Scroll

Sentir o coração acelerado pode ter vários significados. Em muitos casos, pode se tratar de uma manifestação normal, que não está relacionada a nenhuma alteração na sua saúde. Mas pode ser resultado de um quadro psíquico, como uma crise de ansiedade.

Mesmo assim, é um sintoma que não pode ser subestimado e merece sua atenção, pois também pode estar relacionado a doenças cardíacas (cardiopatias). Em alguns casos, será uma queixa benigna, isto é, não relacionada a doenças mais graves. Em outros, pode ser a manifestação de condições cardiológicas urgentes, como o infarto agudo do miocárdio.1

Por esses motivos, é normal sentir preocupação quando se percebe uma alteração em seu ritmo. Afinal, esse órgão é um dos mais importantes do nosso corpo, bombeando o sangue para todos os tecidos.

Quer saber mais sobre o coração acelerado e se ele pode ser um sinal de ansiedade? Acompanhe este post que preparamos para você!

O que é a taquicardia?

Quando um paciente chega com essa queixa em um consultório ou hospital, será feita a medida da frequência cardíaca (FC) no exame físico médico. Se ela estiver acima de 100 bpm, é considerada taquicardia. Sendo que a FC normal seria entre 60 a 100 bpm.

Isso acontece, por exemplo, em situações de preocupação ou ansiedade2, mas pode ser também por uma alteração importante no seu coração.

Por que o coração acelera?

Para responder essa pergunta, é preciso rever alguns conceitos de como funciona o coração. Esse órgão é formado por células de músculo cardíaco (cardiomiócitos), as quais contraem, principalmente, devido a estímulos elétricos. Existem regiões no coração que geram, coordenam ou conduzem os estímulos elétricos.

O nó sinoatrial é o principal marcapasso do nosso coração, e propaga os sinais elétricos em um ritmo periódico. Ele coordena o batimento dos ventrículos, que são responsáveis por bombear o sangue para o corpo.

O nó atrioventricular também auxilia na condução das ondas elétricas, mas somente assume o papel de marcapasso se o nó sinoatrial falhar. Sua principal função é coordenar os batimentos dos átrios, a região do coração que recebe o sangue. Os átrios batem para auxiliar no enchimento dos ventrículos.

Os sinais elétricos saem dos nós e são transportados pelas vias condutoras de eletricidade do coração.3 No entanto, o ritmo cardíaco não é controlado apenas por esse sistema de condução interno. Ele também é regulado pelo sistema nervoso central (por meio do nervo vago) e pelos níveis de algumas substâncias presentes no sangue.

Portanto, o coração pode estar acelerado por diferentes motivos:

  • aumento nos níveis de catecolaminas, como a adrenalina, a noradrenalina e a dopamina: elas atuam em diversos órgãos e, no coração, fazem com que o ritmo do nó sinoatrial se acelere e leve ao aumento da frequência cardíaca4;
  • distúrbios de condução elétrica: ocorrem devido a alguma falha nos nós ou nas vias de condução do coração;
  • alterações na condução vagal: o ritmo do coração também é monitorado e controlado pelo sistema nervoso central por meio do nervo vago.5

Quais as causas do coração acelerado?

Existem diversas causas para o coração acelerado. Veja algumas das principais, a seguir.

Taquicardia sinusal

A maior parte dos pacientes com taquicardia apresenta uma de suas formas mais benignas, a sinusal. Geralmente, é desencadeada por eventos fisiológicos, isto é, respostas normais do seu organismo devido a algum fator de estresse físico ou psíquico. Nesse caso, o mecanismo é o seguinte:

  • determinado gatilho (emoções fortes, atividade física, estresse ou outras ocorrências do dia a dia) leva ao aumento de substâncias chamadas de catecolaminas;
  • elas atuam em diversos locais do nosso corpo e estão relacionadas com a resposta de luta e fuga contra ameaças. Esse mecanismo evolutivo faz nosso corpo entender que existe um risco e que é necessário escapar dele;
  • isso pode levar a alterações, como o coração acelerado, a sensação de falta de ar (dispneia) e a preocupação.

Portanto, a sensação de coração acelerado pode surgir quando você faz um esforço físico maior do que o habitual, recebe uma notícia ruim, assiste alguma cena forte ou passa por alguma emoção desafiadora.6

Ansiedade

É muito importante distinguir o que é a ansiedade normal do dia a dia e o transtorno de ansiedade generalizada (TAG). A sensação de ansiedade acontece quando estamos diante de uma novidade, um desafio ou uma ameaça. Esses estímulos levam à ativação dos mecanismos de luta e fuga. É muito comum sentir algum nível de ansiedade em situações de nossa rotina.

Nos transtornos ansiosos, essa sensação de ansiedade é mais intensa ou desencadeada mais frequente do que o normal. Além disso, faz com que a pessoa tenha prejuízo na funcionalidade. A ansiedade patológica pode estar relacionada a diversas condições, como a síndrome de Burnout.

O transtorno da ansiedade generalizada é caracterizado quando:

  • a pessoa sente ansiedade ou preocupação excessiva por mais de seis meses. O sintoma deve estar presente na maioria dos dias e diante de diversos eventos ou atividades cotidianas (como as domésticas, sociais, escolares ou profissionais);
  • o indivíduo tem dificuldade para controlar essas emoções.7

Além disso, o quadro precisa estar acompanhado de, pelo menos, três dos seguintes sintomas:

  • inquietação ou sensação de estar com os nervos à flor da pele;
  • cansaço; 
  • dificuldade em se concentrar ou sensação de “branco” na mente (falhas de memória);
  • irritabilidade; 
  • tensão muscular; 
  • perturbação do sono (dificuldade em conciliar ou manter o sono, ou sono insatisfatório e inquieto).8

Além disso, é preciso excluir outras causas que podem estar relacionadas aos sintomas, como doenças físicas, uso de substâncias ou outros transtornos psíquicos mais específicos.7

As pessoas com ansiedade, normalmente, ativam essa reação de luta e fuga com mais frequência. Afinal, uma das características dessa doença é o excesso de preocupação. É como se o indivíduo se sentisse ameaçado com estímulos cotidianos, o que leva à liberação das catecolaminas. Consequentemente, pode vir a sensação de coração acelerado.9

Dor intensa

A dor é uma das formas de nosso corpo sinalizar alguma ameaça a nossa integridade física. Nesse sentido, está intimamente ligada com o mecanismo de luta e fuga. Por isso, quando ela é mais intensa, pode levar ao aumento da frequência cardíaca.7

Ataque de pânico

No ataque de pânico, a nossa mente interpreta que há alguma ameaça muito intensa à nossa sobrevivência. Com isso, dispara uma reação de luta e fuga muito forte. Há pessoas que relatam uma sensação de que “o coração bate tão forte que parece que vai explodir” durante as crises.8 

Tabagismo

O tabaco apresenta dezenas de substâncias que atuam no coração e no sistema nervoso central. Entre elas, está a nicotina, que estimula a produção de catecolaminas, como a adrenalina. Assim, o fumante pode notar o coração acelerado nos momentos seguintes às tragadas.

Além disso, quando o fumo se torna um vício (tabagismo), o corpo se acostuma a níveis mais elevados de nicotina. Então, quando a pessoa fica mais tempo sem fumar, é desencadeada uma sensação de luta e fuga, que provoca a urgência em consumir o cigarro.10

Doenças cardíacas e cardiovasculares

Em alguns casos, porém, o coração acelerado pode significar alguma doença que atinge o coração. Entre elas:

  • infarto agudo do miocárdio;
  • insuficiência cardíaca;
  • defeitos nas vias de condução elétrica;
  • defeitos congênitos no coração;
  • aumento do tamanho do coração.11-12

Quais os tipos de taquicardia?

As taquicardias podem ser agrupadas de diversas formas. Veja algumas delas!

Taquicardia sinusal

A taquicardia sinusal é a mais comum e acontece quando o marcapasso do coração (o nó sinoatrial) aumenta a frequência de disparo dos seus sinais elétricos. Isso pode ocorrer, por exemplo, devido ao estímulo das catecolaminas ou por uma alteração na sinalização do nervo vago.

Ela pode ser provocada por diversas condições, como:

  • atividade física intensa;
  • febre;
  • dor intensa;
  • emoções fortes;
  • medo e estresse;
  • uso de determinados medicamentos e de drogas;
  • anemias mais intensas;
  • alterações nos hormônios da tireoide;
  • distúrbios vagais.11

Taquicardia atrial

As taquicardias atriais acontecem quando o ritmo de batimento dos átrios está acima do normal. É um batimento cardíaco acelerado que ocorre quando os impulsos elétricos normais do coração são interrompidos.

Podem surgir sintomas de palpitação, falta de ar e batimentos cardíacos mais rápidos. Esse, tipo de taquicardia precisa ser confirmada por meio de exames cardiológicos, como o eletrocardiograma.13

Taquicardia ventricular

A taquicardia ventricular ocorre quando o ritmo dos batimentos dos ventrículos é maior do que 100 batimentos por minuto. No entanto, a confirmação do diagnóstico demanda exames cardiológicos, como o eletrocardiograma.

Há diversas formas de classificar a taquicardia ventricular, de acordo com as alterações no eletrocardiograma. Isso auxilia a encontrar as causas mais prováveis do quadro, que pode estar associado a:

  • infarto agudo do miocárdio;
  • doenças do coração (cardiopatias);
  • distúrbios eletrolíticos (como níveis baixos de potássio ou de magnésio no sangue);
  • tromboembolismo;
  • efeitos colaterais de medicamentos ou drogas;
  • concentração de oxigênio baixa no sangue.

São comumente sintomáticas, manifestando-se como:

  • palpitações;
  • sensação de coração acelerado;
  • sinais de instabilidade hemodinâmica (alterações da pressão arterial, sonolência, confusão mental, entre outras alterações).

Em casos graves, a taquicardia ventricular pode resultar em desmaios e morte súbita.13

Quando você deve se preocupar com o coração acelerado?

Se está sentindo palpitações e isso está preocupando você, é importante procurar um médico. Assim, poderá ter uma avaliação de saúde mais completa. As informações a seguir têm caráter apenas informativo para auxiliar a sua tomada de decisão, e não substituem uma consulta clínica.

Outros pontos precisam de atenção, como:

  • seu coração está ficando acelerado com esforços pequenos, como andar poucos metros em uma rua plana, ou em repouso? Isso pode significar alguma cardiopatia (doença do coração);
  • há algum sintoma associado, como falta de ar, palpitações ou fadiga? Eles também podem ser evidências de cardiopatias7.

O importante é que você fique alerta para os sinais de gravidade, como:

  • sensação de falta de ar moderada ou intensa;
  • fraqueza;
  • tontura;
  • desmaios;
  • sensação de estar quase desmaiando;
  • dor ou desconforto na região do peito;
  • queda ou elevação brusca da pressão arterial.

Como eles podem estar relacionados a doenças graves, precisam de uma investigação médica urgente.

Qual a importância de consultar um médico?

A consulta com o médico traz a possibilidade de diagnosticar precocemente ou de tratar oportunamente condições que podem comprometer sua saúde. Além disso, estar com o coração acelerado pode trazer muita preocupação.

Na consulta, o médico vai investigar diversas alterações que podem estar relacionadas à condição. Caso necessário, poderá pedir exames complementares, como o hemograma, o eletrocardiograma e o ecocardiograma. Assim, se houver alguma doença, ela poderá ser diagnosticada.

Diante do que viu aqui, se o coração acelerado estiver preocupando você, a melhor medida é procurar um médico de sua confiança. Em geral, um diagnóstico precoce leva a um melhor prognóstico. Para casos graves, essa ação pode salvar a sua vida.14

Referências

1)  Sheldon, Robert S et al. “2015 heart rhythm society expert consensus statement on the diagnosis and treatment of postural tachycardia syndrome, inappropriate sinus tachycardia, and vasovagal syncope.” Heart rhythm vol. 12,6 (2015): e41-63. doi:10.1016/j.hrthm.2015.03.029

2) Zimetbaum, P, and M E Josephson. “Evaluation of patients with palpitations.” The New England journal of medicine vol. 338,19 (1998): 1369-73. doi:10.1056/NEJM199805073381907

3) Nerbonne, Jeanne M, and Robert S Kass. “Molecular physiology of cardiac repolarization.” Physiological reviews vol. 85,4 (2005): 1205-53. doi:10.1152/physrev.00002.2005

4) Motiejunaite, Justina et al. “Adrenergic receptors and cardiovascular effects of catecholamines.” Annales d’endocrinologie vol. 82,3-4 (2021): 193-197. doi:10.1016/j.ando.2020.03.012

5) Ng, G André. “Vagal modulation of cardiac ventricular arrhythmia.” Experimental physiology vol. 99,2 (2014): 295-9. doi:10.1113/expphysiol.2013.072652

6) Michaud, Gregory F., and William G. Stevenson. “Physiologic and Nonphysiologic Sinus Tachycardia.” Harrison’s Principles of Internal Medicine, 20e Eds. J. Larry Jameson, et al. McGraw Hill, 2018, https://accessmedicine.mhmedical.com/content.aspx?bookid=2129&sectionid=188731358.

7) American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed.). https://doi-org.ezproxy.frederick.edu/10.1176/appi.books.9780890425596

8) Bandelow, Borwin et al. “Biological markers for anxiety disorders, OCD and PTSD: A consensus statement. Part II: Neurochemistry, neurophysiology and neurocognition.” The world journal of biological psychiatry : the official journal of the World Federation of Societies of Biological Psychiatry vol. 18,3 (2017): 162-214. doi:10.1080/15622975.2016.1190867

9) Barsky, A J et al. “Panic disorder, palpitations, and the awareness of cardiac activity.” The Journal of nervous and mental disease vol. 182,2 (1994): 63-71. doi:10.1097/00005053-199402000-00001

10) D’Alessandro, Alessandra et al. “Nicotine, cigarette smoking and cardiac arrhythmia: an overview.” European journal of preventive cardiology vol. 19,3 (2012): 297-305. doi:10.1177/1741826711411738

11) Weber, B E, and W N Kapoor. “Evaluation and outcomes of patients with palpitations.” The American journal of medicine vol. 100,2 (1996): 138-48. doi:10.1016/s0002-9343(97)89451-x

12) Yusuf, Shamil, and A John Camm. “The sinus tachycardias.” Nature clinical practice. Cardiovascular medicine vol. 2,1 (2005): 44-52. doi:10.1038/ncpcardio0068

13) Al-Khatib, Sana M et al. “2017 AHA/ACC/HRS Guideline for Management of Patients With Ventricular Arrhythmias and the Prevention of Sudden Cardiac Death: A Report of the American College of Cardiology/American Heart Association Task Force on Clinical Practice Guidelines and the Heart Rhythm Society.” Journal of the American College of Cardiology vol. 72,14 (2018): e91-e220. doi:10.1016/j.jacc.2017.10.054

14) Arrhythmia. National Heart, Lung, and Blood Institute. https://www.nhlbi.nih.gov/health-topics/arrhythmia. Acesso em: 31 maio 2022.