não tem origem no coração depois de excluir completamente qualquer problema cardíaco. É um processo que exige cuidado e uma boa investigação médica.²

Quais as principais causas de dor no peito além do infarto?

Existem várias causas para a dor no peito que não está relacionada ao coração. Entre elas podemos citar:²

  • problemas nos músculos e ossos (que aparecem em 36–49% dos casos);
  • condições do sistema digestivo (2–19%);
  • questões emocionais ou psicológicas (5–11%);
  • problemas nos pulmões ou na região do mediastino (3–6%).

No entanto, quando falamos de dor no peito que não é cardíaca, os problemas gastrointestinais são os mais frequentes e exigem atenção especial.²

Algo que merece atenção é que medicamentos podem, às vezes, irritar o esôfago e causar dor no peito, especialmente em idosos.²

Isso geralmente acontece quando as pílulas são tomadas pouco antes de dormir ou sem beber água suficiente. Além disso, condições como inflamações causadas por infecções ou reações alérgicas no esôfago também são detectadas com mais frequência.²

Por essas razões, é muito importante que, ao realizar uma endoscopia (aquele exame que avalia o sistema digestivo), sejam feitas biópsias de rotina para verificar possíveis problemas no esôfago

O objetivo aqui é ajudar os médicos a identificar a causa exata da dor no peito e a oferecer o melhor tratamento.²

Refluxo gastroesofágico: como ele pode causar dor no peito

Problemas na movimentação do esôfago, conhecidos como distúrbios da motilidade esofágica, podem causar sintomas como dor no peito, azia ou dificuldade para engolir (disfagia).³

Esses distúrbios são diagnosticados por meio de um exame chamado manometria esofágica, que analisa como o esôfago se contrai

Às vezes, o esôfago pode fazer contrações muito fortes, o que pode causar dor no peito. Se essa dor aparece principalmente durante as refeições, pode ser um sinal de um problema chamado distúrbio de motilidade hipocontrátil, que é quando o esôfago se contrai de maneira exagerada

Por outro lado, se a dor no peito não está relacionada às refeições ou aparece sem dificuldade para engolir (disfagia), e é descrita como algo repentino que dura de alguns minutos a horas, ela provavelmente está associada a refluxo gastroesofágico ou a problemas funcionais do esôfago.³

Esses problemas funcionais são condições em que o esôfago não funciona perfeitamente, mas não há uma doença ou lesão estrutural detectável.³

Quando falamos de dor no peito que não está relacionada ao coração, o refluxo ácido (ou refluxo gastroesofágico) é uma das causas mais comuns, sendo responsável por 50–60% dos casos.²

Por isso, a primeira etapa do tratamento geralmente é o uso de medicamentos que ajudam a reduzir a acidez do estômago. Isso é feito de forma experimental, ou seja, para ver se há melhora.²

Vale destacar também que as biópsias do tecido do esôfago podem ser feitas para investigar condições mais específicas, como esofagite eosinofílica (uma inflamação causada por reações alérgicas ou imunes), infecções virais ou fúngicas, e até lesões associadas ao uso inadequado de remédios.²

A endoscopia também ajuda a descartar outros problemas do sistema digestivo que podem causar dor no peito, como úlceras no estômago, inflamação no pâncreas, pedras na vesícula ou infecções nos ductos biliares.²

Se mesmo após a endoscopia e o uso de medicamentos a dor persistir, o próximo passo é realizar testes mais específicos para entender o que está acontecendo.²

Um exame chamado pHmetria de 24 horas pode medir a quantidade de ácido no esôfago ao longo do dia, ajudando a identificar casos em que o refluxo (ácido ou não ácido) ainda é o problema.²

Outro teste importante é a manometria de alta resolução, que avalia como o esôfago se movimenta ao engolir e ajuda a diagnosticar alterações na motilidade esofágica, ou seja, no funcionamento do esôfago.²

Esses exames são ferramentas essenciais para entender melhor a causa da dor no peito e direcionar o tratamento mais adequado para o paciente.²

Como a ansiedade pode causar dor torácica?

Quando uma pessoa sente dor no peito, é muito importante considerar se há algum transtorno psicológico ou emocional por trás disso.4 

Às vezes, problemas psiquiátricos podem ser a causa direta da dor ou até mesmo intensificar o desconforto junto com outros fatores.4

No entanto, identificar o papel desses transtornos pode ser complicado, pois eles geralmente só são levados em conta depois que outras causas físicas são descartadas.4

Quando alguém está muito ansioso, por exemplo, e começa a respirar rápido e de forma superficial, ocorre algo que chamamos de padrão respiratório hiperventilador. Isso pode causar dor muscular no peito, mesmo sem nenhum problema físico grave no coração ou nos pulmões.4

Nesses casos, é importante que os médicos avaliem a possibilidade de:4

  • transtornos como ansiedade generalizada;
  • ataques de pânico;
  • estresse pós-traumático;
  • depressão;
  • condições como ansiedade relacionada à saúde e transtornos somáticos.

Falando especificamente sobre os transtornos de ansiedade, é comum que pessoas com dor no peito sintam ansiedade no momento da crise.4

Porém, muitas vezes, essa ansiedade não é só uma reação ao episódio, mas um sintoma de algo mais crônico. Estudos mostram que até um terço das pessoas que chegam ao pronto-socorro com dor no peito pode ter algum tipo de transtorno de ansiedade por trás disso.4

E tem mais: a relação entre dor no peito e ansiedade funciona nos dois sentidos. Por exemplo, sentir dor no peito pode gerar medo e até levar a um ataque de pânico.4

Por outro lado, quem já vive com ansiedade crônica pode ter sintomas físicos, como aperto no peito, que lembram uma angina (aquela dor relacionada ao coração).4

Esse ciclo entre mente e corpo é algo que médicos precisam observar com atenção, uma vez que tratar só a dor física, sem olhar para o lado emocional, pode não resolver o problema completamente.4

Problemas musculares e a dor no peito

Estudos mostram que, no mundo todo, cerca de 16% das pessoas que chegam aos departamentos de emergência com dor no peito sofrem de dor musculoesquelética no peito.5

É interessante notar que a dor musculoesquelética no peito pode variar dependendo de onde a pessoa mora. Por exemplo, a vida em áreas urbanas e rurais pode influenciar, já que exigências físicas e psicológicas, acesso à saúde e até suporte social diferem muito entre esses locais.5

Nos departamentos de emergência rurais, os desafios são ainda maiores por causa da falta de recursos, como infraestrutura e especialistas, o que aumenta a importância de coletar dados para melhorar os cuidados.5

No estudo, a dor no peito causada por problemas musculares ou nas costelas foi diagnosticada de várias formas. Uma delas era pressionando o peito para verificar se havia sensibilidade ou fazendo uma torção controlada do tórax.5

Se a dor piorava, isso indicava que a causa era musculoesquelética. Em alguns casos, médicos clínicos ou emergencistas usaram sua experiência para diagnosticar sem detalhes específicos do exame físico, o que tornou os dados um pouco menos claros.5

Percebeu como nem sempre a dor no peito é infarto? Mas o mais importante é procurar ajuda médica sempre que sentir qualquer desconforto. Independentemente do problema, é necessário tratamento específico para cada caso.

Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor.

As opiniões emitidas pelo(a) especialista são independentes e, necessariamente, não refletem a opinião da Libbs.

Referências

1. Haasenritter J, Biroga T, Keunecke C, Becker A, Donner-Banzhoff N, Dornieden K, Stadje R, Viniol A, Bösner S. Causes of chest pain in primary care–a systematic review and meta-analysis. Croat Med J. 2015 Oct;56(5):422-30. Disponível em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26526879/ Acesso em 23 Jan 2025

2. Frieling T. Non-Cardiac Chest Pain. Visc Med. 2018 Apr;34(2):92-96. Disponível em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29888236/ Acesso em 23 Jan 2025.

3. Wilkinson JM, Halland M. Esophageal Motility Disorders. Am Fam Physician. 2020 Sep 1;102(5):291-296. Disponível em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32866357/ Acesso em 23 jan 2025

4. Campbell KA, Madva EN, Villegas AC, Beale EE, Beach SR, Wasfy JH, Albanese AM, Huffman JC. Non-cardiac Chest Pain: A Review for the Consultation-Liaison Psychiatrist. Psychosomatics. 2017 May-Jun;58(3):252-265. Disponível em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28196622/ Acesso em 23 Jan 2025

5. Mandrekar S, Venkatesan P, Nagaraja R. Prevalence of musculoskeletal chest pain in the emergency department: a systematic review and meta-analysis. Scand J Pain. 2021 Apr 12;21(3):434-444. Disponível em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33838099/ Acesso e 23 Jan 2025