Scroll

As canetas emagrecedoras vêm ganhando destaque nos últimos anos como uma alternativa para o tratamento da obesidade¹.

Esses medicamentos pertencem à classe dos agonistas do receptor de peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1RAs)¹. Apesar de serem eficazes no controle do peso, é essencial entender seus efeitos, contraindicações e riscos, sobretudo quando usados sem acompanhamento médico, para garantir a segurança do tratamento e maximizar os resultados.

Como as canetas emagrecedoras funcionam?

O mecanismo de ação das canetas emagrecedoras está relacionado à sua capacidade de imitar mecanismo de hormônios naturais que controlam o apetite e o metabolismo do açúcar no sangue¹.

Ao atuar no cérebro, esses medicamentos ajudam a reduzir a sensação de fome, permitindo que o paciente coma menos. Além disso, retardam o esvaziamento do estômago, promovendo sensação prolongada de saciedade, e influenciam a motilidade intestinal e a secreção digestiva¹.

Alguns medicamentos dessa classe atuam de forma dupla: além de suprimir o apetite, também agem no intestino, respondendo à presença de nutrientes para a regulação metabólica, potencializando os efeitos no controle de peso².

Canetas para emagrecer têm efeitos colaterais?

Como qualquer medicamento, as canetas emagrecedoras podem causar efeitos adversos que variam de leves a graves, sendo os mais graves considerados raros¹.

Os efeitos gastrointestinais são os mais comuns e frequentemente motivam a interrupção do tratamento. Náuseas, dor abdominal, refluxo, inchaço, vômitos, diarreia e constipação ocorrem em grande parte dos pacientes nos primeiros meses de uso¹.

Embora a intensidade dos sintomas tenda a diminuir com o tempo, até metade dos usuários podem interromper o tratamento devido a esses desconfortos¹. Por isso, segundo o gastroenterologista Dr. Décio Chinzon (CRM 49552 SP – RQE 11890), antes de iniciar qualquer tratamento com canetas emagrecedoras é fundamental que o paciente conheça a fundo os possíveis efeitos colaterais e as estratégias para preveni-los. “O acompanhamento médico próximo é essencial. Ele permite orientar sobre a dose adequada, monitorar reações adversas e ajustar o plano conforme as necessidades de cada pessoa. Assim é possível garantir não apenas a segurança, mas também a adesão correta ao tratamento.”

Canetas para emagrecer causam constipação?

A constipação é um efeito adverso relativamente frequente, embora menos comum que a náusea, e pode afetar de 4% a 12% dos pacientes. Em pessoas com sobrepeso ou obesidade, a prevalência pode chegar a 25% a 35%³.

Geralmente, o sintoma surge nas primeiras semanas de uso, mas pode se estender por períodos mais longos. Estudos indicam que a sensação prolongada de estômago cheio leva à ingestão reduzida de líquidos, o que potencializa a constipação³. “

Canetas emagrecedoras trazem riscos à saúde?

Apesar das preocupações iniciais, os riscos mais graves associados às canetas emagrecedoras são baixos¹. Casos de gastroparesia, doença crônica que retarda o esvaziamento do estômago, e obstrução intestinal foram relatados, assim como um leve aumento de risco de doenças da vesícula biliar, que está mais relacionado à perda de peso em geral do que ao uso do medicamento em si¹.

Além disso, há indícios de risco aumentado para pancreatite. No entanto, estudos amplos não mostram aumento claro desse risco e a maioria das pesquisas de “vida real” corrobora que esses eventos graves são raros. Portanto, quando usados sob orientação médica, esses medicamentos apresentam perfil de segurança aceitável para a maioria dos pacientes¹.

Qual a relação das canetas emagrecedoras e a depressão?

Houve questionamentos sobre a relação entre entre as canetas emagrecedoras e pensamentos de automutilação ou suicídio¹. Estudos recentes de grande escala, no entanto, não encontraram evidências consistentes de aumento do risco de depressão, ideação suicida ou comportamento autoagressivo em usuários dessas medicações¹.

“É importante, porém, que pacientes com histórico de transtornos psiquiátricos mantenham acompanhamento médico próximo durante o tratamento”, ressalta o médico.

Existem contraindicações para canetas emagrecedoras?

As contraindicações das canetas emagrecedoras estão relacionadas, principalmente, a situações em que o medicamento pode representar algum risco significativo para a saúde do paciente1.

Um dos pontos mais destacados é o risco potencial de câncer de tireoide medular (MTC), observado em estudos realizados com roedores. Nessas pesquisas, o medicamento esteve associado ao crescimento excessivo das chamadas células C da tireoide, responsáveis por formar tumores nesse órgão. Por causa desse achado em animais, a agência reguladora dos Estados Unidos (FDA) recomenda que pessoas com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide (MTC), assim como aquelas com a síndrome rara de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM2), evitem o uso desses medicamentos¹.

Por outro lado, na Europa, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) não incluiu essa condição como contraindicação no licenciamento desses medicamentos. Vale destacar que a relevância desses achados para humanos ainda é incerta, e a maior parte das evidências disponíveis indica que a relação entre GLP-1RAs e câncer de tireoide em pessoas é muito fraca ou praticamente inexistente¹.

Além disso, o uso desses medicamentos costuma ser contraindicado para pessoas com histórico de pancreatite, mulheres grávidas ou em amamentação. Segundo o Dr. Chinzon, “as grávidas não podem tomar esses medicamentos porque eles não foram estudados nesse grupo, e há riscos potenciais para o feto, como defeitos congênitos, maior risco de aborto espontâneo e baixo peso ao nascer.”

O médico também lembra que o medicamento não é indicado para pessoas com diabetes tipo 1 ou para pacientes que apresentam cetoacidose diabética, uma complicação grave desse tipo de diabetes.

Lidando com os efeitos colaterais das canetas para emagrecer

Para reduzir a intensidade dos efeitos no sistema gastrointestinal das canetas para emagrecer, é importante seguir algumas orientações práticas no dia a dia. Comer devagar, apenas quando sentir fome, e optar por porções menores, distribuídas ao longo do dia, ajuda a prevenir desconfortos3.

Evitar deitar-se logo após a refeição e parar de comer ao sentir-se satisfeito são medidas que favorecem a digestão. Quanto à escolha dos alimentos, prefira preparações leves, assadas, grelhadas ou cozidas, com baixo teor de gordura, evitando temperos fortes, comidas muito doces ou industrializadas³.

De acordo com Chinzon, uma das principais medidas é a hidratação. “A ingestão de líquidos deve ser constante, mas em pequenas quantidades de cada vez, e a prática de exercícios leves e momentos de ar fresco contribuem para a redução dos sintomas. Além disso, manter um diário alimentar pode ajudar a identificar padrões que causam esses desconfortos.”

Como lidar com a constipação causada por canetas emagrecedoras

Como vimos, a constipação é um dos efeitos colaterais mais comuns das canetas emagrecedoras, e existem estratégias simples que podem ajudar a reduzir seu impacto no dia a dia.

Para aliviar ou prevenir o problema, a recomendação é dar atenção especial à dieta e à hidratação, garantindo a ingestão adequada de fibras e líquidos, preferencialmente água ou outras bebidas sem açúcar³.

Além disso, manter uma alimentação equilibrada e saudável contribui para regular o intestino. A prática de atividade física regular também é indicada, pois ajuda a estimular a motilidade intestinal³.

Em casos mais persistentes, pode-se considerar o uso de laxantes³. Segundo o médico, laxantes osmóticos tendem a ser boas opções. “Os laxantes osmóticos atraem a água para dentro do intestino, hidratando e amolecendo as fezes, facilitando a evacuação. Esse mecanismo de atuação é relevante para quem está em tratamento com as canetas porque, muitas vezes, os pacientes esquecem de comer e tomar água pela supressão do apetite.”

O especialista reforça, no entanto, que nenhum medicamento deve ser tomado sem orientação médica. “Por isso é sempre importante informar o médico sobre qualquer sintoma adverso durante o tratamento. Só assim medidas seguras para aliviar os efeitos colaterais ou ajustes na dose do medicamento podem ser indicadas com segurança, de modo a minimizar o desconforto do paciente sem comprometer a eficácia do tratamento”, afirma Chinzon.

Emagrecimento só é seguro e eficaz com acompanhamento médico

O mais importante para um processo de emagrecimento seguro e eficaz, segundo o médico, é contar com acompanhamento profissional. “Não existe uma caneta mágica capaz de consertar um estilo de vida inadequado. Sem orientação médica e nutricional, muitas pessoas podem usar o medicamento de forma incorreta, aumentando o risco de efeitos colaterais. Além disso, quem tenta perder apenas alguns quilos sem mudar hábitos tende a recuperar o peso rapidamente após interromper o uso.”

Quando o paciente segue corretamente a dosagem prescrita e mantém acompanhamento, o tratamento costuma ser bem tolerado. “Sem orientação, há riscos de desidratação ou consequências de dietas muito restritivas, como perda de massa muscular”, alerta o especialista.

Tratamento da obesidade precisa ser personalizado

Cada pessoa que enfrenta a obesidade tem uma história e necessidades diferentes, e por isso o tratamento deve ser individualizado. O Dr. Chinzon explica que, antes de iniciar qualquer medicação, é fundamental realizar uma avaliação clínica completa, incluindo exames laboratoriais, para compreender os fatores que levaram ao ganho de peso.

A partir disso, é possível estabelecer um plano com metas realistas, que envolva mudanças de hábitos e, quando necessário, o uso de medicamentos. “Alguns pacientes precisam de medicação, mas ela deve fazer parte de um plano mais amplo, que inclua outras mudanças de estilo de vida”, afirma o especialista.

Referências

  1. Thomsen RW, Mailhac A, Løhde JB, Pottegård A. Real-world evidence on the utilization, clinical and comparative effectiveness, and adverse effects of newer GLP-1RA-based weight-loss therapies. Diabetes Obes Metab. 2025 Apr;27 Suppl 2(Suppl 2):66-88.
  2. Fisman EZ, Tenenbaum A. The dual glucosedependent insulinotropic polypeptide (GIP) and glucagon-like peptide-1 (GLP-1) receptor agonist tirzepatide: a novel cardiometabolic therapeutic prospect. Cardiovasc Diabetol. 2021 Nov 24;20(1):225.
  3. Gorgojo-Martínez JJ, Mezquita-Raya P, CarreteroGómez J, Castro A, CebriánCuenca A, de TorresSánchez A, García-de-Lucas MD, Núñez J, Obaya JC, Soler MJ, Górriz JL, RubioHerrera MÁ. Clinical Recommendations to Manage Gastrointestinal Adverse Events in Patients Treated with Glp-1 Receptor Agonists: A Multidisciplinary Expert Consensus. J Clin Med. 2022 Dec 24;12(1):145